As montadoras chinesas BYD e XPeng avançam sobre plantas industriais europeias em um movimento que redesenha a cadeia automotiva do continente. A BYD, maior fabricante de veículos elétricos do mundo em volume, avalia a aquisição ou o uso de fábricas da Stellantis, holding dona de Fiat, Peugeot, Citroën e Jeep, que vem fechando ou subutilizando unidades produtivas na Europa. Já a XPeng negocia a compra de uma planta da Volkswagen, pressionada pelo crescimento de 62% em suas exportações e pela necessidade de produzir localmente para escapar das tarifas europeias sobre elétricos fabricados na China.
Tarifas como catalisador da expansão
A União Europeia impõe tarifas que superam 35% sobre veículos elétricos importados da China. Para BYD e XPeng, produzir dentro do bloco deixou de ser uma opção estratégica e virou condição de sobrevivência comercial. Sem manufatura local, os preços sobem a ponto de tirar a competitividade frente às montadoras europeias, que operam sem esse custo adicional. A XPeng, em particular, registrou um avanço expressivo de exportações nos últimos 12 meses, e a fábrica da Volkswagen em avaliação permitiria absorver parte dessa demanda sem os encargos tarifários.
Stellantis abre espaço involuntário
A reestruturação produtiva da Stellantis criou uma janela. A holding enfrenta um processo de racionalização de suas operações europeias, com fábricas subutilizadas ou em processo de desativação em países como Itália e França. A BYD, que já conta com uma planta em construção na Hungria, enxerga nessas instalações ociosas a possibilidade de acelerar sua presença industrial no continente sem o tempo e o custo de erguer uma fábrica do zero. Nenhuma das partes confirmou oficialmente qualquer acordo até o momento.
O padrão se repete: fábricas construídas por décadas por grupos ocidentais passam à órbita de concorrentes asiáticos, com capacidade produtiva, logística instalada e força de trabalho já disponível. Para as comunidades industriais europeias, a transição levanta questões sobre manutenção de empregos e condições dos acordos sindicais existentes nessas plantas.
Corrida por territorialização industrial
O que se observa em maio de 2026 é uma fase nova da disputa pelo mercado global de elétricos: não basta vender o carro, é preciso fabricá-lo no mesmo território onde ele será vendido. BYD e XPeng seguem uma lógica que Tesla já aplicou ao construir a Gigafactory em Berlim, inaugurada em 2022. A diferença é que as chinesas chegam aproveitando ativos já existentes, a um custo potencialmente menor e em um momento em que as montadoras tradicionais reduzem capacidade.
A BYD encerrou 2024 como a maior vendedora de elétricos do mundo, com mais de 1,76 milhão de unidades puramente elétricas comercializadas no ano. A XPeng entregou cerca de 190 mil veículos no mesmo período, com crescimento acelerado no mercado europeu nos últimos trimestres.

