As áreas proibidas de Itaipu revelam uma engenharia que poucos brasileiros imaginam existir dentro da maior usina das Américas

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Itaipu gera 14% de toda a eletricidade consumida no Brasil a partir de uma estrutura subterrânea que a maioria dos visitantes nunca chegou a ver

A Usina Hidrelétrica de Itaipu é conhecida por todo brasileiro, mas quase ninguém sabe o que existe além das turbinas visíveis nos tours convencionais. Corredores subterrâneos, salas de controle blindadas, galerias escavadas na rocha e sistemas de monitoramento que registram cada milímetro de movimentação da barragem operam em silêncio, longe do circuito turístico oficial.

Com 14 gigawatts de capacidade instalada, Itaipu foi durante mais de duas décadas a maior hidrelétrica do mundo. Hoje ocupa o terceiro lugar no ranking global, atrás apenas da chinesa Três Gargantas e do projeto Baihetan, também na China. Mas em capacidade de geração anual, Itaipu ainda ostenta recordes: em 2016, produziu 103,1 terawatt-hora, o maior volume já registrado por qualquer usina no planeta naquele ano, segundo dados da própria Itaipu Binacional.

A barragem de Itaipu tem 196 metros de altura e foi construída com mais concreto do que qualquer outra estrutura erguida pela humanidade até aquele momento

A obra começou em 1975 e exigiu o desvio completo do Rio Paraná, tarefa que sozinha levou oito anos. Para isso, foi escavado um canal de 2 quilômetros de extensão. O volume de concreto usado na barragem equivale a 15 vezes o da Itaipu principal somada a todas as estruturas auxiliares, segundo a Itaipu Binacional: são 12,3 milhões de metros cúbicos de concreto no total.

Dentro da estrutura, existe um labirinto de galerias com mais de 700 quilômetros de extensão, número que surpreende até engenheiros familiarizados com grandes obras de infraestrutura. Essas galerias servem para inspeção, drenagem e instalação de sensores. São elas que permitem à equipe técnica monitorar trincas, deslocamentos e pressão d’água na fundação da barragem em tempo real, 24 horas por dia.

A sala de controle principal fica em um edifício separado, conectado às turbinas por túneis internos. De lá, operadores gerenciam as 20 unidades geradoras, sendo 10 operadas pelo Brasil e 10 pelo Paraguai, conforme o tratado bilateral que governa a usina desde sua fundação em 1973.

Cada uma das 20 turbinas de Itaipu pesa 3.387 toneladas e gira a 90,9 rotações por minuto para transformar a queda d’água em eletricidade

As turbinas do tipo Francis foram projetadas especificamente para a vazão e a queda líquida disponível no Rio Paraná naquele ponto. A queda bruta é de 118,4 metros. Cada unidade geradora tem capacidade individual de 700 megawatts, potência suficiente para abastecer uma cidade de aproximadamente 2 milhões de habitantes.

O que poucos visitantes percebem ao ver as turbinas de cima, através dos vidros das passarelas, é que a parte visível corresponde a menos de 20% da estrutura total de cada unidade. O gerador fica acima, mas o rotor da turbina, o eixo e os sistemas de vedação ficam submersos ou enterrados na casa de força, abaixo da cota de visita. As galerias de manutenção que dão acesso a essas partes inferiores são exatamente as “áreas secretas” que normalmente ficam fora do itinerário público.

O sistema de monitoramento estrutural de Itaipu usa mais de 3.000 instrumentos instalados dentro do concreto e na rocha de fundação para detectar qualquer anomalia antes que ela se torne um problema real

Entre os instrumentos usados estão extensômetros, piezômetros, termômetros embutidos no concreto, medidores de junta e acelerômetros. Os dados são transmitidos continuamente para o Centro de Operações e também para equipes de engenharia que analisam tendências ao longo do tempo.

Segundo a Itaipu Binacional, a barragem já absorveu mais de 30 cheias históricas sem qualquer comprometimento estrutural registrado. A maior delas ocorreu em 1983, antes mesmo da conclusão da usina, quando o Rio Paraná atingiu uma vazão de 35.100 metros cúbicos por segundo. O vertedouro, capaz de descarregar até 62.200 metros cúbicos por segundo, foi projetado exatamente para absorver eventos dessa magnitude com margem de segurança.

A China começou em 2024 a construção da hidrelétrica de Motuo no Tibet, que vai superar Itaipu e Três Gargantas com capacidade projetada de 60 gigawatts

O projeto da usina de Motuo, anunciado pelo governo chinês e confirmado pela agência estatal Xinhua, prevê aproveitamento do Rio Yarlung Tsangpo, que desce do planalto tibetano em uma queda natural de mais de 2.000 metros antes de entrar na Índia. A diferença de altitude disponível é a maior explorada por qualquer projeto hidrelétrico em construção no mundo.

Com 60 gigawatts de capacidade instalada projetada, Motuo vai gerar mais do que o dobro de Itaipu. O investimento estimado pelo governo chinês é de 137 bilhões de dólares, segundo a Gazeta do Mundo. As obras devem durar pelo menos 15 anos, com a primeira unidade geradora prevista para entrar em operação antes de 2035.

O projeto levanta debate internacional sobre impacto ambiental e geopolítico, já que o Rio Yarlung Tsangpo é o mesmo que alimenta o Brahmaputra, rio vital para o Bangladesh e para a Índia. A questão do controle do fluxo hídrico por parte da China é monitorada de perto pelos dois países vizinhos, conforme reportagem da agência Reuters publicada em janeiro de 2024.

Itaipu abastece 76% do consumo do Paraguai e ainda transfere energia excedente ao Brasil, o que torna a usina um ativo estratégico binacional sem equivalente nas Américas

O Paraguai consome apenas uma fração da cota que lhe cabe pelo tratado de 1973. O restante é vendido ao Brasil por meio de um contrato de cessão que a Eletrobras administra. Em anos de hidrologia favorável, como 2023, Itaipu respondeu por 8,7% de toda a geração elétrica brasileira, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Essa dependência coloca a usina em posição central nas negociações sobre o Anexo C do Tratado de Itaipu, dispositivo que define o preço da energia cedida pelo Paraguai ao Brasil. As negociações mais recentes, realizadas entre 2023 e 2024, envolveram diretamente os presidentes dos dois países e mobilizaram parlamentares, economistas e ambientalistas dos dois lados da fronteira.

A visita às galerias internas e às salas operacionais restritas de Itaipu mostra que a engenharia da usina foi projetada para durar pelo menos 200 anos com manutenção adequada

O concreto usado em Itaipu foi formulado com adições específicas para reduzir a reação álcali-agregado, fenômeno que corrói estruturas de concreto comuns em décadas. As juntas de dilatação entre os blocos da barragem são vedadas com materiais substituíveis sem necessidade de intervenção estrutural. Cada bloco pode dilatar e contrair de forma independente conforme a variação de temperatura, que chega a 40 graus Celsius entre o interior do concreto no verão e no inverno.

As turbinas passam por revisão geral a cada 12 anos. Durante cada revisão, o rotor inteiro é desmontado, inspecionado por ultrassom, reparado se necessário e remontado. O processo leva em média seis meses por unidade. Com 20 turbinas operando em revezamento contínuo, sempre há ao menos uma em manutenção preventiva, o que garante disponibilidade superior a 93% da capacidade total instalada ao longo do ano, conforme relatório anual da Itaipu Binacional de 2023.

Você acredita que o Brasil deveria investir em novas grandes hidrelétricas ou apostar em outras fontes renováveis para ampliar a matriz elétrica nas próximas décadas? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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