Estas 8 fábricas de alimentos na Coreia do Sul produzem milhões de unidades por dia sem que nenhum operador toque no produto em nenhuma etapa crítica do processo

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A linha de produção do Bibigo, o mandu mais vendido do mundo, fabrica mais de 1 milhão de unidades por turno com automação quase total e controle de temperatura ao milésimo de grau

Há fábricas de alimentos que operam em uma escala tão absurda que o número sozinho não faz sentido até você ver o processo em movimento. Na Coreia do Sul, algumas das linhas de produção mais avançadas do planeta processam carnes, massas, molhos e snacks a uma velocidade que qualquer fábrica europeia ou americana teria dificuldade em igualar sem triplicar o quadro de funcionários. O diferencial não é o tamanho da planta. É a integração entre automação, controle de qualidade em tempo real e logística interna sem fricção.

O caso mais emblemático é o do Bibigo mandu, bolinho de massa recheado que a CJ CheilJedang transformou no produto alimentício coreano mais exportado do mundo. Conforme dados da própria CJ CheilJedang divulgados em 2023, a empresa vendeu o equivalente a mais de 1 bilhão de unidades do produto em mercados fora da Coreia em um único ano. Para atender essa demanda, as linhas de produção foram projetadas para eliminar qualquer gargalo humano nas etapas de moldagem, recheio e selagem.

As moldadoras automáticas da linha Bibigo selam até 800 bolinhos por minuto com variação dimensional inferior a 0,3 milímetros, o que garante uniformidade de cozimento em escala industrial

A moldagem de massa recheada é um dos processos mais difíceis de automatizar na indústria alimentícia porque envolve materiais vivos: a massa muda de comportamento conforme a temperatura ambiente, a umidade e o tempo de descanso. As fábricas coreanas resolveram esse problema com sensores embutidos diretamente nas esteiras de alimentação, que ajustam a pressão das moldadoras em tempo real. O resultado é uma variação dimensional de menos de 0,3 milímetros entre unidades, o que parece detalhe mas é decisivo: bolinhos com espessura irregular de massa cozinham de forma diferente, gerando devoluções e desperdício.

Além da moldagem, o controle de temperatura nas câmaras de resfriamento rápido opera com precisão de décimos de grau. A linha passa o produto de aproximadamente 85°C para menos de 4°C em menos de 12 minutos, conforme o processo exibido nas filmagens do canal king process. Esse choque térmico controlado preserva a textura da massa e inibe a proliferação bacteriana sem uso de conservantes adicionais, o que é uma exigência crescente dos mercados norte-americano e europeu.

A fábrica de gim frito da Nongshim produz 30 toneladas do snack por dia usando fritadeiras contínuas com óleo circulante filtrado a cada 90 minutos para manter padrão de sabor

O gim frito, versão temperada e crocante da alga marinha, virou febre global depois de 2020 e as fábricas coreanas correram para escalar a produção. A Nongshim, que já era conhecida internacionalmente pelo macarrão instantâneo Shin Ramyun, adaptou parte de suas linhas de snacks para acomodar a demanda por gim. O processo envolve fritar folhas de alga extremamente finas em óleo aquecido a 180°C por apenas alguns segundos, o que exige esteiras com velocidade milimetricamente calibrada.

O desafio técnico aqui é o óleo. Em fritadeiras industriais contínuas, a gordura degrada com o uso e altera o sabor do produto. A solução adotada é a filtração contínua a cada 90 minutos, com descarte controlado e reposição proporcional. Segundo o processo exibido na documentação do canal king process, o sistema de filtração é automatizado e opera sem interromper a linha. Em termos de volume, a planta consegue manter 30 toneladas de produto acabado por dia com uma equipe reduzida de operadores focados exclusivamente em controle de qualidade sensorial.

As linhas de macarrão instantâneo coreano processam 1,2 tonelada de massa por hora e usam fritadeiras de ar a 140°C para substituir a imersão em óleo em produtos premium

O macarrão instantâneo é um dos produtos industrializados com maior volume global, e a Coreia do Sul lidera em variedade e sofisticação de processo. A linha de produção começa com a mistura da farinha de trigo com água alcalina, que dá ao macarrão coreano a textura elástica característica. A massa passa por laminadores que reduzem a espessura de forma progressiva antes de ser cortada em fios.

O processo de desidratação divide as linhas em dois grandes grupos. O método tradicional usa imersão em óleo a alta temperatura por 90 segundos. O método premium, adotado para produtos de linha superior, usa fritadeiras de ar a 140°C por tempo mais longo, gerando um macarrão com menor teor de gordura. As fábricas que exibem os dois processos em paralelo demonstram claramente a diferença no custo energético: a fritagem a ar consome cerca de 30% mais energia por quilograma processado, mas abre mercados que exigem menor teor lipídico no produto final.

A megafábrica da Heinz no Reino Unido, maior planta de processamento de alimentos da Europa, processa 3 milhões de latas de ketchup por semana com sistemas de pasteurização contínua a 88°C

Enquanto as fábricas coreanas impressionam pela diversidade e precisão de processo, a megafábrica da Heinz em Wigan, no noroeste da Inglaterra, mostra o que significa escala em um único produto. Conforme o documentário do canal Free Documentary – Engineering, a planta opera 24 horas por dia, 7 dias por semana, e processa 3 milhões de latas de ketchup semanalmente. Os tomates chegam em caminhões-tanque na forma de pasta concentrada, produzida perto das lavouras na Itália e na Espanha, e são reconstituídos na planta com adição controlada de vinagre, açúcar e especiarias.

O sistema de pasteurização contínua mantém o produto a 88°C pelo tempo exato para eliminar patógenos sem degradar o licopeno, pigmento do tomate com propriedades antioxidantes que a Heinz usa como argumento de marketing. O documentário detalha ainda o sistema de inspeção de latas, onde câmeras de alta velocidade analisam cada unidade individualmente em busca de amassados, vedação imperfeita ou código de lote ilegível. Latas com qualquer inconformidade são rejeitadas automaticamente antes da embalagem secundária.

No Brasil, o nível de automação das grandes linhas de alimentos ainda é 40% inferior ao padrão sul-coreano, segundo levantamento da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação publicado em 2022

A comparação com o Brasil não é apenas curiosidade acadêmica. Conforme levantamento da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA) publicado em 2022, o índice de automação nas linhas de produção de alimentos processados no país é cerca de 40% inferior à média das fábricas sul-coreanas de mesmo porte. O principal fator apontado é o custo de importação de equipamentos e a dificuldade de acesso a linhas de crédito com juros compatíveis com o ciclo de retorno da indústria alimentícia, que costuma superar 7 anos.

Isso tem consequência direta na competitividade. Um produto como o macarrão instantâneo, por exemplo, é fabricado no Brasil com custo por unidade entre 15% e 20% maior do que na Coreia do Sul, segundo estimativas da Euromonitor International para o mercado de alimentos de conveniência na América Latina em 2023. A diferença não vem da matéria-prima, que é localmente disponível. Vem da eficiência da linha, do rendimento energético e do menor desperdício por unidade produzida que a automação de ponta proporciona.

A tendência que une Coreia do Sul, Reino Unido e Brasil é a pressão por rastreabilidade total, com sistemas de leitura de lote integrados à nuvem que registram cada ingrediente desde a origem até a gôndola

O próximo salto nas fábricas de alimentos não é de velocidade. É de rastreabilidade. As plantas coreanas já operam com sistemas em que cada lote de produto tem um histórico digital completo: origem de cada ingrediente, temperatura de cada etapa, operador responsável por cada intervenção manual, resultado de cada inspeção automática. Esses dados são armazenados em nuvem e podem ser acessados por distribuidores e redes varejistas em tempo real.

Segundo a consultoria Gartner, até 2026 mais de 60% das grandes redes de supermercados globais vão exigir rastreabilidade digital completa como condição contratual para fornecedores de alimentos processados. Fábricas que não tiverem essa infraestrutura instalada perderão acesso a contratos com os maiores varejistas do mundo. O custo de implementação de um sistema integrado de rastreabilidade em uma planta de médio porte gira em torno de R$ 4 milhões a R$ 9 milhões no Brasil, conforme orçamentos levantados pela ABIA em 2023.

A automação de linha e a rastreabilidade digital deixaram de ser diferenciais competitivos para se tornarem requisito de entrada em mercados premium. Fábricas que operam com tecnologia de 10 ou 15 anos atrás já enfrentam dificuldades para fechar contratos com grandes varejistas europeus e americanos, que exigem documentação digital de cada etapa do processo produtivo como condição básica de fornecimento.

Sua fábrica ou o setor que você acompanha já está adaptando as linhas para os novos padrões de automação e rastreabilidade exigidos pelo mercado global? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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