A linha de produção de balas e doces que opera a mais de 150°C, molda milhares de peças por hora e raramente aparece nos bastidores da indústria alimentícia

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A indústria de confeitaria industrial movimenta mais de 200 bilhões de dólares por ano globalmente e depende de processos térmicos e mecânicos tão exigentes quanto os de setores considerados pesados

Quando alguém abre um pacote de balas e morde uma peça perfeitamente moldada, de textura uniforme e cor vibrante, dificilmente imagina o que aconteceu antes daquele momento. A produção industrial de doces envolve uma cadeia de equipamentos de alta precisão, temperaturas extremas e controle rigoroso de tempo que colocam a fabricação de guloseimas muito mais próxima de uma linha automotiva do que de uma confeitaria artesanal. Máquinas que operam continuamente por horas, misturadores com capacidade para centenas de quilos e esteiras que conduzem o produto por túneis de resfriamento a temperatura controlada são apenas o começo.

O mercado global de balas, gomas e confeitos chegou a 210 bilhões de dólares em 2023, segundo dados da Mordor Intelligence, e deve crescer a uma taxa de 3,8% ao ano até 2028. Por trás desse volume está um parque industrial que combina equipamentos de origem europeia, americana e asiática, frequentemente operando de forma contínua em três turnos. Um único galpão de produção de médio porte é capaz de fabricar entre 5 e 15 toneladas de produto por dia, dependendo da categoria. A escala surpreende quem só conhece o produto pela embalagem.

O processo começa com o cozimento de xaropes a temperaturas que chegam a 160°C, e qualquer variação de cinco graus já compromete a textura final do produto

A matéria-prima principal das balas duras é uma combinação de sacarose, xarope de glicose e água. Essa mistura entra em caldeiras industriais ou sistemas de cozimento contínuo onde é aquecida a temperaturas entre 140°C e 165°C. O ponto exato de cozimento determina se a bala ficará dura, macia ou mastigável, e por isso os sistemas de controle de temperatura são críticos. Equipamentos modernos utilizam sensores de infravermelho e controladores PID que ajustam o fornecimento de calor em tempo real para manter a variação dentro de um intervalo de mais ou menos dois graus Celsius.

Após o cozimento, a massa passa por um sistema de resfriamento rápido sobre mesas ou cilindros de aço inoxidável refrigerados. É nessa etapa que os operadores adicionam corantes, aromatizantes e, em algumas linhas, ácidos como o ácido cítrico, que dá o sabor azedo característico de certas balas. A incorporação precisa desses ingredientes exige homogeneização constante, feita por rolos e puxadores mecânicos que dobram e esticam a massa repetidamente. Em linhas avançadas, esse processo é automatizado e pode processar até 800 kg por hora.

As moldadoras rotativas e as máquinas de estampagem trabalham a velocidades acima de 1.000 peças por minuto, e a sincronia entre os módulos define a eficiência de toda a linha

Uma vez que a massa atinge a consistência correta, ela é alimentada em moldadoras. Nas linhas de balas duras, os equipamentos mais comuns são as moldadoras de depósito, que injetam a massa ainda líquida em moldes de policarbonato ou silicone, e as estampadoras rotativas, que comprimem a massa já resfriada em formatos predefinidos. As estampadoras rotativas modernas, como as fabricadas pela alemã Bosch Packaging (hoje Robert Bosch GmbH) e pela italiana Euromec, operam a velocidades de 800 a 1.200 peças por minuto por cabeça de moldagem. Uma linha completa com múltiplas cabeças pode produzir mais de 3.000 unidades por minuto.

A sincronia entre o cozedor, o resfriador, o misturador e a moldadora é o que define a eficiência do processo. Uma parada de cinco minutos em qualquer módulo pode resultar em massa endurecida no sistema, o que provoca perda de produto e tempo de limpeza que, dependendo do equipamento, pode ultrapassar uma hora. Por isso, as linhas de alto desempenho utilizam sistemas SCADA para monitorar em tempo real os parâmetros de cada estação e acionar alertas antes que uma falha se converta em parada total.

O resfriamento controlado por túneis de ar forçado é o gargalo menos visível da produção e afeta diretamente a dureza, o brilho e a estabilidade do produto embalado

Depois da moldagem, as peças precisam ser resfriadas de forma uniforme e gradual para evitar tensões internas que causariam rachaduras ou deformações. Os túneis de resfriamento são equipamentos compridos, muitas vezes com 8 a 20 metros de extensão, por onde as balas percorrem em esteiras de aço enquanto ventiladores de alta vazão circulam ar frio entre 10°C e 18°C. O tempo de passagem no túnel varia de dois a oito minutos, dependendo do tamanho da peça e do tipo de bala.

Uma subida de temperatura ambiente no galpão de produção pode desestabilizar todo esse processo. Fábricas localizadas em regiões tropicais, como grande parte do Brasil, precisam de sistemas de climatização industrial para manter a temperatura interna do galpão abaixo de 25°C, o que representa um custo energético considerável. Esse é um dos motivos pelos quais as maiores plantas de confeitaria industriais no país estão concentradas nos estados do Sul e do Sudeste, onde o clima mais ameno reduz a carga sobre os sistemas de refrigeração.

No Brasil, empresas como Arcor, Dori e Florestal operam linhas de produção contínua com capacidade para dezenas de toneladas diárias, e o país figura entre os dez maiores produtores mundiais de balas

O Brasil tem um dos parques industriais de confeitaria mais desenvolvidos da América Latina. A Arcor, de capital argentino mas com plantas em Barra Mansa (RJ) e em outros estados brasileiros, processa volumes que rivalizam com os de grandes plantas europeias. A Dori Alimentos, com sede em Marília (SP), cidade conhecida como a capital nacional dos doces, opera múltiplas linhas e é uma das maiores exportadoras da categoria no país. Segundo dados da ABICAB (Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas), o Brasil produziu aproximadamente 350 mil toneladas de balas e confeitos em 2022.

A concentração industrial em Marília não é coincidência. A cidade acumula décadas de especialização em confeitaria industrial, o que gerou um ecossistema de fornecedores de embalagens, ingredientes e manutenção de equipamentos raramente encontrado em outras regiões. Esse tipo de aglomeração industrial reduz custos logísticos e facilita a contratação de mão de obra especializada, dois fatores que influenciam diretamente a competitividade das plantas locais.

A embalagem automática por twist wrap e flowpack fecha o ciclo produtivo a velocidades de até 2.000 unidades por minuto e exige calibração diária para manter a hermeticidade das embalagens

A última grande etapa antes da expedição é a embalagem. Para balas duras individuais, o sistema mais comum é o twist wrap, que envolve a peça em papel celofane e torce as extremidades automaticamente. Equipamentos desta categoria, como os fabricados pela italiana Theegarten-Pactec, operam a velocidades de 1.500 a 2.000 embalagens por minuto. Já para produtos em formatos maiores ou multiembalagens, o flowpack utiliza filme plástico termossoldado que envolve o produto em atmosfera controlada, aumentando a vida útil.

A calibração das embaladoras é feita diariamente no início de cada turno. O ajuste da temperatura de soldagem, da tensão do filme e da velocidade da esteira precisa ser verificado porque variações mínimas comprometem a hermeticidade da embalagem, o que pode resultar em entrada de umidade e perda de textura do produto antes mesmo de chegar ao consumidor. Em linhas certificadas por normas como a FSSC 22000, esse processo de verificação é registrado digitalmente e rastreável por lote.

A produção industrial de balas reúne mais de dez equipamentos diferentes operando em sincronia dentro de uma única linha, com temperaturas que variam de 160°C no cozedor a 10°C no túnel de resfriamento, velocidades de embalagem que ultrapassam 1.800 peças por minuto e um mercado brasileiro que, segundo a ABICAB, faturou 9,3 bilhões de reais apenas na categoria de balas e confeitos em 2022.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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