As falências corporativas nos Estados Unidos oscilam no maior patamar desde o período pós-crise financeira de 2008 e 2009, segundo levantamento da S&P Global divulgado em julho de 2026. O dado, compilado com base nos pedidos de proteção registrados ao longo do primeiro semestre do ano, não retrata um pico isolado: é uma tendência sustentada por meses consecutivos, alimentada por juros elevados, crédito caro e margens comprimidas em setores como manufatura, energia solar, varejo e logística.
Juros altos como estopim
O ciclo de aperto monetário promovido pelo Federal Reserve para conter a inflação pós-pandemia encareceu dramaticamente o crédito corporativo. Empresas industriais que dependem de financiamento para capital de giro e expansão produtiva foram as mais expostas. O resultado aparece nos números: cerca de 100 companhias americanas do setor solar declararam falência, conforme levantamento da Harvard Business School publicado em junho de 2026. No mesmo período, uma fabricante de precisão de Nevada, de propriedade feminina, protocolou pedido de Chapter 11, o mecanismo americano de proteção contra credores que permite reestruturar dívidas sem encerrar as operações, funcionando de forma análoga à recuperação judicial brasileira.
O volume recorde de acionamentos do Chapter 11 indica algo além de casos isolados. É pressão sistêmica sobre modelos de negócio que se tornaram inviáveis diante do novo custo do dinheiro e da volatilidade nas cadeias de suprimentos globais. Quando o instrumento é ativado em escala, o diagnóstico deixa de ser pontual e passa a ser estrutural.
O que isso muda para empresas brasileiras
Para o setor industrial brasileiro, o cenário americano tem consequências diretas. Empresas nacionais que exportam insumos, componentes ou produtos acabados para o mercado dos EUA podem enfrentar inadimplência ou cancelamento de pedidos por parte de compradores em dificuldade financeira. A cadeia de efeitos não é imediata, mas é real: um fornecedor brasileiro cujo cliente americano entra em Chapter 11 enfrenta incerteza sobre recebíveis e continuidade dos contratos.
Há, contudo, um movimento de sentido oposto. A retração de concorrentes americanos abre espaço para fornecedores externos ganharem posições em mercados antes ocupados por produtores locais. Setores brasileiros com competitividade em preço e escala, como siderurgia, papel e celulose e produtos agroindustriais, podem ser beneficiados pela saída de players americanos do mercado.
Analistas do mercado financeiro avaliam que, caso o Federal Reserve mantenha os juros em patamares restritivos até o final de 2026, o número de falências pode continuar crescendo. O levantamento da S&P Global, que consolidou dados do primeiro semestre, já aponta o pior resultado desde 2010, quando as empresas americanas ainda digeriam os efeitos da crise do subprime.

