Os Estados Unidos perderam cerca de 7 milhões de postos de trabalho na indústria entre 1979 e os anos 2000, e a maior parte dessa destruição não veio de Xangai, mas de robôs, software e linhas automatizadas instaladas dentro do próprio país
Durante décadas, o declínio da manufatura americana foi narrado como uma história de traição comercial. A China roubava empregos, os acordos de livre-comércio sacrificavam trabalhadores e as fábricas migravam para o outro lado do mundo atraídas por mão de obra barata. Essa narrativa elegeu presidentes, guiou políticas tarifárias e moldou o debate econômico nos Estados Unidos por pelo menos trinta anos.
O problema é que os números não sustentam essa versão. Segundo análise discutida pelo ex-senador republicano da Pensilvânia Patrick J. Toomey em evento do Council on Foreign Relations, a automação foi responsável pela maior fatia da perda de empregos industriais americanos, não a competição com países de baixo custo. O volume de bens fabricados nos Estados Unidos continuou crescendo, mas cada unidade passou a exigir muito menos trabalhadores do que antes.
A produtividade industrial americana cresceu mais de 40% entre 1990 e 2010, enquanto o número de operadores nas linhas de produção despencava no mesmo ritmo e pelo mesmo motivo
Esse é o núcleo do paradoxo que confunde o debate público. As fábricas americanas não pararam de produzir. Pelo contrário: a produção industrial dos Estados Unidos em termos de volume era, nos anos 2010, significativamente maior do que nas décadas anteriores. O que mudou foi a quantidade de pessoas necessárias para gerar essa produção.
Equipamentos de comando numérico computadorizado, sistemas de visão artificial, braços robóticos e software de gestão de processos substituíram funções que antes exigiam dezenas de operadores por turno. Uma linha de estamparia que empregava 40 pessoas nos anos 1980 pode ser operada hoje por 6 ou 8 técnicos de manutenção e supervisão. O produto sai igual. O custo unitário cai. O emprego desaparece.
Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology, incluindo o economista Daron Acemoglu, estimam que cada robô industrial adicionado à produção americana elimina entre 3 e 6 postos de trabalho nas regiões onde é instalado. Com mais de 300 mil robôs em operação nas plantas dos Estados Unidos segundo a Robotic Industries Association, a conta começa a fechar de um jeito que nenhuma tarifa sobre produto chinês conseguiria reverter.
A China inegavelmente absorveu parte da produção mundial, mas o “choque chinês” documentado pelos economistas Autor, Dorn e Hanson em 2013 explica apenas uma fração da contração do emprego industrial americano
O estudo publicado por David Autor, David Dorn e Gordon Hanson na American Economic Review se tornou referência obrigatória no debate. Os três economistas estimaram que a competição com importações chinesas eliminou entre 2 e 2,4 milhões de empregos americanos entre 1999 e 2011, uma cifra real e documentada.
Mas o número precisa de contexto. No mesmo período, a automação e a reorganização dos processos produtivos respondem por uma perda consideravelmente maior. Os 7 milhões de empregos industriais desaparecidos desde o pico de 1979 não cabem dentro dos 2 milhões atribuíveis à China. A diferença foi absorvida por máquinas, e essa diferença raramente aparece nos discursos sobre tarifas e protecionismo.
As tarifas impostas por Donald Trump a partir de 2018 e ampliadas em 2025 foram apresentadas como solução para um problema que elas não têm capacidade técnica de resolver
Taxar produto importado encarece o bem estrangeiro e, em teoria, torna a produção doméstica relativamente mais barata. A lógica tem algum fundamento em setores onde o diferencial competitivo é exclusivamente o custo da mão de obra. O problema é que, na indústria moderna, mão de obra deixou de ser o principal fator de custo em boa parte dos segmentos.
Quando uma fábrica automatizada produz aço com 80% menos trabalhadores do que nos anos 1970, reduzir o custo do trabalho via proteção tarifária não gera contratação em escala significativa. A planta simplesmente opera com os mesmos robôs, agora protegida da concorrência, mas sem criar os empregos que a retórica política promete. Quem acaba pagando a tarifa é o consumidor final e as indústrias que usam o produto taxado como insumo.
Hoje, pouco mais de 12,7 milhões de americanos trabalham na manufatura, contra quase 20 milhões nos anos 1970, e trazer de volta essa diferença exigiria reverter décadas de ganho tecnológico, o que nenhum país no mundo está disposto a fazer
Conforme documentado pela CNBC, o número atual de trabalhadores industriais nos Estados Unidos representa uma queda de quase 40% em relação ao pico histórico. Mas as empresas que cogitam trazer produção de volta ao país enfrentam uma lista de obstáculos que vai muito além da política tarifária.
Entre as barreiras mais citadas pelos executivos ouvidos pela CNBC estão o custo da mão de obra qualificada, a escassez de técnicos com formação específica para operar equipamentos modernos, o custo da terra industrial em regiões estratégicas e a ausência de fornecedores locais para componentes intermediários. Uma fábrica de semicondutores, por exemplo, depende de uma cadeia de fornecimento com centenas de insumos que simplesmente não são produzidos em solo americano.
A Intel anunciou investimentos de 20 bilhões de dólares em novas fábricas no Arizona e em Ohio, com suporte da Lei CHIPS aprovada em 2022. Mesmo com esse volume de capital e subsídio federal direto, os cronogramas foram revisados para baixo repetidas vezes, em parte pela dificuldade de encontrar mão de obra especializada suficiente na região.
O Brasil enfrenta uma versão própria desse dilema, com automação avançando nas plantas industriais do Sul e do Sudeste enquanto o debate político continua centrado em carga tributária e câmbio como se fossem as únicas variáveis relevantes
Na indústria brasileira, a automação ainda avança em ritmo menor do que nos Estados Unidos, Europa ou Japão, mas o movimento é consistente. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, o percentual de empresas industriais brasileiras que adotaram ao menos uma tecnologia da chamada Indústria 4.0 passou de 28% em 2019 para 43% em 2023.
O setor automotivo no ABC paulista, que empregava mais de 150 mil trabalhadores nos anos 1990, opera hoje com um terço desse número apesar de produzir volumes semelhantes de veículos. A discussão pública brasileira, no entanto, costuma atribuir essa contração a acordos comerciais, câmbio sobrevalorizado ou desindustrialização por razões fiscais, raramente à substituição tecnológica que está na raiz do fenômeno.
Requalificar trabalhadores para operar e manter equipamentos automatizados custa tempo e dinheiro que poucos governos calculam com precisão antes de fazer promessas eleitorais sobre a volta dos empregos industriais
Programas de requalificação profissional existem em países como Alemanha, Coreia do Sul e Japão com resultados mensuráveis. O modelo dual alemão de formação técnica, que combina escola e estágio remunerado em empresa, leva de 2 a 3 anos para transformar um trabalhador sem qualificação específica em operador de CNC ou técnico de manutenção industrial.
Nos Estados Unidos, a ausência de um sistema equivalente deixa uma lacuna que nem o investimento privado nem o subsídio federal têm conseguido preencher na velocidade que a retomada industrial exigiria. Segundo o Departamento do Trabalho americano, há atualmente mais de 600 mil vagas abertas na indústria manufatureira que permanecem sem candidatos qualificados, enquanto o desemprego entre trabalhadores sem ensino técnico completo supera 7%.
O dado resume o problema com precisão cirúrgica: as vagas existem, os candidatos existem, mas as habilidades não coincidem. Nenhuma tarifa resolve essa equação.
Se as tarifas não criam empregos industriais e a automação continua avançando, qual política pública você acredita que poderia de fato reconectar trabalhadores desqualificados ao mercado industrial moderno? Deixe sua opinião nos comentários.

