O Brasil registrou em 2025 o maior número de empresas em recuperação judicial desde a criação do instituto, em 2005. Foram 5.680 companhias que ingressaram no processo ao longo do ano, volume 24,3% superior ao registrado em 2024. O dado expõe uma combinação de fatores conhecidos, mas cujos efeitos acumulados agora chegam ao limite para boa parte do setor produtivo nacional: juros altos, crédito caro e inflação persistente.
A taxa Selic, mantida pelo Banco Central em patamares historicamente restritivos, corrói diretamente o fluxo de caixa das empresas, sobretudo as de pequeno e médio porte. Para a indústria, o problema é estrutural: segmentos como manufatura, bens de capital e transformação dependem de financiamento de longo prazo para investir em máquinas, ampliar a capacidade produtiva e sustentar o capital de giro. Esse tipo de crédito é exatamente o que escasseia e encarece em ciclos de aperto monetário.
O papel do BNDES e os limites do fomento público
O BNDES é o principal instrumento de crédito industrial do país. Linhas como o BNDES Finame, o Cartão BNDES e o Programa Primeiro Investimento funcionam, para muitas empresas, como a única alternativa de financiamento competitivo quando o crédito privado está fora do alcance. O problema é que o recorde de recuperações judiciais ocorreu mesmo com esses programas em operação, o que coloca em questão a capilaridade e os critérios de elegibilidade dessas linhas.
Parte das empresas que buscam recuperação judicial já estão inadimplentes ou em situação financeira deteriorada o suficiente para não se qualificarem nas exigências cadastrais dos programas públicos. Outras simplesmente desconhecem os mecanismos disponíveis ou não contam com suporte técnico para acessá-los. O resultado é um crédito de fomento que existe no papel, mas não chega onde o risco é maior, e onde a necessidade é mais urgente.
Pressão sobre entidades e agenda de desonerações
O volume de recuperações judiciais coloca pressão sobre entidades como CNI, FIESC e federações estaduais para avançar em propostas concretas. Renegociação de dívidas industriais, ampliação de garantias públicas para acesso ao crédito produtivo e revisão das condições de elegibilidade nos programas do BNDES estão entre os pontos que ganham urgência com os dados de 2025.
A Lei nº 11.101/2005, que criou o instituto da recuperação judicial no Brasil, completou 20 anos sem que o país chegasse a um modelo eficiente de prevenção à insolvência empresarial. O recorde deste ano é o dado mais concreto disponível para medir essa lacuna.

