Jim Farley, presidente-executivo da Ford Motor Company, disse a funcionários da empresa que fabricantes chineses de automóveis podem “tomar o lugar” das montadoras americanas no mercado dos Estados Unidos dentro de cinco a dez anos. A declaração, feita internamente e divulgada no final de julho e início de agosto de 2026, ganhou repercussão internacional e expõe, com rara franqueza, o nível de preocupação que a indústria ocidental já carrega em relação à China, desta vez pela voz de um dos executivos mais influentes do setor.
A ameaça concreta por trás do alerta
O que sustenta a previsão de Farley não é especulação. BYD, SAIC, Geely e Chery deixaram de ser fabricantes voltados exclusivamente ao mercado doméstico e se tornaram concorrentes globais com produtos tecnologicamente competitivos, sobretudo em veículos elétricos. A BYD encerrou 2023 como a maior fabricante de elétricos do mundo por volume de vendas, ultrapassando a Tesla em determinados trimestres. Esse avanço se deu em menos de uma década, ritmo que as montadoras tradicionais não conseguiram igualar em suas próprias transições para a eletrificação.
A resposta dos governos ocidentais até agora tem sido tarifária. Os EUA mantêm sobretaxas de até 100% sobre veículos elétricos chineses, e a União Europeia adotou tarifas adicionais de até 35,3% sobre os mesmos produtos em 2024. Essas barreiras compram tempo, mas não resolvem o problema estrutural de competitividade que Farley identificou: os chineses produzem carros elétricos a custos sistematicamente mais baixos do que qualquer concorrente ocidental consegue atingir.
O que isso significa para o Brasil
O Brasil já vive na prática o movimento que Farley projeta para os EUA. A BYD inaugurou sua fábrica em Camaçari, na Bahia, em 2024, ocupando exatamente o espaço industrial que a Ford deixou ao encerrar sua produção no país em 2021. Outras marcas chinesas ampliam continuamente sua fatia no mercado nacional: em 2023, os veículos de origem chinesa responderam por cerca de 30% das importações de automóveis no Brasil, segundo dados do Sindipeças.
O governo federal debate incentivos ao setor por meio do programa Mover, lançado em 2023, que prevê créditos fiscais para fabricantes que invistam em veículos elétricos e híbridos no país. O programa tenta atrair investimentos e ancorar a produção local, mas enfrenta o mesmo dilema que os americanos e europeus: como competir com uma cadeia produtiva chinesa que controla desde o refino de lítio até a fabricação das células de bateria.
A declaração de Farley adiciona urgência a esse debate. Ele conduziu a reestruturação da Ford em torno de picapes, utilitários comerciais e elétricos — uma aposta que manteve a empresa rentável quando a divisão de carros de passeio sangrava dinheiro. Se um executivo com esse histórico de decisões acertadas vê a ameaça chinesa como iminente, gestores industriais e formuladores de política no Brasil têm razão concreta para revisar suas premissas. A Ford deixou o Brasil há quatro anos. A BYD agora fabrica aqui.

