A Interfarma, entidade que representa laboratórios multinacionais como Novo Nordisk no Brasil, intensificou a pressão sobre a Anvisa para proibir as versões manipuladas das chamadas “canetas emagrecedoras”, medicamentos à base de semaglutida ou liraglutida produzidos por farmácias de manipulação sem os padrões sanitários exigidos dos produtos registrados. O mercado de emagrecedores injetáveis baseados em análogos do GLP-1 deve faturar mais de R$ 5 bilhões no Brasil até o fim de 2026, o que transforma a disputa regulatória em uma briga comercial de grandes proporções.
Preço menor, mas sem controle de qualidade, diz setor
O argumento central dos laboratórios é direto: as versões manipuladas chegam ao consumidor custando de 60% a 80% menos do que produtos como o Ozempic e o Wegovy, mas sem as garantias de eficácia, segurança e rastreabilidade exigidas dos medicamentos com registro sanitário pleno. Para a indústria farmacêutica inovadora, isso configura concorrência desleal. Entidades de farmácias de manipulação e parte da classe médica rebate o argumento, defendendo que as versões magistrais ampliam o acesso da população a tratamentos caros.
A Anvisa está no centro desse impasse e deve decidir o desfecho ainda em 2026. A agência já restringiu a manipulação de análogos do GLP-1 em decisões anteriores, mas a aplicação das normas enfrenta resistências judiciais e pressão de diferentes flancos do setor de saúde.
Impacto além do mercado de emagrecedores
A disputa tem consequências que vão além do segmento específico. A insegurança regulatória em torno de produtos não regularizados é apontada pelo setor industrial como fator que desincentiva investimentos estrangeiros em plantas produtivas e em pesquisa e desenvolvimento no país. O argumento ganha peso num ambiente de crédito caro: a taxa Selic permaneceu acima de 13% ao longo de 2025 e 2026, encarecendo a expansão industrial e tornando o custo de capital um obstáculo adicional para novos aportes.
O Novo Nordisk, principal interessado na restrição às manipuladas, é também um dos laboratórios com maior presença no Brasil e figura entre os que mais investem em estrutura local de distribuição e marketing. A empresa não divulgou projeções específicas de receita para o mercado brasileiro, mas o crescimento explosivo da demanda por Ozempic e Wegovy nos últimos anos transformou o país em um dos mercados prioritários da companhia na América Latina.
O impasse regulatório na Anvisa, qualquer que seja o desfecho, terá efeitos diretos sobre empregos qualificados, fluxo de investimentos e a competitividade do parque farmacêutico industrial brasileiro, setores que respondem por uma fatia relevante da produção industrial nacional. O mercado de medicamentos para obesidade e diabetes tipo 2 movimentou, só em 2025, valores que colocam o Brasil entre os dez maiores consumidores mundiais dessas classes terapêuticas.

