A usina nuclear britânica que começou com orçamento de 18 bilhões de libras, acumulou atrasos de anos e pode custar ao Reino Unido mais de 46 bilhões antes de gerar um único watt

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A construção de Hinkley Point C no Reino Unido se tornou o projeto de energia mais caro da história europeia, com estimativas de custo superando 46 bilhões de libras após décadas de atrasos e revisões orçamentárias

Em 2016, a EDF Energy e o governo britânico assinaram o contrato final para a construção da usina nuclear de Hinkley Point C, em Somerset, no sudoeste da Inglaterra. O orçamento inicial era de 18 bilhões de libras. A previsão era entregar energia à rede britânica até 2025. Nenhum desses dois números sobreviveu ao que veio a seguir.

Quase uma década depois, o custo projetado ultrapassou 46 bilhões de libras, o equivalente a mais de 57 bilhões de dólares americanos. A data de operação foi empurrada para 2030, no melhor cenário. O projeto, que deveria ser a âncora da transição energética do Reino Unido, virou o símbolo de tudo que pode dar errado numa megaobra industrial.

O modelo de reator EPR escolhido para Hinkley Point C já havia acumulado atrasos de mais de dez anos em obras anteriores na Finlândia e na França antes mesmo de o primeiro tijolo ser assentado na Inglaterra

O reator EPR (European Pressurized Reactor), desenvolvido pela Framatome com participação da Siemens, foi projetado para ser a nova geração da energia nuclear civil. Mais potente, mais seguro e mais eficiente. No papel, cada unidade geraria 1.600 megawatts, suficientes para abastecer cerca de 6 milhões de residências.

O problema é que o EPR nunca havia sido construído em escala comercial antes de Hinkley Point C. E as tentativas anteriores deixaram rastros preocupantes. A usina de Olkiluoto, na Finlândia, começou a ser construída em 2005 com previsão de conclusão em 2009 e só entrou em operação plena em 2023, segundo a operadora TVO. Em Flamanville, na França, a EDF iniciou as obras em 2007 com entrega prevista para 2012 e passou mais de 15 anos em construção.

Hinkley Point C adotou o mesmo design e herdou os mesmos problemas estruturais, sem ter aprendido o suficiente com os erros anteriores para evitá-los.

A complexidade técnica do concreto especial utilizado nas estruturas de contenção nuclear exige tolerâncias milimétricas que multiplicaram o tempo de execução por um fator que ninguém havia previsto no cronograma original

A cúpula de contenção de um reator nuclear não é construída como qualquer outra estrutura de concreto. Ela precisa resistir a pressões internas, variações extremas de temperatura e, em caso de acidente, impedir a liberação de material radioativo por décadas. Isso exige um concreto especial, com aditivos específicos e cura controlada, que não pode ser apressado.

Conforme documentado pelo canal The B1M, as equipes na obra de Hinkley Point C tiveram de desacelerar radicalmente o ritmo de concretagem para garantir a integridade estrutural exigida pelos reguladores nucleares britânicos. Cada etapa precisa ser inspecionada, certificada e registrada antes da próxima começar. O resultado é uma construção que avança com velocidade muito abaixo do que cronogramas convencionais de engenharia civil preveem.

A escassez global de engenheiros especializados em construção nuclear fez com que a EDF precisasse importar profissionais de vários países, o que elevou custos operacionais e criou gargalos logísticos permanentes no canteiro

Construir uma usina nuclear não é como construir uma refinaria ou uma usina hidrelétrica. O mercado global de profissionais habilitados para esse tipo de obra é pequeno e muito disputado. Segundo a World Nuclear Association, apenas alguns países mantiveram programas de formação contínua após a desaceleração nuclear dos anos 1990 e 2000.

O Reino Unido não estava entre eles. Décadas sem novos projetos nucleares fizeram com que a cadeia de fornecedores locais enfraquecesse. Quando Hinkley Point C começou, a EDF teve de buscar especialistas na França, na Coreia do Sul e em outros mercados. Coordenar equipes multinacionais num canteiro de obras de alta segurança, com regulamentações rígidas e processos de certificação individuais, adicionou camadas de complexidade que o orçamento original não havia contemplado.

No Brasil, os desafios da usina de Angra 3 repetem vários dos padrões observados em Hinkley Point C, com obras paradas por mais de 40 anos e um custo estimado que continua crescendo sem data de conclusão definida

A história brasileira com energia nuclear tem um paralelo incômodo com o caso britânico. Angra 3, a terceira unidade da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, no Rio de Janeiro, teve suas obras iniciadas na década de 1980 e foi paralisada por restrições orçamentárias. A Eletronuclear retomou os trabalhos em 2010, mas a obra voltou a ser interrompida. Em 2024, segundo a própria Eletronuclear, a conclusão seguia sem previsão firme.

O custo estimado para finalizar Angra 3 supera 20 bilhões de reais, conforme dados divulgados pelo Ministério de Minas e Energia. A usina, quando pronta, terá capacidade de 1.405 megawatts, contribuindo para uma matriz elétrica que ainda depende fortemente de hidrelétricas vulneráveis a eventos climáticos extremos. O padrão de atrasos, revisões de custo e dependência de tecnologia estrangeira conecta Angra 3 a Hinkley Point C de uma forma que vai além da coincidência.

A precificação da energia gerada por Hinkley Point C foi garantida por contrato a 92,50 libras por megawatt-hora em valores de 2012, um número que economistas britânicos hoje consideram politicamente insustentável

Quando o governo britânico fechou o acordo com a EDF, garantiu um preço fixo de 92,50 libras por megawatt-hora por 35 anos, corrigido pela inflação. Em 2012, isso parecia razoável. Em 2024, com os custos de energia renovável tendo despencado globalmente, esse valor representa mais do dobro do que o Reino Unido paga por energia solar ou eólica no atacado, segundo dados da Energy UK.

O contrato não pode ser renegociado sem implicações legais bilionárias. Isso significa que, quando Hinkley Point C finalmente entrar em operação, os consumidores britânicos pagarão um prêmio elevado por cada quilowatt-hora gerado, por pelo menos três décadas e meia. A conta do atraso não termina quando as turbinas começam a girar.

A usina de Hinkley Point C permanece o canteiro de obras ativo mais caro da Europa, com mais de 9.000 trabalhadores no local e uma estrutura logística que consome recursos diariamente sem ainda gerar nenhuma receita

Segundo a EDF Energy, o canteiro de Hinkley Point C emprega diariamente mais de 9.000 trabalhadores, sendo um dos maiores empregadores ativos do condado de Somerset. São cerca de 230 empresas contratadas e subcontratadas, operando em turnos para manter o ritmo de construção acelerado após os atrasos acumulados.

Todo esse aparato custa dinheiro que ainda não retorna. Enquanto as obras não terminam, a usina é apenas um dreno financeiro. Cada mês de atraso adiciona centenas de milhões de libras ao custo total. A EDF confirmou ao parlamento britânico, em 2023, que o projeto consumiu mais de 20 bilhões de libras até aquela data sem produzir um único quilowatt-hora comercial.

Você acredita que projetos nucleares de grande escala ainda fazem sentido econômico num mundo onde energia solar e eólica ficam progressivamente mais baratas? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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