A República Islâmica do Irã suspendeu as negociações diplomáticas com os Estados Unidos e emitiu, na segunda-feira (1º/6), uma ameaça formal de bloqueio do Estreito de Ormuz, rota por onde passa aproximadamente 20% de todo o petróleo comercializado no mundo. O anúncio provocou instabilidade imediata nos mercados de commodities energéticas e acende um alerta direto para o setor industrial brasileiro, fortemente dependente dos preços internacionais do barril.
O que está em jogo no Estreito de Ormuz
O estreito conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e funciona como única saída marítima para as exportações de petróleo e gás natural liquefeito de Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Iraque e o próprio Irã. Um bloqueio efetivo retiraria do mercado entre 15 e 17 milhões de barris diários, volume suficiente para provocar um choque de oferta com repercussões rápidas sobre os preços do Brent e do WTI.
A OPEP+ já vinha administrando cotas de produção para sustentar o patamar de preços. Com a ameaça iraniana, o equilíbrio frágil que o cartel mantinha se torna ainda mais difícil de preservar.
Os dois lados do problema para o Brasil
O Brasil produz mais de 3,4 milhões de barris por dia, volume majoritariamente extraído do pré-sal. Alta sustentada nos preços internacionais significa receita maior para a Petrobras e mais arrecadação federal via royalties e participações especiais. Até aí, o sinal é positivo para as contas públicas.
O problema está no outro lado da equação. A Petrobras adota política de paridade com os preços internacionais, o que significa que a elevação do barril se transmite para combustíveis, petroquímica e insumos industriais no país. Setores como siderurgia, fertilizantes, papel e celulose e transporte de cargas absorvem esse custo diretamente, pressionando margens e, em seguida, preços ao consumidor final.
Inflação de custos na cadeia produtiva
A indústria brasileira já convive com um ambiente de juros elevados e câmbio volátil. Um choque externo de energia nesse quadro agrava a equação de custos de setores que dependem de derivados de petróleo como insumo básico de processo. Petroquímica e fertilizantes são os mais expostos, já que o gás natural e a nafta, ambos afetados por uma crise no Golfo Pérsico, entram diretamente na formação dos seus produtos.
O transporte rodoviário de cargas, predominante na matriz logística brasileira, responderia com reajuste no frete, espalhando a pressão de custo por toda a cadeia de abastecimento.
Em 2025, a produção do pré-sal respondeu por mais de 75% do total extraído no Brasil, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Esse volume posiciona o país como exportador líquido de petróleo bruto, mas não isola a economia doméstica dos choques de preço, dado que o mercado interno de derivados segue atrelado às cotações externas pela política vigente da estatal.

