Um levantamento divulgado em abril de 2026 pela ACidade ON, em parceria com entidades do setor, estima que o fim da escala 6×1 no varejo de Campinas pode elevar os custos operacionais locais em até R$ 416 milhões, exigindo a contratação de aproximadamente 10 mil trabalhadores adicionais apenas para manter o ritmo atual das operações. O número diz respeito a uma única cidade, mas o efeito projetado para o conjunto da indústria nacional é consideravelmente maior.
O que está em jogo para a indústria
A escala 6×1, modelo em que o trabalhador cumpre seis dias consecutivos de trabalho para um de descanso, é amplamente adotada não apenas no varejo, mas em operações industriais de turno contínuo. Setores como alimentício, químico, metalúrgico e de embalagens dependem desse regime para manter linhas de produção funcionando 24 horas. A extinção do modelo, prevista na Proposta de Emenda à Constituição em tramitação no Congresso Nacional, obrigaria essas empresas a reorganizar completamente seus quadros, ampliando despesas com folha de pagamento, encargos sociais e treinamento.
Para as indústrias já sob pressão de juros elevados e câmbio desfavorável, o choque de custos trabalhistas pode ser decisivo. Empresas que operam com margens reduzidas, ou que já passam por processos de recuperação judicial, têm menos capacidade de absorver aumentos estruturais nos custos fixos sem comprometer a continuidade das operações.
Recuperação judicial e o timing do debate
O cenário legislativo coincide com um período de estresse financeiro para parcela relevante do setor industrial brasileiro. Companhias de médio porte nos segmentos de manufatura e logística acumulam dificuldades para honrar obrigações com credores em um ambiente de crédito caro, e qualquer elevação adicional de custos fixos estreita ainda mais o espaço para reestruturação. A discussão sobre a jornada chega, portanto, em um momento em que empresas com planos de recuperação judicial em andamento precisam de previsibilidade para cumprir as metas acordadas com credores e com o Judiciário.
Campinas ilustra bem essa tensão. A cidade concentra não só grandes redes varejistas, mas também plantas industriais, operações logísticas e empresas de tecnologia que utilizam regimes de turno similares ao 6×1. O custo estimado de R$ 416 milhões refere-se apenas ao varejo local, excluindo o impacto sobre a base industrial do município, o que sugere que o número total seria substancialmente superior.
O texto da PEC ainda não tem data definida para votação, mas o debate no Congresso avança. Entidades industriais já articulam posição contrária à extinção do modelo sem um período de transição, argumentando que a mudança abrupta inviabiliza o planejamento de custos de médio prazo. Segundo o levantamento da ACidade ON, só para repor a força de trabalho necessária em Campinas, as empresas varejistas precisariam contratar um contingente equivalente a cerca de 10% do total de empregados formais no comércio da cidade.

