O avanço de tecnologias limpas e a ascensão dos veículos elétricos colocam pressão sobre a cadeia global de lítio, essencial em baterias e sistemas de armazenamento energético. O acesso a insumos de alta pureza, antes restrito praticamente à China, se torna tema estratégico internacionalmente. A refinaria da Companhia Brasileira de Lítio (CBL), em Divisa Alegre, Minas Gerais, enfrentava limitações operacionais para atender a demanda crescente por carbonato de lítio industrial.
Com a aquisição de 33% da planta refinadora da CBL pela indiana Altmin e o investimento de US$ 40 milhões, o problema de capacidade produtiva passa a ser enfrentado com uma solução diretamente ligada à expansão industrial. A decisão de engenharia materializa-se na triplicação da capacidade nominal da planta: de 2 mil toneladas para 6 mil toneladas por ano do principal insumo para baterias de veículos e sistemas estáticos de energia.
A limitação original era clara: exportação de recursos in natura e baixo valor adicionado localmente. A engenharia do novo projeto prioriza verticalização da produção para conquistar espaço global no mercado de insumos avançados. Esse movimento reduz a dependência de intermediários internacionais, permitindo que o estado de Minas Gerais mantenha maior parcela da cadeia de valor, incluindo etapas de purificação industrial superior a 99,8% do composto produzido.
Ao focar nessa verticalização, a CBL passa a deter a condição de única companhia fora da China apta a fornecer carbonato de lítio grau bateria em escala industrial integralmente comprovada, resultado de décadas de pesquisa e desenvolvimento.
A planta a ser expandida está localizada em Divisa Alegre, Norte de Minas, região que concentra as maiores reservas nacionais de lítio e responde por mais de 90% das exportações brasileiras dessa cadeia. Os US$ 40 milhões serão direcionados à adaptação e aquisição de novos equipamentos, elevando o volume anual produzido para 6 mil toneladas, marca alinhada à crescente demanda de mercados como veículos elétricos e grandes sistemas de energia de suporte à matriz limpa.
O projeto Vale do Lítio, lançado em 2023, articula estado, municípios e setor produtivo para ampliar a infraestrutura, atrair companhias e qualificar mão de obra. A integração da expansão da CBL com essa iniciativa estadual reforça o protagonismo de Minas Gerais em minerais estratégicos.
A decisão de ampliar a refinaria surge como resposta à volatilidade dos preços do lítio e ao reconhecimento da dependência internacional — especialmente em relação à China — para alguns minerais críticos. O aumento de produção amplia a segurança de suprimento nacional e abre espaço para valorização interna do mineral, gerando mais receita e empregos especializados.
No entanto, há trade-offs envolvidos: o aumento da oferta em um cenário de preços instáveis pode impactar margens de lucro no curto prazo. Existe também o desafio de garantir que a nova capacidade seja absorvida integralmente pelo mercado global, exigindo parcerias comerciais estruturadas.
Segundo a associação Ibram, projetos envolvendo minerais estratégicos no Brasil, dentre eles lítio, níquel, nióbio e grafite, devem receber até US$ 21,3 bilhões em investimentos entre 2026 e 2030, um avanço de 15,2% sobre o período anterior de cinco anos. A expansão da CBL consolida um marco nesse ambiente de corrida mundial por autonomia em cadeias de energia limpa e eletrificação.
A entrada de players internacionais, como a Altmin, reforça o paradigma de que segurança de suprimento e agregação de valor local se tornaram prioridades estruturais — um movimento que tende a redefinir o papel do Brasil no cenário global dos minerais para as próximas décadas.

