Santa Catarina registra cerca de 32 mil vagas industriais em aberto, e a competição entre multinacionais e grandes empresas por mão de obra qualificada já afeta diretamente o setor têxtil e de vestuário do estado. O fenômeno, noticiado pelo portal ND Mais em 22 de maio de 2026, expõe uma fragilidade estrutural que vai além do aquecimento pontual do mercado de trabalho: a falta crônica de profissionais especializados em costura, modelagem e operação de máquinas industriais pressiona custos de produção e compromete prazos de entrega em um dos polos confeccionistas mais relevantes do Brasil.
Polo têxtil sob pressão
Municípios como Blumenau, Brusque e Jaraguá do Sul concentram parte expressiva da produção nacional de moda e uniformes profissionais. São regiões que historicamente sustentaram cadeias produtivas completas, do fio à peça acabada, mas que hoje enfrentam dificuldade crescente para preencher postos operacionais básicos. Costureiras e modelistas qualificadas tornaram-se perfis escassos. A situação se agravou a partir de 2023, quando o aquecimento geral da indústria brasileira intensificou a concorrência por trabalhadores entre setores com capacidade salarial muito diferente.
Empresas multinacionais instaladas em Santa Catarina, com maior fôlego financeiro, reforçaram pacotes de benefícios e programas de qualificação interna para atrair e reter funcionários. Algumas firmaram parcerias com o SENAI para formar trabalhadores diretamente no chão de fábrica. O setor de vestuário, com margens mais estreitas, tem dificuldade de competir nessa disputa e acaba absorvendo o que sobra do mercado ou investindo tempo e dinheiro na formação de pessoal que pode ser recrutado por concorrentes assim que estiver capacitado.
Custo de produção e competitividade externa
A escassez de mão de obra qualificada tem efeito direto nos custos. Quando uma fábrica não consegue preencher seu quadro operacional, recorre a horas extras, terceirização ou aceita atrasos na produção, todas opções que encarecem o produto final. Num mercado em que a concorrência com produtos asiáticos já é assimétrica pelo diferencial de custo de trabalho, qualquer pressão adicional sobre o preço do produto nacional reduz ainda mais a competitividade da indústria brasileira.
O Brasil importou cerca de US$ 1,6 bilhão em produtos têxteis e de vestuário em 2024, segundo dados da Abit, enquanto a produção doméstica segue pressionada por carga tributária elevada e infraestrutura logística deficiente. A escassez de mão de obra entra como mais um fator nessa equação desfavorável.
Sem políticas estruturadas de formação profissional voltadas especificamente ao setor têxtil e de confecção, a tendência é que as vagas abertas em Santa Catarina sigam sendo preenchidas de forma precária ou simplesmente permaneçam em aberto. O SENAI catarinense formou 47 mil profissionais na indústria em 2024, mas a demanda do setor supera a capacidade de reposição atual.

