O Brasil encerrou 2025 com o maior número de pedidos de recuperação judicial desde a criação do mecanismo legal, em 2005. Segundo levantamento da Serasa Experian, mais de 2.000 empresas ingressaram com o pedido ao longo do ano, superando todos os registros anteriores desde que a Lei nº 11.101/2005 foi sancionada. O agronegócio, setor que por décadas sustentou o crescimento econômico do país, responde sozinho por cerca de 30% desses casos, liderando entre todos os segmentos da economia.
Agro lidera, mas o problema é sistêmico
A concentração de pedidos no agronegócio surpreende pela magnitude. Frigoríficos, cooperativas, processadoras agrícolas e empresas de máquinas e equipamentos rurais figuram entre as mais afetadas. A distribuição geográfica dos casos acompanha a densidade do setor: Centro-Oeste e Sul concentram a maior parte dos pedidos, regiões onde a atividade agroindustrial de médio porte é mais intensa e onde a dependência de crédito para capital de giro é estrutural.
O problema, porém, não se restringe ao campo. O recorde de 2025 atravessa cadeias industriais diversas e inclui empresas de porte relevante. A Braskem, uma das maiores petroquímicas da América Latina, também atravessou pressões financeiras severas no mesmo período, reforçando que a crise de endividamento corporativo no Brasil não discrimina tamanho nem setor.
Selic alta comprimiu margens e inviabilizou dívidas
A taxa Selic mantida em patamares elevados durante 2024 e 2025 é o fator mais citado para explicar o colapso. Com o custo do crédito nas alturas, empresas de média intensidade de capital fixo, exatamente as que mais dependem de financiamento para operar, perderam a capacidade de rolar dívidas. Margens operacionais já pressionadas por custos de insumos e logística não resistiram ao aperto monetário prolongado.
A recuperação judicial, instrumento legítimo de reestruturação previsto em lei, quando utilizada em volume recorde deixa de ser sinal de resiliência empresarial e passa a indicar fragilidade estrutural das cadeias produtivas. O risco imediato é o desemprego em cascata: empresas em recuperação judicial cortam postos, suspendem fornecedores e reduzem investimentos, efeito que se propaga por toda a cadeia.
O que os números indicam sobre o ambiente de negócios
Para o setor industrial, o dado da Serasa é um termômetro do ambiente de negócios. Crédito caro, demanda interna ainda instável e estrutura tributária complexa combinaram-se para criar um cenário hostil à sustentabilidade financeira de médias empresas, que respondem por fatia expressiva do emprego formal no Brasil.
O levantamento da Serasa Experian, divulgado na primeira semana de abril de 2026 e repercutido por Estadão, Money Times e Diário do Comércio, ancora o recorde de 2025 como o maior da série histórica iniciada há duas décadas, quando a lei que regulamenta o processo foi aprovada.

