A Lojas Quero-Quero anunciou em julho de 2026 o fechamento de 14 unidades e a dispensa de cerca de 100 funcionários, decisão tomada após a companhia registrar prejuízo líquido de R$ 61,7 milhões no primeiro trimestre do ano. A rede, que abriu capital na B3 em 2021 e chegou a operar mais de 500 lojas, concentra sua atuação nas regiões Sul e Sudeste, com presença histórica em cidades de pequeno e médio porte do Rio Grande do Sul, onde a empresa nasceu e construiu sua base de clientes de baixa e média renda.
Juros altos e inadimplência pressionam o varejo popular
O resultado negativo não é isolado. O varejo de materiais de construção enfrenta uma combinação de fatores que comprime margens e afasta o consumidor: a taxa Selic elevada encarece o crédito, a inadimplência sobe entre as famílias de menor renda e o acesso ao financiamento para reformas e compras de eletrodomésticos segue restrito. Esse conjunto atinge diretamente o perfil de cliente que sustentava o modelo de negócio da Quero-Quero, voltado para o segmento popular do chamado home improvement.
A empresa posicionou sua expansão justamente no interior do país, onde a concorrência com grandes redes era menor e a fidelização regional funcionava como barreira competitiva. Com a piora do cenário econômico, esse mesmo público perdeu capacidade de consumo, e o modelo de crescimento acelerado pós-IPO se mostrou difícil de sustentar.
Cadeia industrial sente o encolhimento do canal
Para os fabricantes que usavam a rede como canal de distribuição, o fechamento de 14 pontos de venda significa redução concreta de pedidos. Fabricantes de tintas, revestimentos cerâmicos, ferragens, materiais hidráulicos e eletrodomésticos de linha branca perdem volume de escoamento em municípios onde a Quero-Quero era, muitas vezes, o único varejista especializado. A logística de reposição para o interior do Sul e do Sudeste terá de ser reconfigurada por parte desses fornecedores.
A capilaridade era justamente o argumento central da companhia junto ao mercado de capitais quando fez seu IPO. Com mais de 500 lojas distribuídas por pequenas cidades, a Quero-Quero se posicionava como plataforma de acesso a um mercado pulverizado e de difícil penetração para grandes varejistas. O encolhimento atual reverte parte dessa tese.
No primeiro trimestre de 2026, o prejuízo de R$ 61,7 milhões já indica que as pressões financeiras antecederam a decisão pelo fechamento das unidades, o que sugere que o processo de reestruturação estava em curso antes do anúncio público. A empresa não divulgou quais unidades serão encerradas nem os estados onde as demissões serão concentradas.

