Mineiros paquistaneses operam em túneis com menos de 1 metro de altura durante turnos de até 14 horas seguidas sem equipamentos de segurança modernos
Há galerias de carvão no Paquistão onde o teto fica a menos de 80 centímetros do chão. O mineiro entra de joelhos, arrasta o corpo pela rocha, e passa o turno inteiro nessa posição. São 14 horas dentro do subsolo, sem luz natural, sem sistema de ventilação forçada, com um capacete simples e uma lanterna presa à testa. Quando sai, o rosto está negro de poeira e os pulmões carregam partículas que nenhum exame vai detectar por anos.
Esses trabalhadores estão nas minas da região de Baluchistão e Khyber Pakhtunkhwa, que respondem por cerca de 80% da produção de carvão do Paquistão, segundo dados do Ministério de Energia do país. O Paquistão extrai aproximadamente 6 milhões de toneladas de carvão por ano, quase tudo por métodos manuais. Não há automatização. Há braços, picaretas e carrinhos puxados por cabos de aço.
A ausência de mecanização nas minas paquistanesas não é atraso tecnológico, mas resultado direto da geometria irregular dos veios de carvão que inviabiliza máquinas convencionais
A pergunta óbvia é: por que não usam máquinas? A resposta está na geologia. Os veios de carvão da região são finos, irregulares e sinuosos. Uma mineradeira contínua, como as usadas em minas australianas e americanas, precisa de galerias com pelo menos 2,5 metros de altura e trajetórias relativamente lineares. No Paquistão, os veios têm entre 0,6 e 1,2 metro de espessura na maioria dos depósitos, conforme levantamento da Pakistan Mineral Development Corporation.
Isso significa que qualquer equipamento pesado se torna inútil. A lavra manual não é uma escolha. É uma imposição da geologia. O mineiro é, literalmente, o único “equipamento” que cabe naquele espaço.
Mesmo assim, a produtividade é mensurável. Um mineiro experiente consegue extrair entre 3 e 5 toneladas de carvão por turno, usando apenas ferramentas manuais. Multiplicado pelos milhares de trabalhadores ativos nas minas informais do país, o volume total é expressivo o suficiente para manter usinas termelétricas funcionando.
A pneumoconiose, conhecida como “doença do pulmão negro”, atinge até 30% dos mineiros de carvão com mais de 10 anos de atividade em minas sem ventilação adequada
O custo humano tem um nome técnico: pneumoconiose do mineiro de carvão, ou CWP (Coal Workers’ Pneumoconiosis). A doença resulta do acúmulo de partículas finas de carvão nos pulmões ao longo de anos de exposição. Não tem cura. A progressão pode ser lenta, mas a insuficiência respiratória que ela provoca é irreversível.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), trabalhadores expostos a poeira de carvão sem equipamentos de proteção adequados por mais de uma década apresentam taxa de incidência de CWP que varia entre 15% e 30%, dependendo do tipo de carvão e das condições do ambiente. Nas minas informais paquistanesas, onde máscaras respiratórias de alto desempenho são raras, os números tendem ao limite superior dessa faixa.
O problema se repete em outros países com mineração manual intensiva, incluindo regiões do nordeste da Índia e áreas de extração informal na Colômbia. A doença avança silenciosa por anos antes de qualquer sintoma perceptível, o que torna o diagnóstico tardio a regra, não a exceção.
A remuneração média de um mineiro de carvão no Paquistão fica entre 800 e 1.200 rúpias por dia, o equivalente a R$ 14 e R$ 22 na cotação atual
O valor do trabalho não corresponde ao risco. Um mineiro que passa 14 horas no subsolo recebe, em média, entre 800 e 1.200 rúpias paquistanesas por dia, segundo reportagens do Dawn Media Group, o principal veículo jornalístico do país. Na cotação de junho de 2025, isso equivale a aproximadamente R$ 14 a R$ 22 por jornada.
Muitos desses trabalhadores são contratados por empreiteiros locais sem registro formal, o que os exclui de qualquer benefício previdenciário. Se houver acidente, a indenização depende de negociação direta com o dono da mina. Se houver doença ocupacional, o custo médico recai sobre a família.
A cadeia de valor do carvão extraído nessas condições termina em usinas termelétricas que abastecem cidades. O preço da eletricidade não reflete o custo real da extração quando esse custo é medido em saúde humana.
Enquanto mineiros trabalham sem proteção no Paquistão, o Brasil inaugura a maior fábrica de celulose do mundo, mostrando o abismo tecnológico dentro do próprio setor de commodities
O contraste é brutal. No mesmo período em que mineiros paquistaneses operam de joelhos em galerias escuras, o Brasil inaugurou a Fábrica Cerrado da Suzano, em Ribas do Rio Pardo, Mato Grosso do Sul, a maior unidade de celulose do mundo em capacidade instalada. A planta tem capacidade de produzir 2,55 milhões de toneladas de celulose por ano, segundo dados da própria Suzano divulgados em 2024.
A automação da unidade é extensa. Sensores distribuídos pela planta monitoram variáveis de processo em tempo real. Sistemas de controle distribuído (DCS) ajustam parâmetros de cozimento, branqueamento e secagem sem intervenção humana direta. O número de operadores por tonelada produzida é uma fração do que seria necessário em uma planta convencional dos anos 1990.
As duas realidades, a mina manual paquistanesa e a fábrica automatizada brasileira, coexistem no mesmo setor amplo de commodities industriais. A diferença não é de décadas. É de escolhas econômicas, infraestrutura de capital e acesso a tecnologia.
A automação progressiva nas indústrias de base reduz acidentes e doenças ocupacionais, mas exige investimento inicial que países com mineração informal raramente conseguem mobilizar
O dado que resume o problema está na comparação de taxas de acidente. Segundo a OIT, minas altamente mecanizadas em países como Austrália e Canadá registram menos de 0,02 mortes por milhão de toneladas extraídas. Em minas manuais de países de baixa renda, essa taxa pode ser 50 vezes maior.
A barreira não é conhecimento técnico. As tecnologias de ventilação forçada, exaustão de poeira e monitoramento de gases existem há décadas e não são proibitivamente caras quando comparadas ao custo de uma vida humana ou de um processo judicial trabalhista em economias com sistemas legais funcionais.
O que falta, em geral, é o mecanismo de pressão. Onde não há fiscalização efetiva, não há incentivo para investir em segurança. Onde não há registro formal dos trabalhadores, não há dado oficial de acidente. E onde não há dado oficial, o problema permanece invisível para políticas públicas. A mina continua operando. O mineiro continua entrando. O turno continua durando 14 horas.
A tecnologia existe para transformar esse cenário. A Suzano gastou cerca de R$ 22,2 bilhões na construção da Fábrica Cerrado, conforme dados da empresa. Nenhuma mina artesanal paquistanesa terá acesso a esse nível de capitalização. Mas sistemas básicos de ventilação, monitoramento de gás metano e fornecimento de EPIs adequados custariam uma fração disso e salvariam vidas agora.
O trabalho mais perigoso do mundo industrial ainda é feito com as mãos, no escuro, sem proteção. Você acredita que a automação industrial pode e deve chegar às minas manuais de países em desenvolvimento antes que mais gerações de trabalhadores percam a saúde nessas condições? Deixe sua opinião nos comentários.

