O que parece uma ameaça ao oceano funciona, na prática, como um dos ecossistemas mais produtivos que a engenharia industrial já criou sem querer

Plataformas de petróleo são, para a maioria das pessoas, símbolos de risco ambiental. A imagem que vem à mente é de derramamentos, chamas no horizonte e mar perturbado. Mas há algo acontecendo embaixo da linha d’água que contraria essa percepção com uma força que os dados não deixam questionar: ao redor das estruturas submersas dessas instalações, forma-se uma das concentrações mais densas de vida marinha encontradas em qualquer ponto dos oceanos.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara documentaram que plataformas no Golfo do México produzem entre 10 e 20 vezes mais peixes por metro quadrado do que os recifes de coral naturais da mesma região. Não é uma exceção. É um padrão que se repete desde o Mar do Norte até a Bacia de Campos, no litoral brasileiro, e que transformou essas estruturas de aço em objeto de estudo intenso dentro da biologia marinha.
A estrutura submersa de uma plataforma típica cria uma superfície de fixação de até 40 mil metros quadrados que organismos marinhos colonizam em menos de seis meses
Uma plataforma de petróleo offshore não é apenas o que se vê acima do mar. Abaixo da superfície existem pilares, travessas, cabos e estruturas de ancoragem que se estendem por dezenas de metros em direção ao fundo oceânico. Em plataformas semi-submersíveis como as usadas na camada pré-sal brasileira, essa estrutura submersa pode atingir profundidades superiores a 100 metros. O aço bruto, ao entrar em contato com a água salgada, torna-se em semanas um substrato. Algas microscópicas chegam primeiro. Depois vêm os cracas, as ostras, as estrelas-do-mar. O processo é chamado de bioincrustação, e nenhuma engenharia conseguiu impedi-lo completamente.
Com o tempo, a estrutura deixa de ser aço e passa a ser recife. Corais duros e macios se fixam às vigas. Esponjas formam colônias que filtram volumes imensos de água. Esse substrato complexo atrai pequenos peixes, que atraem predadores maiores, que atraem cardumes ainda maiores. Em plataformas com mais de dez anos de operação, não é incomum registrar a presença simultânea de garoupas, tubarões-lixa, barracudas, lutjanídeos e até tartarugas. A cadeia alimentar se organiza a partir de uma estrutura que foi projetada exclusivamente para extrair petróleo.
O efeito de agregação de pescado ao redor das plataformas é tão intenso que pescadores artesanais do Brasil aprenderam a mapear instalações offshore como pontos de pesca produtivos

Na Bacia de Campos, estado do Rio de Janeiro, pescadores de Macaé e Cabo Frio desenvolveram ao longo das últimas décadas um conhecimento informal sobre quais plataformas concentram mais peixes e em qual época do ano. Esse comportamento não é exclusivo do Brasil: no Golfo do México, onde existem mais de 2.500 plataformas ativas e abandonadas, a pesca esportiva e artesanal ao redor das estruturas movimenta uma economia paralela estimada em centenas de milhões de dólares por ano.
O fenômeno tem nome técnico: FAD, ou Fish Aggregating Device, em inglês. Qualquer objeto flutuante ou submerso de grande porte tende a atrair vida marinha. Plataformas de petróleo funcionam como FADs permanentes, de escala industrial e com décadas de operação. Isso cria um dilema real para gestores ambientais: quando uma plataforma é descomissionada, o que fazer com a estrutura submersa? Removê-la destrói um ecossistema que levou anos para se consolidar.
O programa Rigs-to-Reefs nos Estados Unidos já converteu mais de 500 estruturas offshore desativadas em recifes artificiais permanentes, com resultados documentados de aumento de biomassa
Desde 1984, o estado da Louisiana opera o programa Rigs-to-Reefs, que permite às operadoras de petróleo optarem por deixar parte ou toda a estrutura submersa no lugar ao desativar uma instalação. O programa elimina o custo de remoção, que pode chegar a 30 milhões de dólares por plataforma, e converte a estrutura em patrimônio ambiental público. Mais de 500 plataformas foram convertidas em recifes artificiais sob essa legislação, e levantamentos biológicos mostram densidade de peixes consistentemente maior do que em pontos equivalentes sem estrutura.
No Brasil, a Petrobras e a ANP discutem há anos uma regulamentação similar. O descomissionamento de campos maduros como Marlim e Albacora, que operam desde os anos 1990, vai exigir decisões sobre dezenas de estruturas submersas nas próximas décadas. A opção de converter essas estruturas em recifes é tecnicamente viável e economicamente atrativa, mas exige legislação específica que ainda não existe no país.
A vida marinha ao redor das plataformas brasileiras na Bacia de Santos inclui espécies de profundidade raramente observadas, e mergulhadores científicos já catalogaram mais de 200 espécies em uma única instalação

A Bacia de Santos, onde estão localizados os maiores campos do pré-sal brasileiro, concentra plataformas em lâminas d’água entre 1.500 e 3.000 metros. Nessas profundidades, a estrutura submersa passa por zonas de temperatura, salinidade e pressão radicalmente diferentes. Cada faixa de profundidade atrai uma comunidade biológica distinta. Pesquisas conduzidas pelo Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro e pela UFRJ em plataformas da Petrobras já catalogaram mais de 200 espécies de peixes associadas a uma única instalação, incluindo espécies de água funda que raramente chegam perto o suficiente da superfície para serem observadas por mergulhadores.
Entre as espécies documentadas estão o cherne-poveiro, o dentão, o namorado e diversas variedades de atum que usam as plataformas como referência de navegação no oceano aberto. Isso acontece porque o oceano aberto é, do ponto de vista biológico, um deserto. Estruturas verticais no meio da coluna d’água representam pontos de referência raros, e os animais as utilizam para orientação, alimentação e reprodução.
A engenharia de novas plataformas começa a incorporar o design de recifes artificiais como variável de projeto, reconhecendo que a bioincrustação não é um problema a resolver, mas um processo a potencializar
Algumas operadoras no Mar do Norte e no Golfo do México já testam estruturas com geometrias pensadas para maximizar a colonização biológica. Superfícies rugosas, cavidades e ângulos que retêm sedimento são incorporados aos pilares de novas instalações com o objetivo explícito de acelerar a formação do ecossistema. A lógica é simples: uma plataforma cercada de vida marinha densa tem menor incidência de corrosão por certos organismos incrustantes quando o equilíbrio biológico está estabelecido, e gera um ativo de imagem ambiental relevante para empresas que precisam demonstrar responsabilidade ecológica em seus relatórios.
No caso brasileiro, o potencial é amplificado pela biodiversidade do Atlântico Sul. A temperatura da água, a corrente do Brasil e a proximidade de áreas de ressurgência como Arraial do Cabo criam condições favoráveis para que as plataformas da Bacia de Campos se tornem, com o tempo, alguns dos pontos de maior concentração de vida marinha do hemisfério sul. Um levantamento realizado pela Petrobras em 2019 registrou cardumes de atum com mais de 10.000 indivíduos circulando ao redor de uma única plataforma durante a estação de migração.
O que a biologia marinha documentou nas últimas quatro décadas é que estruturas de aço colocadas no oceano produzem ecossistemas funcionais em escala que nenhum programa de restauração de recifes naturais conseguiu replicar com o mesmo custo e velocidade: plataformas no Golfo do México com 20 anos de operação sustentam biomassa de peixes equivalente a 27 toneladas por hectare, um número que os recifes de coral naturais mais produtivos do mundo raramente ultrapassam.

