A Samsung Biologics abriu oficialmente sua primeira unidade de manufatura nos Estados Unidos em 31 de março de 2026, em cerimônia no estado de Maryland com a presença do governador Wes Moore. A planta ancora 500 postos de trabalho qualificados na região e representa a primeira operação produtiva da companhia sul-coreana fora de Incheon, onde mantém um dos maiores complexos biofarmacêuticos do mundo, com capacidade instalada superior a 600.000 litros de biorreator.
Por que Maryland
A escolha não foi aleatória. O estado abriga o FDA, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) e dezenas de centros de pesquisa e empresas do setor farmacêutico, o que cria um ambiente regulatório e científico difícil de reproduzir em outro lugar. Para uma CDMO, sigla em inglês para organização de desenvolvimento e manufatura contratada, operar próxima ao principal regulador do mercado americano tem valor operacional direto, além do apelo comercial junto a clientes como Pfizer, Bristol-Myers Squibb e Roche, que já figuram na carteira da companhia.
Fundada em 2011 como subsidiária do Grupo Samsung, a Samsung Biologics construiu em menos de quinze anos uma posição entre as maiores CDMOs do planeta. A expansão para os EUA acontece num contexto específico: o chamado Biosecure Act, legislação americana em discussão que pretende barrar contratos governamentais com fabricantes biofarmacêuticos de origem chinesa. O vácuo competitivo aberto pela possível exclusão de players chineses favorece diretamente empresas sul-coreanas e europeias com capacidade instalada em solo americano.
Relocação como estratégia, não como exceção
A abertura da planta em Maryland se encaixa numa reconfiguração mais ampla da produção biofarmacêutica global. Após as rupturas de cadeia de suprimentos expostas pela pandemia de Covid-19, governos e empresas passaram a priorizar a produção doméstica de medicamentos de alta complexidade. Proximidade geográfica, segurança regulatória e alinhamento geopolítico ganharam peso nas decisões de onde instalar novas fábricas, concorrendo de forma direta com o critério tradicional de custo.
Esse movimento, descrito nos mercados como nearshoring e friendshoring, reorganiza o mapa industrial do setor. Para o Brasil, que tenta ampliar sua capacidade de produção de biológicos por meio de parcerias como as firmadas pelo Instituto Bio-Manguinhos com fabricantes estrangeiros, a trajetória da Samsung Biologics ilustra como países que combinam escala produtiva, reputação regulatória e posicionamento geopolítico conveniente tendem a capturar os investimentos dessa nova rodada de expansão industrial farmacêutica.
A Samsung Biologics encerrou 2024 com receita de aproximadamente 1,3 trilhão de wons no quarto trimestre, segundo dados divulgados pela própria companhia, e segue em expansão de capacidade em Incheon com a construção de uma quinta planta no complexo coreano.

