A Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que 40% das empresas industriais brasileiras comercializam seus produtos acompanhados de algum serviço agregado, fenômeno que pesquisadores e executivos do setor chamam de “servitização”. O dado, divulgado em levantamento recente da entidade, mostra uma mudança estrutural no modelo de negócios da indústria nacional, que busca ampliar margens e se diferenciar da concorrência importada ao combinar manufatura com manutenção, consultoria técnica, monitoramento e suporte pós-venda.
Alumínio na linha de frente da mudança
No setor de alumínio, a tendência já se traduz em movimentos concretos. A CBA (Companhia Brasileira de Alumínio) e a Novelis Brasil estão entre as empresas que ampliaram seus portfólios com serviços técnicos especializados voltados para clientes dos segmentos automotivo, de embalagens e da construção civil. O Brasil é um dos maiores produtores e consumidores de alumínio da América Latina, e a pressão dos produtos importados, principalmente os chineses, força os fabricantes locais a competir por valor, não apenas por preço.
A China segue como o maior produtor global de alumínio primário, respondendo por mais de 57% da produção mundial, segundo dados da World Aluminium. Com preços pressionados no mercado internacional, a saída para produtores brasileiros passa por agregar camadas de serviço ao produto, algo que o concorrente asiático dificilmente replica com a mesma proximidade e personalização junto ao cliente local.
Indústria 4.0 como acelerador
A digitalização dos processos produtivos abre espaço direto para esse modelo. Monitoramento remoto de equipamentos, manutenção preditiva e soluções de eficiência energética já fazem parte das ofertas de empresas do setor metalmecânico e de alumínio no país. São serviços que dependem de sensores, conectividade e análise de dados, ou seja, infraestrutura que as indústrias mais capitalizadas já começaram a construir nos últimos anos.
A CNI aponta que empresas com modelos híbridos produto-serviço tendem a ser mais resilientes em períodos de volatilidade econômica e geram postos de trabalho de maior qualificação. Isso tem peso num setor como o de alumínio, que emprega direta e indiretamente centenas de milhares de trabalhadores no Brasil, desde a extração de bauxita em Minas Gerais e no Pará até a laminação e extrusão em plantas espalhadas pelo país.
O levantamento da CNI também reforça a demanda por políticas industriais que acelerem essa transição. Hoje, apenas 4 em cada 10 indústrias operam com esse modelo mais sofisticado, o que indica que a maioria ainda depende exclusivamente da venda do produto físico, sem nenhuma camada adicional de receita recorrente ou fidelização do cliente por serviço.

