A fossa das Marianas possui 11.034 metros de profundidade e a pressão no seu ponto mais baixo equivale a ter 50 aviões empilhados sobre o corpo humano

Existe um lugar na Terra que nunca recebeu luz solar, onde a temperatura flutua em torno de 2 graus Celsius e a pressão atmosférica é cerca de 1.086 vezes maior do que a sentida ao nível do mar. Esse lugar não fica em nenhum planeta distante. Fica abaixo do Oceano Pacífico, a aproximadamente 300 quilômetros a sudeste das Ilhas Marianas, e se chama Fossa das Marianas. Seu ponto mais profundo, o Challenger Deep, está a 11.034 metros abaixo da superfície da água, uma distância tão absurda que, se o Monte Everest fosse colocado ali dentro, ainda sobraria mais de 2 quilômetros de água por cima do seu cume.
O número é impressionante, mas o que ele representa na prática é ainda mais difícil de processar. A pressão naquele ponto equivale a aproximadamente 1.100 quilogramas por centímetro quadrado. Para efeito de comparação, um ser humano ao nível do mar suporta cerca de 1 quilograma por centímetro quadrado. Qualquer estrutura não projetada especificamente para esse ambiente seria esmagada em frações de segundo. E mesmo assim, há vida lá embaixo.
Apenas três seres humanos já desceram ao Challenger Deep, enquanto mais de 500 pessoas já foram ao espaço, o que revela a dificuldade técnica brutal de explorar o fundo do oceano
A comparação com o espaço não é exagerada: ela é matemática. Desde 1961, mais de 600 pessoas já deixaram a atmosfera terrestre em missões espaciais. O Challenger Deep foi visitado por humanos apenas três vezes: em 1960, pelos oceanógrafos Jacques Piccard e Don Walsh, a bordo do batiscafo Trieste; em 2012, pelo cineasta James Cameron em uma missão solo; e em 2019, pelo explorador Victor Vescovo, que desceu a bordo do DSV Limiting Factor. Vescovo, inclusive, bateu o recorde de profundidade, chegando a 10.928 metros no ponto exato do Challenger Deep e confirmando dados que até então eram estimativas. Ou seja, mais de seis décadas separam a primeira da terceira visita humana ao ponto mais fundo da Terra.
O motivo é puramente técnico. Um traje espacial precisa resistir ao vácuo e à radiação. Um submersível para o fundo do oceano precisa resistir à compressão extrema, a temperaturas próximas do congelamento e à total ausência de comunicação via rádio ou GPS, já que ondas eletromagnéticas não atravessam quilômetros de água salgada. O DSV Limiting Factor, usado por Vescovo, foi construído com uma esfera de titanite com paredes de 9 centímetros de espessura e custou aproximadamente 48 milhões de dólares. Ainda assim, os sistemas de comunicação com a superfície operavam com atrasos e limitações consideráveis.
Criaturas como o peixe-caracol e o pepino-do-mar gigante foram encontradas a mais de 8.000 metros de profundidade, desafiando o que a biologia considerava possível para vertebrados

A grande surpresa das expedições recentes não foi a pressão, a escuridão ou a temperatura. Foi a abundância de vida em um ambiente que parecia incompatível com qualquer forma de biologia complexa. Em 2019, durante a expedição de Vescovo, câmeras registraram um peixe-caracol da espécie Pseudoliparis swirei a 8.076 metros de profundidade, o vertebrado mais fundo já filmado em ambiente natural até então. O animal é translúcido, mede cerca de 30 centímetros e se locomove com uma leveza quase irreal, dado que cada centímetro do seu corpo está sujeito a uma pressão que destruiria ossos humanos.
Além do peixe-caracol, expedições ao fundo das fossas oceânicas já catalogaram pepinos-do-mar gigantes, camarões anfípodos que se alimentam de detritos orgânicos que afundam desde a superfície, poliquetas luminescentes e bactérias quimioautotróficas que produzem energia sem qualquer dependência de luz solar. Esse ecossistema no escuro absoluto funciona com base em queda orgânica, chamada de “neve marinha”, partículas de matéria morta que descem continuamente da superfície e alimentam toda a cadeia abissal.
A pressão extrema das fossas oceânicas inspirou o desenvolvimento de materiais e sistemas de vedação usados hoje na indústria submarina de petróleo e gás em campos como o pré-sal brasileiro
A engenharia de exploração abissal não ficou restrita à ciência pura. As soluções desenvolvidas para suportar pressões de mais de 1.000 atmosferas migraram diretamente para a indústria do petróleo. O pré-sal brasileiro, que fica entre 5.000 e 7.000 metros abaixo da superfície do mar (contando a lâmina d’água e as camadas de rocha e sal), exige equipamentos de completação de poço, válvulas submarinas e árvores de natal molhadas que operam em condições próximas às do ambiente abissal. A Petrobras opera hoje campos como Búzios a profundidades de lâmina d’água superiores a 2.000 metros, com pressões de reservatório que chegam a 600 bar. Os materiais de vedação, as ligas metálicas de alta resistência e os sistemas hidráulicos remotos usados nessas operações derivam diretamente da pesquisa oceanográfica de profundidade.
A talassofobia, o medo irracional de grandes corpos d’água e do que existe abaixo deles, afeta milhões de pessoas e tem base neurológica ligada ao desconhecido visual

Existe um nome clínico para o desconforto que muitas pessoas sentem ao pensar no fundo do mar: talassofobia. Diferente do simples medo de se afogar, a talassofobia é especificamente o terror provocado por grandes extensões de água e pelo que pode existir abaixo da superfície sem ser visto. Estudos de psicologia cognitiva indicam que a ameaça invisível, aquela que o sistema visual não consegue processar e o cérebro não consegue dimensionar, ativa respostas de medo mais intensas do que ameaças visíveis de maior magnitude real. Em outras palavras, o ser humano teme mais o que não vê do que o que está claramente à sua frente.
Esse fenômeno explica por que imagens de grande profundidade oceânica geram reações físicas em pessoas que nunca estiveram perto do mar. O YouTube e plataformas de vídeo documentaram esse comportamento com precisão involuntária: vídeos sobre o fundo do oceano consistentemente acumulam dezenas de milhões de visualizações, com comentários descrevendo sensações de ansiedade, arrepio e desconforto ao assistir. O cérebro processa a ausência de limite visual da profundidade como uma ameaça ativa, mesmo sem nenhum estímulo concreto de perigo.
Menos de 20% do fundo dos oceanos foi mapeado com resolução suficiente para identificar estruturas geológicas, o que significa que a maior parte da superfície do planeta é tecnicamente desconhecida
A estatística que resume o grau de ignorância humana sobre o fundo do mar é direta: segundo a organização GEBCO (General Bathymetric Chart of the Oceans), até 2023, menos de 25% do assoalho oceânico havia sido mapeado com resolução de alta precisão, usando sonar multifeixe. O restante foi estimado com base em dados de satélite e gravimetria, técnicas que identificam grandes estruturas mas deixam escapar detalhes geológicos críticos, como cadeias de montanhas submarinas com menos de 1.000 metros de altura ou depressões menores do que a Fossa das Marianas. Para efeito de comparação, a superfície de Marte foi mapeada com resolução superior à da maioria dos oceanos terrestres. O projeto Seabed 2030, uma iniciativa global que reúne a GEBCO e a Nippon Foundation, tem como meta mapear 100% do assoalho oceânico até o final desta década, mas em 2024 ainda havia um deficit de cobertura superior a 75% das áreas de maior profundidade.
O fundo do oceano permanece como o maior território inexplorado do planeta, e os números confirmam isso com precisão incômoda: de cada quatro metros quadrados de assoalho oceânico, três ainda não foram observados diretamente por nenhum equipamento humano. A última grande expedição ao Challenger Deep, conduzida pela EYOS Expeditions em 2023, identificou novas estruturas geológicas a mais de 9.000 metros de profundidade que não constavam em nenhum mapa anterior, o que indica que o inventário do que existe lá embaixo está longe de ser completado.

