Estruturas que deveriam durar um século começam a falhar silenciosamente anos antes do colapso visível, segundo dados do ICOLD — o Comitê Internacional de Grandes Barragens
Em 2019, a Vale S.A. registrou o colapso da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais, evento que liberou aproximadamente 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração em questão de minutos e matou 270 pessoas. O desastre não surgiu do nada. Sensores instalados na estrutura já registravam variações de pressão e deslocamento semanas antes. O problema estava nos dados que ninguém interpretou a tempo.
Segundo o ICOLD, existem cerca de 58 mil grandes barragens em operação no mundo. Dessas, aproximadamente 40% têm mais de 50 anos de uso, uma faixa etária em que a probabilidade de falha estrutural aumenta de forma não linear. Cada ano adicional de operação sem manutenção adequada não representa apenas desgaste gradual: representa a acumulação de tensões internas que, em determinado ponto, encontram um caminho de ruptura.
O fenômeno da ruptura progressiva explica por que uma barragem pode parecer estável até o momento exato em que colapsa em menos de 90 segundos
A engenharia de barragens trabalha com um conceito chamado piping, que descreve o processo pelo qual a água começa a percolar pelo interior da estrutura de terra ou enrocamento, carregando partículas finas e criando caminhos preferências de fluxo. O problema é que esse processo ocorre internamente, sem sinal visível na superfície, por meses ou até anos.
Quando o canal interno formado pelo piping atinge uma dimensão crítica, a estrutura perde coesão de forma súbita. Não há progressão lenta a partir desse ponto. O colapso ocorre em cascata: a água pressiona a abertura interna, o material ao redor cede, e a brecha se expande exponencialmente. Simulações realizadas pelo U.S. Army Corps of Engineers mostram que, em barragens de terra com altura acima de 30 metros, a ruptura total pode ocorrer entre 30 e 120 minutos após o início da brecha visível.
Essa janela de tempo é suficiente para evacuação apenas quando existe monitoramento contínuo e plano de ação emergencial previamente testado. Na maioria dos municípios brasileiros localizados a jusante de barragens de mineração, conforme levantamento da Agência Nacional de Mineração de 2022, menos de 35% das populações afetadas haviam participado de simulações de evacuação.
A massa de água liberada por uma barragem rompida se comporta como fluido não newtoniano, e é por isso que sua força destrutiva supera qualquer modelo intuitivo de inundação comum
Uma enxurrada convencional segue padrões previsíveis de vazão. O que sai de uma barragem rompida é diferente. Quando a estrutura contém rejeitos de mineração, o material liberado possui densidade entre 1,4 e 1,8 vezes superior à da água pura, o que modifica completamente o comportamento do fluxo.
Fluidos de alta densidade dessa natureza desenvolvem velocidades de frente que chegam a 30 km/h em terrenos com inclinação moderada, mantendo pressão de impacto suficiente para deslocar estruturas de concreto armado projetadas para resistir a enchentes normais. No caso de Brumadinho, o lamaçal percorreu 9 quilômetros em menos de 20 minutos, segundo laudos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.
Barragens de usinas hidrelétricas seguem lógica estrutural diferente das de mineração, mas compartilham os mesmos pontos críticos de falha que são subestimados em inspeções rotineiras
Uma barragem de usina hidrelétrica como Itaipu, que retém um reservatório de 29 bilhões de metros cúbicos de água, opera com instrumentação de monitoramento que inclui mais de 3.000 sensores distribuídos pela estrutura de concreto. Leituras de piezômetros, medidores de recalque e extensômetros são processadas continuamente para identificar qualquer desvio dos parâmetros de projeto.
O problema não está nas grandes estruturas com equipes dedicadas. Está nas pequenas e médias barragens, que representam mais de 70% do total cadastrado no Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens, o SNISB. Muitas delas foram construídas entre as décadas de 1960 e 1990, com critérios de projeto menos rigorosos, e hoje operam sem planos de ação emergencial formalizados.
A Islândia oferece um contraste direto ao mostrar que o risco hídrico pode ser aproveitado de forma controlada, enquanto outros países ainda tratam barragens como infraestrutura de segunda categoria
Enquanto o Brasil enfrenta o passivo de barragens envelhecidas, a Islândia construiu um modelo de gestão hídrica baseado em energia geotérmica e hidrelétrica que responde por mais de 99% da geração elétrica do país, segundo dados da Orkustofnun, a autoridade energética islandesa. A decisão de não priorizar energia eólica, mesmo diante de ventos abundantes, reflete uma lógica técnica precisa: a água já oferece geração base estável, e acrescentar uma segunda fonte intermitente criaria complexidade operacional sem ganho proporcional.
Esse modelo islandês existe porque o país construiu suas estruturas hídreas com padrões de manutenção que incluem inspeção subaquática anual das fundações, substituição preventiva de juntas de vedação a cada 15 anos e análise de estabilidade sísmica revisada sempre que um tremor acima de 3,0 graus na escala Richter é registrado na região. É uma cadência de manutenção que poucos países de renda média conseguem sustentar no longo prazo.
No Brasil, o marco regulatório da segurança de barragens foi atualizado em 2020, mas a capacidade de fiscalização ainda não acompanhou o volume de estruturas sob risco
A Lei 14.066 de 2020 ampliou as obrigações dos empreendedores de barragens no Brasil, exigindo instrumentação mínima, auditorias periódicas e planos de ação emergencial para todas as estruturas classificadas nas categorias de risco alto e médio. O problema identificado pelo Tribunal de Contas da União em auditoria de 2023 é que a Agência Nacional de Mineração e a Agência Nacional de Águas dispõem, juntas, de menos de 200 fiscais para monitorar aproximadamente 24 mil estruturas cadastradas no SNISB.
Isso representa uma média de 120 barragens por fiscal, número que inviabiliza qualquer ciclo de inspeção presencial com frequência adequada. O resultado prático é que grande parte da segurança das estruturas depende da autodeclaração dos próprios empreendedores, o que cria um incentivo estrutural para subnotificação de anomalias.
Tecnologias de sensoriamento remoto e inteligência artificial já permitem monitorar deformações milimétricas em barragens a partir de satélites, mas sua adoção no Brasil ainda é marginal
A técnica chamada InSAR, interferometria de radar de abertura sintética, permite detectar deslocamentos verticais ou horizontais de até 5 milímetros em superfícies de barragens, utilizando imagens de satélites como os da constelação Sentinel-1 da Agência Espacial Europeia. O custo de processamento de uma imagem caiu mais de 80% entre 2015 e 2023, segundo a própria ESA.
Algumas mineradoras brasileiras de grande porte já utilizam InSAR combinado com aprendizado de máquina para identificar padrões de deformação que antecedem eventos de instabilidade. Mas entre as barragens de médio porte, que concentram o maior risco não gerenciado, a adoção dessa tecnologia ainda é inferior a 8%, conforme dados do Instituto Brasileiro de Mineração de 2023.
A solução técnica existe e está disponível. O que falta, em muitos casos, não é tecnologia nem regulação: é a combinação de fiscalização efetiva com investimento obrigatório em monitoramento por parte dos empreendedores que operam estruturas com potencial de dano alto.
Você acredita que o Brasil deveria tornar obrigatório o uso de monitoramento por satélite em todas as barragens de alto risco, independentemente do porte do empreendedor? Deixe sua opinião nos comentários.

