A humanidade nunca construiu tantas usinas gigantescas ao mesmo tempo e a conta total ultrapassa US$ 2 trilhões em projetos ativos ao redor do planeta
Nunca na história da engenharia tantos projetos de geração de energia de escala monumental foram executados simultaneamente. De desertos no Oriente Médio a rios na Ásia Central, governos e consórcios privados estão despejando capital em infraestrutura elétrica numa velocidade que não tem precedente no século XX. O objetivo é simples de enunciar e brutalmente difícil de executar: dobrar a capacidade global de geração de energia limpa até 2030, conforme a meta estabelecida pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA).
O que torna esse momento diferente não é apenas o volume de dinheiro, mas a escala física dos projetos individuais. Alguns deles têm capacidade instalada maior do que a de países inteiros. O Complexo Solar Al Dhafra, em Abu Dhabi, com 2 gigawatts de capacidade, é capaz de abastecer 160 mil residências com energia exclusivamente solar. Quando projetos dessa magnitude se multiplicam em dezenas de países ao mesmo tempo, o mapa energético global muda de forma permanente.
O projeto Neom, na Arábia Saudita, prevê gerar 100% de sua energia a partir de fontes renováveis para alimentar uma cidade linear de 170 quilômetros construída do zero no deserto
Poucos projetos concentram tantas variáveis de engenharia num único empreendimento quanto o Neom. A cidade saudita, planejada para abrigar 9 milhões de pessoas, exige uma infraestrutura energética autossuficiente em território onde não existe rede elétrica legada. A solução adotada pelo governo da Arábia Saudita combina geração solar, eólica e armazenamento em baterias de grande escala, além de produção de hidrogênio verde para suprir demandas que a eletricidade direta não cobre com eficiência.
O investimento total declarado pelo governo saudita para o projeto Neom supera US$ 500 bilhões, segundo a Reuters. Só a parcela de infraestrutura energética representa uma das maiores encomendas de equipamentos renováveis já feitas por um único comprador. Empresas como a Thyssenkrupp Nucera e a Air Products foram contratadas para desenvolver plantas de hidrogênio verde no local, com capacidade de produção de 600 toneladas por dia a partir de 2026.
A usina hidrelétrica de Baihetan, na China, entrou em operação plena em 2022 com capacidade instalada de 16 gigawatts, tornando-se a segunda maior do mundo em potência
A usina de Baihetan, construída no rio Jinsha, entre as províncias de Yunnan e Sichuan, levou 13 anos para sair do projeto à operação plena. Cada uma de suas 16 turbinas tem capacidade unitária de 1 gigawatt, o maior valor já alcançado para turbinas hidráulicas em qualquer usina do planeta, conforme dados da China Three Gorges Corporation. O conjunto gera energia suficiente para substituir o consumo anual de aproximadamente 18 milhões de toneladas de carvão.
O projeto exigiu o reassentamento de mais de 100 mil pessoas e a construção de uma barragem de 289 metros de altura em uma das regiões sísmicas mais ativas da China. A engenharia civil sozinha consumiu 8 milhões de metros cúbicos de concreto. Para efeito de comparação, a hidrelétrica de Itaipu, a maior do Brasil e segunda maior do mundo por geração média anual, tem capacidade instalada de 14 gigawatts, segundo dados da Itaipu Binacional.
O parque eólico offshore Hornsea 2, no Mar do Norte, produz eletricidade suficiente para 1,4 milhão de residências britânicas a partir de turbinas instaladas a 89 quilômetros da costa inglesa
Construir turbinas eólicas no mar aberto é uma operação logística que rivaliza com qualquer empreendimento naval de grande porte. O Hornsea 2, operado pela Ørsted e concluído em 2022, usa 165 turbinas Siemens Gamesa de 8 megawatts cada, distribuídas por uma área equivalente a 462 quilômetros quadrados. Os cabos submarinos que transportam a energia até a costa somam mais de 900 quilômetros de extensão total.
O custo de instalação de cada turbina offshore supera US$ 10 milhões apenas na fase de fixação das fundações no leito marinho. Ainda assim, o custo nivelado da energia gerada por projetos como o Hornsea 2 caiu 70% na última década, conforme dados da BloombergNEF, tornando a energia eólica marítima competitiva com termelétricas a gás natural em vários mercados europeus.
Das 15 maiores usinas do mundo em operação, 9 são hidrelétricas e pelo menos 4 delas foram construídas com tecnologia de projeto desenvolvida há mais de 40 anos
A lista das maiores plantas geradoras em funcionamento revela uma característica pouco discutida: a longevidade tecnológica das hidrelétricas de grande porte. A usina de Três Gargantas, na China, com 22,5 gigawatts de capacidade instalada e ainda a maior do mundo, usa turbinas Francis desenvolvidas com princípios estabelecidos na década de 1950 e refinados nos anos 1980. Itaipu, Guri (Venezuela) e Robert-Bourassa (Canadá) seguem o mesmo padrão.
Isso não significa estagnação tecnológica. Significa que a hidreletricidade atingiu maturidade de projeto décadas antes de qualquer outra fonte renovável e que as maiores plantas do planeta continuam gerando com eficiência acima de 90% depois de décadas de operação, índice que nenhuma outra tecnologia de geração sustentou por tanto tempo em escala comparável, conforme relatório da International Hydropower Association publicado em 2023.
O Brasil concentra alguns dos projetos de expansão energética mais relevantes da América do Sul, mas a capacidade de financiar megaprojetos na escala dos asiáticos ainda é limitada pela estrutura de capital do setor elétrico nacional
A usina de Belo Monte, no Pará, com 11,2 gigawatts de capacidade instalada, é o terceiro maior complexo hidrelétrico do mundo e o maior já construído inteiramente em território brasileiro. Seu custo final superou R$ 40 bilhões, segundo dados da Norte Energia, e a obra mobilizou mais de 25 mil trabalhadores no pico da construção entre 2013 e 2016. Mesmo em escala global, Belo Monte figura entre os dez empreendimentos de geração de energia de maior porte concluídos no século XXI.
O desafio brasileiro não está na engenharia, mas no modelo de financiamento. Os megaprojetos asiáticos e do Oriente Médio são viabilizados por capital soberano direto, sem necessidade de estruturas complexas de project finance. No Brasil, a montagem financeira de uma usina como Belo Monte envolveu mais de 15 instituições financeiras, incluindo o BNDES como principal credor, com prazos de negociação que se estenderam por anos antes do início das obras.
A próxima geração de megaprojetos já está em construção e inclui usinas nucleares de nova geração, parques solares com armazenamento e complexos de hidrogênio que combinam múltiplas fontes numa única planta integrada
O projeto Sun Cable, na Austrália, exemplifica essa nova geração: prevê instalar 20 gigawatts de capacidade solar no Território do Norte, armazenar energia em baterias de 36 a 42 gigawatts-hora e transmitir eletricidade via cabo submarino de 4.200 quilômetros até Singapura. O custo estimado é de US$ 30 bilhões e a previsão de conclusão é 2030, segundo dados da própria Sun Cable divulgados em 2023.
Esses projetos integrados são a resposta da engenharia ao problema da intermitência. Uma usina solar isolada gera apenas quando há sol. Um complexo que combina geração, armazenamento e transmissão de longa distância funciona como uma planta de geração baseload, competindo diretamente com termelétricas e nucleares em termos de confiabilidade. Essa é a fronteira que os maiores empreendimentos da próxima década pretendem cruzar, e o capital necessário para financiá-los deve ultrapassar US$ 5 trilhões até 2035, conforme projeção da Wood Mackenzie.
Você acredita que países como o Brasil têm capacidade real de viabilizar megaprojetos de energia na escala dos que estão sendo construídos na Ásia e no Oriente Médio nos próximos 20 anos? Deixe sua opinião nos comentários.

