A automação eliminou 7 milhões de empregos industriais nos Estados Unidos desde 1980 enquanto políticos culpavam a China por uma crise que nasceu dentro das próprias fábricas americanas

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Os Estados Unidos perderam cerca de 7,5 milhões de vagas industriais em quarenta anos, e a narrativa mais repetida sobre esse colapso é factualmente incorreta

Entre 1980 e 2020, o número de trabalhadores na indústria manufatureira americana caiu de aproximadamente 19 milhões para pouco mais de 12 milhões. Esse recuo de quase 40% foi narrado por décadas como consequência direta da concorrência chinesa, de acordos comerciais mal negociados e da transferência deliberada de empregos para países com mão de obra barata. O problema com essa narrativa é que os dados não a sustentam.

Conforme documentado pelo Council on Foreign Relations em análise apresentada com o ex-senador republicano Patrick J. Toomey, a produção industrial americana nunca parou de crescer: as fábricas dos Estados Unidos produzem hoje mais do que em qualquer outro momento da história. O que desapareceu não foi a produção. Foram os trabalhadores necessários para executá-la.

A produtividade industrial americana cresceu mais de 90% desde 1987 e explica por que mais produto não se traduziu em mais empregos

Entre 1987 e 2015, a produtividade por trabalhador na indústria americana cresceu mais de 90%, segundo dados do Bureau of Labor Statistics dos Estados Unidos. Isso significa que a mesma quantidade de produto passou a exigir menos da metade da força de trabalho anterior. Robôs de soldagem, sistemas CNC, linhas de montagem automatizadas e softwares de controle de qualidade eliminaram funções repetitivas que antes ocupavam centenas de operadores por turno.

Um estudo da Ball State University estima que, entre 2000 e 2010, 88% das vagas industriais perdidas nos EUA foram eliminadas pela automação, não pelo comércio exterior. O período em que a China mais avançou no mercado americano coincidiu com o período em que a automação mais acelerou dentro das próprias plantas dos Estados Unidos. Atribuir a causa ao comércio exterior foi politicamente conveniente. Tecnicamente, não se sustenta.

As tarifas de Trump sobre produtos chineses não reverteram a tendência porque o problema estrutural não é de preço de importação, mas de custo de operação humana

Quando o governo Trump impôs tarifas de até 25% sobre importações chinesas a partir de 2018, a expectativa política era de que fábricas voltariam a contratar em massa. Não foi o que aconteceu. Segundo dados do Federal Reserve Bank of New York, as tarifas elevaram os custos para empresas americanas que usam insumos importados, mas não criaram incentivo suficiente para substituir automação por trabalho humano em escala.

O custo operacional de um trabalhador industrial americano, incluindo encargos, benefícios e normas de segurança, está entre os mais altos do mundo. Um robô industrial de solda custa entre 25 mil e 45 mil dólares e opera 24 horas por dia sem intervalo, sem encargo trabalhista e com depreciação contábil de dez anos. Para uma linha de produção de médio volume, o cálculo financeiro favorece a máquina independentemente do preço do produto importado.

A tentativa de trazer de volta a manufatura para o solo americano esbarra em um problema que nenhuma tarifa resolve: falta mão de obra qualificada para operar as novas fábricas

Há um paradoxo central no debate sobre a reindustrialização americana. Ao mesmo tempo em que políticos prometem trazer empregos de volta, empresas que tentaram montar plantas nos Estados Unidos enfrentaram dificuldade para preencher as vagas disponíveis. A Apple, por exemplo, tentou fabricar o Mac Pro no Texas em 2019 e precisou importar parafusos específicos do exterior porque nenhum fornecedor local produzia o componente no padrão exigido, conforme relatado pelo The New York Times.

Décadas de desinvestimento em formação técnica e no ensino médio profissionalizante criaram um déficit estrutural de trabalhadores com habilidades em usinagem, programação CNC, soldagem certificada e manutenção de sistemas automatizados. Segundo a Deloitte e o Manufacturing Institute, 2,1 milhões de vagas industriais devem ficar sem preenchimento nos EUA até 2030 por falta de profissionais qualificados.

No Brasil, a desindustrialização seguiu trajetória diferente, mas o déficit de qualificação técnica é igualmente o gargalo central para a competitividade industrial

O Brasil viveu seu próprio processo de contração industrial, mas por razões distintas. A participação da indústria de transformação no PIB brasileiro caiu de cerca de 22% em 1990 para aproximadamente 11% em 2022, segundo dados do IBGE. Aqui, o fenômeno não foi puxado por automação agressiva, mas por combinação de câmbio desfavorável, custo tributário elevado e baixa adoção de tecnologia nas plantas produtivas.

O Senai atende anualmente mais de 2,4 milhões de trabalhadores em cursos técnicos, mas a demanda das indústrias por operadores de sistemas automatizados, técnicos em mecatrônica e programadores de CLP cresce mais rápido do que a oferta de formados. O gargalo brasileiro não é de escala produtiva. É de capacidade técnica para operar e manter equipamentos de geração atual.

A distinção entre perda de emprego por automação e por comércio exterior define que tipo de política pública pode ou não resolver o problema industrial

Se a causa do desemprego industrial fosse o comércio exterior, tarifas e acordos bilaterais resolveriam o problema. Se a causa é estrutural e tecnológica, a resposta exige investimento em formação, transição de carreira e redesenho das cadeias produtivas. Confundir as duas causas, como o debate político americano fez por décadas, resulta em políticas que geram custo sem gerar emprego.

O ex-senador Toomey, em sua análise apresentada ao Council on Foreign Relations, argumentou que proteger setores ineficientes com barreiras tarifárias destrói mais empregos nos setores consumidores do que preserva nos setores protegidos. Uma tarifa sobre aço, por exemplo, aumenta o custo de produção de automóveis, eletrodomésticos e máquinas agrícolas, setores que empregam mais trabalhadores do que as siderúrgicas protegidas.

A indústria americana ainda é a segunda maior do mundo, com produção anual superior a 2,3 trilhões de dólares, mas opera com um terço menos de trabalhadores do que na década de 1970

Em 2023, segundo dados do Banco Mundial, os Estados Unidos responderam por aproximadamente 15% da produção industrial global, posição que os coloca como segunda maior potência manufatureira do planeta, atrás apenas da China. Essa produção é gerada por 12,7 milhões de trabalhadores, número que o setor não conseguiu superar nos últimos quinze anos apesar de múltiplos programas de incentivo federal.

O quadro revela que o debate sobre empregos industriais não é sobre recuperar o passado. É sobre decidir que tipo de trabalhador, com que tipo de formação, operará as plantas do futuro. Ignorar esse ponto e continuar tratando tarifas como solução para um problema de produtividade e automação é repetir, com novas embalagens, o mesmo erro de diagnóstico que dominou o debate por quarenta anos.

A automação vai continuar avançando, os robôs vão continuar ficando mais baratos e as fábricas vão continuar produzindo mais com menos gente: diante desse cenário, você acredita que governos devem focar seus recursos em proteger os empregos que existem ou em formar trabalhadores para os empregos que estão surgindo? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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