A Confederação Nacional da Indústria (CNI) emitiu alerta formal sobre os efeitos da sobretarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, apontando o setor têxtil e de vestuário entre os mais expostos ao risco. A medida, parte da agenda protecionista retomada pelo governo Trump desde janeiro de 2025, encarece os manufaturados nacionais no mercado norte-americano e pressiona empresas que já enfrentam concorrência intensa com importados asiáticos de baixo custo.
Duplo impacto para o vestuário nacional
Para a cadeia têxtil e de confecção, o problema tem duas dimensões. A primeira é direta: fabricantes brasileiros que exportam roupas e tecidos aos EUA passam a competir em condições ainda mais desfavoráveis, com a sobretarifa somada às alíquotas já existentes. A segunda é indireta e potencialmente mais grave. Produtores asiáticos, especialmente chineses, que perdem espaço no mercado americano em função das mesmas barreiras tendem a redirecionar seus volumes excedentes para mercados emergentes como o Brasil, intensificando a pressão sobre a indústria local já debilitada.
Estados como Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo concentram os pólos têxteis e de vestuário com maior exposição ao comércio exterior. São Paulo abriga o maior parque industrial do setor no país, enquanto Santa Catarina responde por parcela relevante das exportações de malhas e artigos de cama, mesa e banho. Para essas regiões, a combinação de mercado externo fechado e mercado interno invadido por importados é especialmente hostil.
CNI pressiona por diversificação e acordos comerciais
A CNI acompanha o avanço do protecionismo americano desde o retorno de Trump ao poder e agora reforça a urgência de medidas concretas. Entre as saídas apontadas pela entidade estão a diversificação dos destinos das exportações brasileiras, a aceleração de acordos comerciais, incluindo o acordo entre Mercosul e União Europeia, e políticas de desoneração da produção nacional. O acordo Mercosul-UE, negociado por décadas, aguarda ratificação e poderia abrir canais alternativos para produtos industrializados brasileiros, incluindo têxteis.
Os EUA historicamente figuram entre os principais destinos das exportações industriais do Brasil, absorvendo volumes consideráveis de manufaturados, produtos siderúrgicos, calçados, têxteis e vestuário. A sobretarifa de 25% não substitui as alíquotas anteriores, ela se acumula sobre elas, o que no caso de categorias de vestuário com tarifas já elevadas pode representar um encarecimento proibitivo para muitos exportadores.
A indústria têxtil brasileira emprega diretamente cerca de 1,5 milhão de trabalhadores, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), e o setor gerou aproximadamente 7,2 bilhões de dólares em receita de exportações em anos recentes. A perda de competitividade no principal mercado comprador do hemisfério ocidental representa uma ameaça concreta a esses números.

