A empresa brasileira que pagou US$ 3,2 bilhões em propinas e agora controla mais de 20% da proteína animal consumida no mundo inteiro

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A JBS se tornou a maior processadora de carne do planeta enquanto acumulava um histórico de escândalos de corrupção que atravessou três continentes e envolveu governos, frigoríficos e bilhões de dólares em subornos

Poucas empresas no mundo cresceram tão rápido quanto a JBS. Em menos de duas décadas, a companhia fundada em Anápolis, Goiás, por José Batista Sobrinho transformou-se na maior processadora de proteína animal do planeta, com operações em mais de 20 países e receita superior a R$ 350 bilhões em 2023, segundo dados da própria companhia. É um número que ultrapassa o PIB de várias nações.

O problema é o caminho que levou até ali. A JBS protagonizou um dos maiores escândalos de corrupção da história da indústria alimentícia global, com US$ 3,2 bilhões em pagamentos ilegais a políticos e funcionários públicos no Brasil, conforme documentado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Em 2017, os irmãos Joesley e Wesley Batista assinaram acordos de delação premiada que abalaram o governo Temer. Mesmo assim, a empresa continuou crescendo.

O dinheiro público brasileiro financiou a expansão internacional da JBS por meio de empréstimos bilionários do BNDES que jamais deveriam ter sido aprovados nos termos em que foram

Entre 2007 e 2017, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social injetou cerca de R$ 8,1 bilhões na JBS, tornando-se sócio da companhia por meio do BNDESpar, braço de participações do banco. Esses recursos subsidiados permitiram que a empresa adquirisse frigoríficos nos Estados Unidos, Austrália, Europa e América Latina em ritmo acelerado, consolidando uma posição de domínio de mercado que seria impossível de atingir com capital privado nas mesmas condições.

As aquisições mais relevantes desse período incluem a Swift Foods nos EUA, em 2007, e a Pilgrim’s Pride, em 2009, quando a maior processadora de frango norte-americana estava em recuperação judicial. Segundo a Reuters, a JBS pagou cerca de US$ 800 milhões pela fatia de controle na Pilgrim’s, usando em parte capital alavancado sobre as linhas de crédito do BNDES. O banco público brasileiro, portanto, financiou indiretamente a dominação do mercado americano de proteína animal por uma empresa estrangeira.

O TCU concluiu, em 2017, que parte dos empréstimos foi concedida sem as devidas garantias e com condições favorecidas que não eram disponibilizadas para outras empresas do setor. Nenhum dirigente do BNDES foi condenado por isso.

A abertura de capital na bolsa de Nova York em 2024 deu à JBS acesso a trilhões de dólares em capital institucional e tornou ainda mais difícil qualquer tentativa de responsabilização futura

Em maio de 2024, a JBS concluiu sua listagem na Bolsa de Valores de Nova York, um objetivo que a empresa perseguia há quase seis anos e que havia sido bloqueado anteriormente pela SEC, a comissão de valores mobiliários americana, justamente por causa do histórico de corrupção dos controladores. A aprovação final veio após a empresa argumentar que havia reformado sua governança e que os irmãos Batista já haviam cumprido suas obrigações legais nos acordos firmados.

A listagem nos EUA não é apenas simbólica. Ela permite que a JBS acesse fundos de pensão, gestoras de ativos e investidores institucionais americanos que, por regulação, só podem comprar ações de empresas listadas em bolsas reconhecidas. De acordo com o canal More Perfect Union, isso significa que trabalhadores americanos aposentados podem estar, sem saber, financiando indiretamente uma empresa que pagou propinas a dezenas de políticos brasileiros.

O domínio vertical da cadeia produtiva pela JBS reduz a concorrência, pressiona pecuaristas independentes e concentra o poder de precificação da proteína animal nas mãos de poucos grupos globais

A JBS não processa apenas carne bovina. A companhia controla operações de frango, suíno, cordeiro, couro, biodiesel, embalagens e até produtos farmacêuticos derivados de subprodutos animais. Segundo a própria empresa, são mais de 150 unidades industriais em funcionamento simultâneo ao redor do mundo. Esse nível de integração vertical cria barreiras de entrada praticamente intransponíveis para novos competidores.

Para o produtor rural brasileiro, a concentração tem efeito direto no preço recebido pela arroba. Quando poucos frigoríficos dominam a compra do boi gordo em uma região, o pecuarista tem pouco poder de barganha. A Embrapa já documentou em relatórios anteriores que regiões com menor número de frigoríficos ativos registram spreads maiores entre o preço pago ao produtor e o preço final ao consumidor, o que indica extração de margem por poder de mercado.

A Índia emerge como o segundo maior exportador mundial de carne bovina e muda o mapa global da proteína animal em um movimento que as grandes processadoras ocidentais ainda não assimilaram completamente

Enquanto a JBS consolida seu domínio no hemisfério ocidental, o mapa global da produção de carne passa por uma reconfiguração silenciosa no leste. A Índia, país historicamente associado ao vegetarianismo, tornou-se o segundo maior exportador mundial de carne bovina, liderado pela carne de búfalo, que não viola as restrições religiosas predominantes. Estados como Uttar Pradesh, Andhra Pradesh e Telangana concentram a maior parte da produção, segundo dados do Ministério do Comércio indiano de 2024.

A produção indiana opera com custos muito inferiores aos praticados no Brasil ou nos EUA, o que pressiona globalmente os preços da proteína bovina de menor valor agregado. Para empresas como a JBS, isso representa tanto uma ameaça quanto uma oportunidade: a companhia brasileira ainda não tem presença relevante na Índia, mas o crescimento do mercado asiático de proteína animal é o próximo front de expansão que qualquer grande processadora global precisa responder.

No Brasil, a JBS emprega mais de 100 mil trabalhadores diretos e criou uma dependência econômica regional que torna qualquer ação regulatória contra a empresa politicamente muito custosa

Em cidades como Lins (SP), Jataí (GO) e Dourados (MS), a JBS é frequentemente o maior empregador privado do município. Isso cria uma assimetria de poder entre a empresa e os governos locais e estaduais que dificulta fiscalizações, autuações e qualquer tentativa de renegociar condições de licenciamento ambiental ou trabalhista. O Ministério do Trabalho já registrou operações de resgate de trabalhadores em condições análogas à escravidão em fornecedores indiretos da cadeia da JBS, mas a responsabilização da empresa-mãe nunca avançou na mesma proporção.

Conforme o Ministério Público Federal documentou em investigações entre 2020 e 2023, parte dos fornecedores de gado da JBS opera em áreas de desmatamento ilegal na Amazônia. A empresa assinou compromissos públicos de rastreabilidade até 2025, mas organizações como o Greenpeace Brasil apontam que o monitoramento ainda cobre apenas o fornecedor direto, e não a cadeia anterior de engorda, onde o desmatamento mais frequentemente ocorre.

A listagem americana e o crescimento contínuo mostram que escândalos de corrupção, por maiores que sejam, raramente interrompem a expansão de empresas quando o produto que elas vendem é considerado essencial

A trajetória da JBS expõe uma contradição estrutural do capitalismo global: empresas que violam sistematicamente leis anticorrupção, trabalhistas e ambientais podem continuar crescendo desde que controlem ativos considerados estratégicos para a segurança alimentar. A carne é um desses ativos. Segundo a FAO, a demanda global por proteína animal deve crescer 14% até 2030, puxada principalmente por China, Índia e África Subsaariana. Quem controlar a infraestrutura de processamento nesse período ditará o preço que o mundo paga para comer.

A JBS está posicionada para ser essa empresa. Com capital americano, incentivo público brasileiro, estrutura produtiva em cinco continentes e histórico de impunidade que nunca impediu novos negócios, a companhia representa um modelo de crescimento corporativo que os reguladores de todo o mundo ainda não sabem como conter de forma efetiva.

Você acredita que empresas com histórico documentado de corrupção deveriam ter impedimento permanente para captar recursos em bolsas de valores internacionais? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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