O acidente de Chernobyl destruiu um reator de 1.000 MW em 1986 e pesquisadores ainda monitoram 2.600 km² de zona de exclusão que permanece radioativa até hoje

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Em abril de 1986, a Usina Nuclear de Chernobyl liberou 400 vezes mais radiação do que a bomba de Hiroshima em um acidente que redefiniu os protocolos de segurança nuclear em todo o mundo

Às 1h23 do dia 26 de abril de 1986, o reator número 4 da Usina Nuclear de Chernobyl explodiu durante um teste de segurança mal conduzido. O resultado foi a maior catástrofe nuclear da história: uma coluna de grafite incandescente e material radioativo foi lançada a mais de 1 km de altitude, contaminando uma área que, segundo a Organização Mundial da Saúde, se estende por partes da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia.

O que muita gente não sabe é que a usina continuou operando depois do acidente. Os reatores 1, 2 e 3 não foram desativados imediatamente: o último só foi desligado em dezembro de 2000, 14 anos após a explosão, porque a Ucrânia precisava da energia elétrica gerada pela planta para abastecer o país. A decisão, confirmada pela Agência Internacional de Energia Atômica, revela a dimensão do dilema energético que o acidente criou.

O reator RBMK-1000 foi projetado com uma falha estrutural conhecida pelos engenheiros soviéticos, mas mantida em segredo por razões políticas até a catástrofe de 1986

O reator do tipo RBMK-1000, desenvolvido pela União Soviética, tinha um defeito chamado “coeficiente de vazio positivo”. Em linguagem prática: quando a potência caía, a reatividade subia de forma descontrolada, o comportamento oposto ao esperado em um projeto seguro. Conforme relatório da Agência Internacional de Energia Atômica publicado em 1992, os projetistas soviéticos tinham ciência do problema, mas o custo de corrigir os reatores já em operação era considerado politicamente inviável.

Na noite do acidente, operadores realizavam um teste para verificar se a turbina em desaceleração poderia gerar energia suficiente para bombas de resfriamento em caso de queda de energia. O teste exigiu reduzir a potência do reator a níveis perigosamente baixos. Quando tentaram estabilizar a operação, o coeficiente de vazio entrou em ação. A potência disparou para 30.000 MW em poucos segundos, dez vezes o limite máximo de projeto, antes da explosão.

A zona de exclusão de 30 km ao redor da usina concentra hoje uma das maiores populações de lobos e cervos da Europa, porque os animais ocuparam o espaço deixado por 350.000 pessoas removidas à força

Após a evacuação forçada de Pripyat e outras 91 cidades e vilas, a Zona de Exclusão de Chernobyl foi cercada e interditada. Com a saída humana permanente, a natureza reocupou o território. Pesquisadores da Universidade de Portsmouth publicaram em 2015 dados surpreendentes: a densidade populacional de lobos na zona de exclusão é sete vezes maior do que em reservas naturais vizinhas sem contaminação.

Isso não significa que o ambiente é saudável. Estudos da Universidade do Texas, publicados no periódico científico PLOS ONE, identificaram anomalias genéticas em pássaros da região, além de taxas mais altas de cataratas e tumores em pequenos mamíferos. O ecossistema voltou, mas carrega marcas moleculares do desastre.

O sarcófago de concreto erguido às pressas em 1986 começou a rachar em menos de uma década e foi substituído por uma estrutura de aço de 36.000 toneladas concluída em 2016 ao custo de 1,5 bilhão de euros

O primeiro confinamento, chamado de “sarcófago”, foi construído em apenas 206 dias por trabalhadores que receberam doses de radiação no limite tolerável, muitos em turnos de apenas 40 segundos no telhado do reator. A estrutura, segundo a Agência Europeia de Energia Atômica, nunca foi projetada para durar mais de 30 anos e já apresentava rachaduras nos anos 1990.

O Novo Confinamento Seguro, inaugurado em novembro de 2016, é a maior estrutura móvel já construída pela humanidade: 108 metros de altura, 257 metros de comprimento e peso total de 36.000 toneladas. Foi financiado por uma coalização de 45 países e deslizou sobre trilhos até cobrir o sarcófago original. Projetado para durar 100 anos, ele deve conter o material radioativo enquanto robôs removem os resíduos do interior ao longo das próximas décadas.

O Brasil opera dois reatores nucleares em Angra dos Reis e projeta um terceiro desde 1984, com obras que acumularam 40 anos de interrupções e retomadas sem data de conclusão confirmada

A Usina Nuclear de Angra, operada pela Eletronuclear, é o único complexo nuclear em operação comercial no Brasil. Angra 1 entrou em funcionamento em 1985 com capacidade de 640 MW, e Angra 2, de 1.350 MW, foi inaugurada em 2001. Juntas, respondem por cerca de 3% da geração de energia elétrica do país, conforme dados da Agência Nacional de Energia Elétrica.

Angra 3, cujas obras começaram em 1984, ainda não foi concluída. A Eletronuclear estima que o reator, com capacidade de 1.405 MW, possa entrar em operação antes de 2030, mas cronogramas anteriores já foram revisados múltiplas vezes. O custo acumulado das obras, segundo o Tribunal de Contas da União, ultrapassou R$ 13 bilhões até 2023 sem que a usina tenha gerado um único watt-hora.

Chernobyl hoje recebe mais de 100.000 turistas por ano, e o número cresceu 30% após a série da HBO transformar o acidente no produto cultural mais assistido de 2019 na plataforma

A série Chernobyl, produzida pela HBO e lançada em maio de 2019, alcançou nota 9,4 no IMDb, a maior pontuação já registrada para qualquer série de televisão na plataforma. O impacto no turismo foi imediato: a agência ucraniana Solo East Travel reportou aumento de 30% nas reservas para visitas à zona de exclusão nos meses seguintes ao lançamento.

As visitas são permitidas em roteiros guiados de um ou dois dias, com dosímetros obrigatórios. Segundo dados da Administração da Zona de Exclusão da Ucrânia, a dose de radiação recebida em uma visita padrão equivale a menos da metade de uma radiografia de tórax convencional. O turismo se tornou uma das poucas fontes de receita da região e, antes da invasão russa de 2022, gerava cerca de 3 milhões de dólares anuais para a economia local.

Após 38 anos, o local do acidente ainda armazena cerca de 200 toneladas de combustível nuclear fundido misturado a concreto e aço, material que os cientistas chamam de “lava de corium” e que não tem destino definitivo conhecido

O material chamado de corium, uma mistura de urânio, grafite, areia e metal derretido que solidificou no interior do reator destruído, permanece sem solução de descarte. Segundo o Instituto de Segurança de Reatores da Alemanha, nenhuma tecnologia disponível hoje é capaz de remover o corium de forma segura em larga escala.

As estimativas mais otimistas do consórcio internacional que administra o sítio indicam que a descontaminação completa do local só poderá ser concluída por volta do ano 2065. Nesse prazo, o Novo Confinamento Seguro terá servido durante quase metade de sua vida útil projetada apenas para proteger trabalhadores e o meio ambiente enquanto a ciência avança na busca por uma resposta que ainda não existe.

A humanidade conseguirá desmantelar completamente um reator nuclear acidentado usando apenas robôs e engenharia remota, ou Chernobyl permanecerá um problema sem solução definitiva por mais um século? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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