A fábrica da Boeing em Everett tem volume interno de 13,3 milhões de metros cúbicos e produz aviões que custam mais de 400 milhões de dólares cada dentro de um único galpão que cria sua própria clima

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A estrutura com volume de 13,3 milhões de metros cúbicos que a Boeing ergueu em Everett em 1967 ainda é a maior construção isolada do planeta por volume, segundo o Guinness World Records

Poucos edifícios industriais do mundo carregam uma estatística capaz de parar qualquer conversa. A fábrica da Boeing em Everett, no estado de Washington, nos Estados Unidos, tem volume interno equivalente a colocar 75 campos de futebol americano debaixo de um único telhado, com folga para sobrar. Nenhuma outra estrutura construída pelo ser humano supera esse número em volume total.

O dado registrado pelo Guinness World Records é 13,3 milhões de metros cúbicos de espaço interno. Para dar escala a isso, o estádio do Maracanã, um dos maiores do Brasil, tem volume estimado em cerca de 900 mil metros cúbicos. A fábrica de Everett caberia quase 15 Maracanãs dentro dela, com estrutura, arquibancadas e tudo o mais.

O galpão foi construído originalmente para abrigar a linha de montagem do Boeing 747 e foi expandido três vezes entre 1967 e 1993 à medida que novos programas foram sendo adicionados

A história do complexo começa em 1966, quando a Boeing precisava de um local para montar o 747, o primeiro jumbo jet comercial da história. O terreno escolhido ficava em Everett, a cerca de 40 quilômetros ao norte de Seattle. A construção durou 17 meses e custou, à época, aproximadamente 200 milhões de dólares. O 747 fez seu voo inaugural em 1969, apenas dois anos depois da fábrica ser erguida.

Com o lançamento do 767 na década de 1980 e depois do 777 nos anos 1990, a Boeing expandiu o galpão em ondas sucessivas. Cada expansão foi projetada para não interromper a linha de produção em curso. Hoje, o complexo abriga simultaneamente as linhas de montagem final dos modelos 747, 767, 777 e 787, cada um com características dimensionais, de peso e de sistema completamente distintas.

A concentração de umidade dentro do galpão é tão alta que, antes da instalação do sistema de controle climático, nuvens se formavam próximas ao teto durante dias frios em Everett

Um dos detalhes mais citados sobre a fábrica de Everett é o fenômeno climático interno. O galpão original não tinha sistema de ventilação suficiente para controlar a umidade gerada pela presença de milhares de funcionários, pelos processos de pintura e pela diferença de temperatura entre o interior e o exterior no inverno do noroeste americano. O resultado documentado era a formação de nuvens baixas dentro da própria estrutura, com chuviscos ocasionais sobre os aviões em montagem.

O problema foi resolvido ao longo dos anos com a instalação de um sistema de HVAC industrial de grande porte, capaz de movimentar volumes de ar suficientes para estabilizar a temperatura e a umidade em toda a extensão do galpão. Mesmo assim, a fábrica ainda é descrita por engenheiros como um microclima próprio, com variações perceptíveis entre zonas da estrutura dependendo da atividade em curso.

Cerca de 30 mil funcionários trabalham no complexo de Everett distribuídos em turnos, o que faz do local uma das maiores concentrações de mão de obra especializada em manufatura aeronáutica do mundo

O complexo não é apenas um galpão. O campus de Everett inclui escritórios de engenharia, centros de treinamento, hangares de teste e pintura, além de uma infraestrutura logística própria com estradas internas, docas de carga e até uma pista de pouso adjacente, o Paine Field, de onde os aviões concluídos decolam para testes de voo antes da entrega ao cliente.

Conforme dados da Boeing, o complexo emprega diretamente cerca de 30 mil pessoas, entre engenheiros, técnicos de montagem, inspetores de qualidade e pessoal de suporte. A cadeia de fornecimento que alimenta a fábrica envolve mais de 12 mil empresas fornecedoras distribuídas em 44 países, segundo a própria Boeing.

A montagem final de um Boeing 777X, o maior avião de fuselagem larga em produção, envolve mais de 3 milhões de peças individuais e leva várias semanas para ser concluída dentro da linha

Dentro da fábrica de Everett, o 777X representa o desafio de montagem mais complexo em curso hoje. Com envergadura de 71,8 metros, o modelo exige que as pontas das asas sejam dobráveis para caber em portões de aeroporto, uma solução de engenharia que adiciona camadas de complexidade ao processo de fabricação e certificação. A fuselagem é construída em seções que chegam de fornecedores de diferentes países e são unidas dentro do galpão em sequência controlada.

O processo de montagem final de um avião de grande porte na linha de Everett segue um sistema chamado “moving line”, no qual as aeronaves se deslocam lentamente ao longo da fábrica em intervalos predefinidos, semelhante ao que Henry Ford introduziu na indústria automotiva no início do século XX. Cada estação da linha tem um escopo fixo de trabalho e um tempo-alvo. Atrasos em uma estação propagam impacto para todas as seguintes.

No Brasil, Embraer opera em São José dos Campos o maior complexo aeronáutico da América Latina, mas com escala de produção e dimensões físicas cerca de dez vezes menores do que Everett

A comparação com o contexto brasileiro é inevitável para dimensionar o que Everett representa. A Embraer, em São José dos Campos, é a quarta maior fabricante de aeronaves comerciais do mundo e referência em jatos regionais, com o E-Jet E2 sendo exportado para companhias aéreas em dezenas de países. Mas o complexo fabril da Embraer opera em escala física significativamente menor do que Everett, reflexo direto do porte das aeronaves produzidas e do volume de encomendas.

Um E195-E2 da Embraer pesa na decolagem cerca de 61 toneladas. Um Boeing 777X chega a 352 toneladas. A diferença de escala entre os aviões explica boa parte da diferença entre os galpões. O Brasil tem capacidade industrial aeronáutica reconhecida globalmente, mas Everett opera em uma categoria própria de complexidade logística e volume produtivo que não tem paralelo no hemisfério sul.

A Boeing planeja continuar usando o complexo de Everett por décadas, mas o futuro do 747, o avião que originou a fábrica, chegou ao fim em 2023 com a entrega do último exemplar produzido

Em janeiro de 2023, a Boeing entregou o último Boeing 747 produzido, encerrando 54 anos de fabricação contínua do modelo. O avião foi para a Atlas Air, companhia americana de carga. A linha do 747 em Everett foi encerrada, mas o espaço foi rapidamente reconfigurado para absorver demanda crescente por 767 e 777. A fábrica que nasceu para um avião sobreviveu ao próprio avião que justificou sua construção.

Conforme dados da Boeing divulgados em 2023, a carteira de pedidos total da fabricante ultrapassa 5.600 aeronaves, com valor estimado superior a 440 bilhões de dólares. Grande parte dessas entregas passará pelas linhas de Everett nas próximas duas décadas, o que garante ao complexo relevância operacional pelo menos até meados dos anos 2040.

Uma fábrica que gera seu próprio clima interno, que sobreviveu ao avião que a criou e que reúne 30 mil trabalhadores sob um único telhado de 13,3 milhões de metros cúbicos levanta uma pergunta concreta: existe algum limite real para o tamanho de uma instalação industrial quando o produto final pesa mais de 300 toneladas? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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