A Torre Jeddah voltou ao canteiro depois de sete anos parada e agora precisa erguer mais de 800 metros com tecnologia que ainda não existia quando o projeto foi concebido
Há projetos que desafiam a física. E há projetos que desafiam a paciência. A Torre Jeddah, na Arábia Saudita, pertence a ambas as categorias ao mesmo tempo. Projetada para atingir exatamente 1.007 metros de altura, ela estava em construção quando um conjunto de sanções financeiras contra o grupo Kingdom Holding, em 2017, travou completamente a obra. Guindastes pararam. Trabalhadores foram embora. A estrutura ficou exposta ao ambiente desértico por quase uma década.
O retorno oficial às obras, anunciado em 2024 e acelerado ao longo de 2025, representa um dos desafios de engenharia mais complexos já enfrentados no setor. Mais de 80% da superestrutura ainda precisa ser erguida, e o piso concluído antes da paralisação precisa ser reavaliado metro a metro antes que qualquer nova carga seja aplicada. A conta total do projeto, estimada inicialmente em 1,2 bilhão de dólares pela consultora EC Harris, já foi revisada para cima diversas vezes desde então.
As fundações da Torre Jeddah foram executadas com mais de 270 estacas cravadas a 105 metros de profundidade para sustentar uma carga que nenhum edifício no mundo havia testado antes
Antes mesmo de a estrutura começar a subir, o solo de Jeddah já impunha condições severas. A região apresenta camadas de calcário com variações de densidade que dificultam o comportamento previsível das fundações sob cargas dinâmicas e ventos de alta altitude. A solução adotada pela construtora Saudi Binladin Group foi executar um conjunto de 270 estacas de concreto com diâmetro de 1,5 metro cada, descendo até 105 metros abaixo do nível do terreno.
Esse tipo de fundação profunda, conhecido como radier estaqueado, distribui as cargas verticais e os momentos de tombamento gerados pelo vento ao longo de uma área de contato com o solo que supera qualquer outro edifício já construído. Segundo dados da firma de engenharia Thornton Tomasetti, responsável pela consultoria estrutural, a resultante horizontal no topo da torre pode chegar a 45 meganewtons em condições de tempestade. Para comparação, a força equivalente seria suficiente para mover horizontalmente mais de 4.500 toneladas.
A interrupção de sete anos criou um problema invisível: o concreto envelheceu sem carga e ninguém sabia ao certo como a estrutura responderia ao reinício das operações
Concreto curado sem a aplicação progressiva de carga ao longo do tempo não se comporta exatamente como previsto pelos modelos originais. Durante a paralisação, os pilares e lajes já concluídos passaram por ciclos de expansão e contração térmica sem o contrapeso das cargas de projeto. Isso gera tensões internas residuais difíceis de quantificar sem inspeção direta.
Antes da retomada, equipes de engenharia realizaram campanhas extensivas de ensaios não destrutivos, incluindo esclerometria, ultrassom em concreto e extração de testemunhos para análise em laboratório. O objetivo era mapear qualquer variação nas resistências reais em relação às especificadas no projeto original. Segundo informações divulgadas pelo canal Looking 4 (Pr), que acompanhou a evolução do canteiro, parte das inspeções revelou necessidade de reforço localizado em seções específicas dos núcleos de concreto.
O processo de qualificação estrutural levou meses e envolveu laboratórios em três países diferentes para cruzar os resultados e garantir que os relatórios não fossem influenciados por pressão de prazo.
Os guindastes para retomar a obra precisam operar a altitudes onde o vento muda de direção, a temperatura cai abruptamente e a densidade do ar reduz a eficiência dos equipamentos em até 15%
Erguer estruturas acima dos 400 metros exige uma categoria diferente de equipamento. Os guindastes trepadeira utilizados na Torre Jeddah são versões especialmente configuradas para operar em altitudes onde a pressão dinâmica do vento cria oscilações na lança que podem deslocar a carga em vários metros. O limite operacional desses equipamentos é monitorado em tempo real por estações meteorológicas instaladas na própria estrutura.
Acima dos 600 metros, a densidade do ar em Jeddah, que já é menor do que em regiões temperadas por causa do calor, cai ainda mais. Isso reduz a eficiência dos motores hidráulicos dos guindastes e exige ciclos de elevação mais lentos para manter a segurança dentro dos parâmetros dos fabricantes. O gerenciamento logístico do canteiro, segundo projeções da Kingdom Holding Company, prevê que o ritmo de crescimento da estrutura vai variar entre 1 e 2 andares por semana dependendo das condições climáticas sazonais.
No Brasil, o maior edifício residencial do mundo em construção em Balneário Camboriú enfrenta desafios técnicos parecidos com os da Torre Jeddah, mas em escala e contexto completamente diferentes
A menos de 10 mil quilômetros da Arábia Saudita, Balneário Camboriú avança com o One Tower, projetado para atingir 509 metros e assumir o título de edifício residencial mais alto do planeta. O canal Urbana acompanhou o canteiro e registrou o ritmo atual das obras, mostrando que a fundação do edifício já está concluída e a superestrutura em ascensão.
O cenário brasileiro impõe limitações que a Torre Jeddah não enfrenta: câmbio volátil, cadeia de fornecimento de materiais especiais dependente de importação e escassez de mão de obra certificada para trabalhar em alturas extremas. Apesar disso, a construtora responsável mantém um cronograma que prevê a entrega da estrutura ainda dentro desta década. A comparação entre os dois projetos revela algo importante: a corrida por altura é global, mas as soluções são sempre locais.
A tecnologia de concreto de alta resistência usada na Torre Jeddah permite resistências acima de 100 MPa e muda o cálculo de quanto peso cada pilar consegue sustentar por metro quadrado de seção
Concreto convencional de obra opera entre 25 e 40 MPa de resistência à compressão. Para chegar a 1 quilômetro de altura sem que os pilares dos andares inferiores ocupem uma fração absurda da área útil, a Torre Jeddah especifica concreto com resistência de 110 MPa nas seções críticas, produzido com aditivos de sílica ativa e controle rigoroso da relação água-cimento.
Isso significa que um pilar com seção de 1 metro quadrado nessa especificação consegue suportar uma carga axial de até 110 mil toneladas antes de atingir a ruptura teórica, o que é cerca de quatro vezes mais do que o mesmo pilar em concreto convencional. Na prática, os fatores de segurança reduzem muito esse número, mas o ganho em área útil por andar é real e mensurável: estimativas da Adrian Smith + Gordon Gill Architecture, escritório responsável pelo projeto, indicam que a escolha do concreto de alta resistência liberou cerca de 15% a mais de área útil nos andares inferiores em relação a uma solução com especificação convencional.
Quando a Torre Jeddah for concluída, ela vai superar o Burj Khalifa em 179 metros e deslocar o centro de gravidade da engenharia de supertall definitivamente para o Oriente Médio
O Burj Khalifa, em Dubai, tem 828 metros e foi entregue em 2010. Desde então, nenhum edifício chegou perto de sua altura. A Torre Jeddah vai encerrar esse intervalo de 15 anos sem um novo recorde mundial, adicionando 179 metros ao topo da lista. Para contextualizar: esses 179 metros equivalem a um edifício de 50 andares construído acima do ponto mais alto que qualquer estrutura já alcançou.
O impacto econômico direto do projeto vai além do canteiro. Segundo a Kingdom Holding Company, o complexo ao redor da torre prevê 500 mil metros quadrados de área desenvolvida, incluindo hotel, escritórios, apartamentos e um shopping de grande porte. A expectativa é que o projeto gere mais de 80 mil empregos diretos e indiretos ao longo de sua fase de construção e operação inicial.
Com obras como a Torre Jeddah e o One Tower acontecendo simultaneamente, você acredita que o Brasil tem capacidade técnica e industrial para competir nessa corrida por arranha-céus de altura extrema nas próximas décadas? Deixe sua opinião nos comentários.

