O vice-presidente Geraldo Alckmin usou a expressão “manicômio tributário” para descrever o sistema de impostos do Brasil em declaração feita no dia 20 de junho de 2026. A fala, proferida no contexto da Reforma Tributária aprovada pelo Congresso em 2023 e ainda em regulamentação, ganhou repercussão imediata no meio empresarial, sobretudo porque partiu do ministro responsável pelo Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O Brasil exige das empresas uma média de 1.500 horas por ano apenas para o cumprimento de obrigações fiscais, segundo o Banco Mundial, um dos piores índices globais.
Um sistema com mais de 90 tributos
A carga burocrática fiscal brasileira não é novidade para o setor industrial. A CNI (Confederação Nacional da Indústria) e federações estaduais como a FIESC, em Santa Catarina, apontam há décadas a complexidade tributária como um dos principais componentes do chamado “Custo Brasil”, que encarece a produção nacional e reduz a competitividade das exportações frente a concorrentes internacionais. O país acumula mais de 90 tributos diferentes incidindo sobre empresas e cidadãos, cenário que afasta investidores estrangeiros e compromete o ambiente de negócios.
A Reforma Tributária aprovada em 2023 prevê a unificação de tributos sobre consumo, com a criação do IVA dual, reduzindo a fragmentação do sistema atual. A regulamentação, porém, avança em etapas, e setores industriais pressionam para que o processo não sofra retrocessos nem gere novas sobreposições durante a transição, prevista para durar até 2033.
Alckmin e a Nova Indústria Brasil
A declaração do vice-presidente se insere numa estratégia mais ampla do MDIC de reposicionar o Brasil no debate global sobre reindustrialização. O programa Nova Indústria Brasil, lançado pelo próprio ministério, prevê investimentos de R$ 300 bilhões até 2026 em modernização e expansão da capacidade produtiva do país. Chamar o próprio sistema tributário de “manicômio” funciona, nesse contexto, como um sinal político de alinhamento com a agenda da desburocratização, algo que o setor produtivo cobra há anos do governo federal.
O episódio expõe uma tensão que não é nova: de um lado, a necessidade de arrecadação do Estado; do outro, a demanda das empresas por previsibilidade e agilidade regulatória. A diferença agora é que a crítica vem de dentro do próprio governo, o que aumenta a pressão sobre o Congresso e o Ministério da Fazenda para que a regulamentação da reforma avance sem brechas que preservem a complexidade atual sob novas roupagens.
Com eleições gerais marcadas para outubro de 2026, o tema tributário tende a ganhar ainda mais espaço no debate político. O Banco Mundial registra que o Brasil ocupa uma das últimas posições entre economias emergentes no indicador de facilidade para pagar impostos, ficando atrás de países como México, Colômbia e Argentina nesse critério específico.

