A empresa brasileira que abastece supermercados em 190 países e já pagou mais de R$ 10 bilhões em multas por corrupção sem perder mercado

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A JBS controla cerca de 20% do mercado global de proteína animal e opera em um setor onde escândalos bilionários não interromperam nem um dia de produção

Nenhuma outra empresa de alimentos no mundo abate tantos animais por dia. A JBS, fundada em Anápolis (GO) em 1953 como um pequeno frigorífico familiar, processa hoje mais de 13 milhões de cabeças de gado, suínos e aves por ano em plantas espalhadas por quatro continentes. Seus produtos chegam a prateleiras em 190 países, sob marcas como Swift, Pilgrim’s Pride e Friboi, sem que a maioria dos consumidores saiba que está comprando de uma única corporação brasileira.

O que torna esse crescimento perturbador não é apenas a escala, mas o caminho. De acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a JBS e seus controladores, os irmãos Joesley e Wesley Batista, pagaram mais de 150 milhões de dólares em propinas a aproximadamente 1.900 políticos brasileiros ao longo de quase uma década. A empresa pagou multa de 3,2 bilhões de dólares em acordos com autoridades americanas e brasileiras. E mesmo assim abriu capital na Bolsa de Nova York em 2024.

A JBS cresceu usando crédito público subsidiado pelo BNDES, que injetou mais de R$ 8 bilhões na empresa entre 2007 e 2017 enquanto os escândalos se acumulavam

O mecanismo de expansão da JBS não foi apenas o mercado. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tornou-se o maior acionista individual da companhia por meio de participações diretas e indiretas via BNDESPar, chegando a deter mais de 20% das ações em determinado momento. Com crédito barato e respaldo estatal, a empresa adquiriu dezenas de concorrentes em menos de dez anos: Swift nos Estados Unidos em 2007, Smithfield Beef em 2008, Pilgrim’s Pride em 2009 e Marfrig Beef em 2013, entre outros.

Esse modelo de crescimento acelerado por aquisições financiadas com dinheiro público gerou um conglomerado com receita anual superior a 70 bilhões de dólares, conforme os relatórios financeiros da própria JBS. Para efeito de comparação, esse valor é maior do que o PIB de países como Bolívia e Paraguai somados. A concentração resultante significa que, em vários estados americanos, produtores rurais têm apenas uma ou duas opções de frigorífico para onde enviar seu gado, situação que a More Perfect Union documentou ao ouvir pecuaristas que descrevem o poder de barganha da JBS como sufocante.

A abertura de capital na Bolsa de Nova York em 2024 levantou 2 bilhões de dólares e reacendeu o debate sobre se corporações com histórico de corrupção deveriam ter acesso ao mercado americano

O IPO da JBS na NYSE foi aprovado pela Securities and Exchange Commission (SEC) depois de anos de pressão política contrária. Senadores americanos de ambos os partidos, incluindo Elizabeth Warren e Roger Marshall, enviaram cartas à SEC argumentando que permitir a listagem seria um sinal de que o mercado americano tolera corrupção sistêmica. A aprovação veio mesmo assim.

A justificativa da JBS foi que a empresa “mudou sua governança” e que os irmãos Batista, que chegaram a ser presos temporariamente durante as investigações da Operação Lava Jato, não ocupam mais cargos executivos formais. Críticos apontam que os dois ainda controlam a J&F Investimentos, holding que detém a maioria das ações com direito a voto da JBS, o que mantém o controle familiar mesmo à distância da gestão diária.

A verticalização extrema do setor frigorífico global cria dependências invisíveis que ficam evidentes apenas quando uma única empresa enfrenta uma crise sanitária ou criminal

Em maio de 2021, um ataque de ransomware ao sistema de TI da JBS paralisou operações em plantas dos Estados Unidos, Canadá e Austrália por dois dias. O governo americano declarou situação de atenção para o abastecimento de carne. A empresa pagou 11 milhões de dólares em bitcoin aos hackers para retomar as operações, conforme confirmado pela própria JBS em comunicado oficial.

Aquele episódio expôs uma vulnerabilidade que vai além da segurança digital: quando quatro empresas controlam mais de 80% do processamento de carne bovina nos Estados Unidos, qualquer interrupção em uma delas afeta imediatamente os preços e a disponibilidade para 330 milhões de consumidores. Conforme dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a concentração nesse nível não existia há 40 anos no setor.

As maiores fazendas do mundo produzem em escala que reforça o domínio das grandes processadoras, criando uma cadeia onde produtores rurais têm cada vez menos poder de negociação

Para entender o poder das processadoras como a JBS, é preciso olhar também para quem está a montante da cadeia. As maiores propriedades rurais do planeta operam em dimensões que desafiam a intuição: a Anna Creek Station, na Austrália, tem 6 milhões de hectares, área maior do que a Irlanda inteira. Nos Estados Unidos, a família Koch controla mais de 400 mil hectares de terra agrícola. Mesmo nessa escala, esses produtores dependem das processadoras para escoar a produção.

Quando há apenas duas ou três opções de frigorífico em um raio economicamente viável, o produtor não tem como rejeitar o preço oferecido. Esse desequilíbrio é documentado em relatórios do USDA desde os anos 1990, mas as fusões continuaram acontecendo com aprovação regulatória. A JBS sozinha opera mais de 150 plantas industriais em 15 países, segundo dados da própria companhia, o que lhe dá capacidade de redirecionar volumes entre mercados com uma flexibilidade que nenhum produtor individual consegue acompanhar.

No Brasil, a JBS responde por mais de 30% das exportações de carne bovina e sua relação com o desmatamento da Amazônia virou alvo de processos em três continentes diferentes

Conforme levantamento do Imazon publicado em 2023, uma parcela significativa dos fornecedores diretos e indiretos da JBS na Amazônia Legal tem histórico de embargo pelo Ibama por desmatamento ilegal. A empresa assinou compromissos públicos de rastreabilidade de fornecedores em 2009, mas auditorias independentes realizadas pela organização Repórter Brasil identificaram recorrentemente fazendas embargadas na cadeia de fornecimento.

Na Europa, o Parlamento Europeu aprovou em 2023 o Regulamento de Desmatamento da UE, que exige rastreabilidade completa de commodities como carne bovina e soja até a origem geográfica. Para a JBS, que exporta volumes expressivos para o mercado europeu, a regulamentação representa um custo de adequação estimado em centenas de milhões de dólares, segundo análise da consultoria McKinsey publicada no mesmo ano.

A questão regulatória nos Estados Unidos ganhou força no Congresso, mas as tentativas de impor limites à concentração do setor frigorífico esbarraram no lobby da indústria por mais de duas décadas

O Farm System Reform Act, proposto pela senadora Cory Booker, propõe uma moratória imediata em novas megafusões no setor de processamento de alimentos e a revisão de fusões aprovadas desde 1990. O projeto não avançou para votação, mas o debate que gerou trouxe à tona dados antes pouco conhecidos pelo público: conforme o Institute for Agriculture and Trade Policy (IATP), o produtor de frango americano recebe hoje, em termos reais ajustados pela inflação, 50% menos por animal do que recebia nos anos 1970, enquanto o preço final ao consumidor triplicou no mesmo período.

A JBS e seus concorrentes argumentam que a eficiência da produção em escala é o que garante proteína acessível para populações de baixa renda. É um argumento com base real em termos de custo unitário, mas que ignora quem absorve os ganhos dessa eficiência: conforme os relatórios financeiros da J&F Investimentos, os lucros da holding familiar cresceram 340% entre 2017 e 2023, período que inclui os anos de pagamento das multas bilionárias.

Você acredita que uma empresa com histórico documentado de corrupção sistêmica deveria ter acesso irrestrito aos maiores mercados financeiros e alimentares do mundo? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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