Mineiros paquistaneses trabalham 14 horas por dia em galerias sem ventilação adequada e ganham menos de R$ 80 por turno extraindo carvão que aquece casas de meio continente

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Nas minas de carvão do Paquistão, trabalhadores descem até 300 metros de profundidade em condições que a maioria das regulamentações internacionais de segurança classificaria como ilegais

O carvão responde por cerca de 37% da geração de eletricidade mundial, segundo dados da Agência Internacional de Energia (AIE), mas a cadeia que sustenta esse número começa em lugares onde a tecnologia praticamente não chegou. Nas províncias de Baluchistão e Khyber Pakhtunkhwa, no Paquistão, homens descem todos os dias por poços estreitos, sem cinto de segurança, sem sistema de ventilação forçada, sem detector de gás automático. Descem para não voltar sem o carvão que garante o salário do dia.

Os mineiros paquistaneses figuram entre os trabalhadores industriais mais expostos a risco de morte no mundo. Segundo o Ministério do Trabalho do Paquistão, o setor registrou mais de 200 mortes confirmadas em acidentes de mina apenas em 2023, número que pesquisadores da Universidade de Peshawar estimam estar subnotificado em até 40%. Cada turno dura entre 12 e 14 horas. A remuneração média não chega a 1.500 rúpias paquistanesas por dia, o equivalente a menos de R$ 30 na cotação atual.

A estrutura das galerias é escavada manualmente com picaretas e o único escoramento que impede o desabamento são vigas de madeira posicionadas sem cálculo de engenharia

Ao contrário das minas mecanizadas da Austrália ou dos Estados Unidos, onde cortadeiras de tambor e sistemas de ventilação controlada são padrão obrigatório, as minas de carvão artesanais do Paquistão funcionam por uma lógica inteiramente diferente. As galerias têm largura média de 80 a 100 centímetros. O mineiro rasteja até o ponto de extração, golpeia a rocha com picareta e pá, e arrasta o carvão em sacos de tecido ou carrinhos primitivos de metal.

O escoramento é feito com madeira cortada localmente. Não há projeto estrutural. A decisão sobre quantas vigas usar e em que espaçamento depende da experiência empírica do mineiro mais velho da equipe. Quando a pressão da rocha supera a resistência da madeira, o desabamento acontece em segundos. A maioria das vítimas não é resgatada a tempo porque as equipes de emergência, quando existem, não têm maquinário capaz de remover toneladas de rocha com rapidez suficiente.

O gás metano acumulado nas galerias é o segundo maior agente de morte e os mineiros usam uma chama aberta para detectar a presença do gás antes de avançar

Nas camadas de carvão betuminoso típicas de Baluchistão, o metano é liberado naturalmente durante a escavação. Em concentrações acima de 5% no ar, o gás entra em zona de explosividade. O método de detecção usado por parte dos mineiros paquistaneses consiste em aproximar uma chama do teto da galeria. Se a chama aumentar de tamanho ou mudar de cor, há metano. Se explodir, houve metano demais. O risco embutido nesse procedimento não precisa de explicação técnica adicional.

Detectores eletrônicos de gás custam entre US$ 50 e US$ 300 na versão mais básica, conforme catálogos da fabricante MSA Safety. Não é falta de disponibilidade no mercado. É uma combinação de ausência de fiscalização efetiva, estrutura informal de contratação e margens de lucro que os donos das concessões não estão dispostos a comprimir. O resultado aparece nas estatísticas: explosões de metano corresponderam a 58% das mortes registradas em minas paquistanesas entre 2019 e 2023, conforme levantamento da organização Human Rights Watch publicado em 2024.

Cada mineiro carrega entre 40 e 60 quilos de carvão nas costas em cada viagem até a superfície, repetindo esse percurso dezenas de vezes ao longo do turno de 14 horas

O transporte do carvão até a superfície é feito, em boa parte das minas menores, no corpo do próprio trabalhador. Sacos de aniagem cheios de carvão são amarrados às costas com cordas. O trajeto de subida por poços inclinados pode chegar a 200 metros de extensão. Feita a matemática: um mineiro que repete esse percurso 20 vezes por turno movimenta até 1,2 tonelada de carvão com o próprio corpo, sem auxílio mecânico, durante uma jornada que começou antes do amanhecer.

As lesões musculoesqueléticas são crônicas e praticamente universais entre os trabalhadores com mais de cinco anos na atividade. Pesquisa publicada pelo Pakistan Journal of Medical Sciences em 2022 indicou que 87% dos mineiros entrevistados relatavam dor lombar persistente e 63% apresentavam algum grau de comprometimento pulmonar atribuível à inalação de poeira de carvão, condição conhecida como pneumoconiose ou “pulmão negro”.

No Brasil, a extração de carvão mineral concentrada em Santa Catarina emprega tecnologia mais avançada, mas a Bacia Carbonífera do Sul ainda registra passivos ambientais e de saúde que remontam a décadas de operação sem controle adequado

O Brasil produz carvão em escala muito menor que o Paquistão, mas o histórico do setor no país guarda paralelos preocupantes. A Bacia Carbonífera do Sul, que compreende municípios como Criciúma, Siderópolis e Lauro Müller em Santa Catarina, foi palco de décadas de extração com baixíssimo controle ambiental e condições de trabalho precárias até a aceleração da fiscalização nos anos 1990. Segundo a Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina (FATMA), a área degradada acumulada chega a mais de 5.000 hectares de solo e cursos d’água contaminados por drenagem ácida de mina.

A mecanização avançou consideravelmente nas operações brasileiras. Empresas como a Carbonífera Criciúma e a Carbonífera Belluno operam com equipamentos de corte contínuo e sistemas de ventilação forçada que atendem às normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho, em especial a NR-22, que trata especificamente da mineração. Mesmo assim, a Previdência Social registrou 14 mortes em acidentes de mina no Brasil entre 2020 e 2023, segundo dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho.

A demanda global por carvão não dá sinais concretos de queda no curto prazo e isso significa que as condições de trabalho nas minas artesanais paquistanesas devem persistir enquanto houver mercado para o produto a preço baixo

O consumo global de carvão atingiu 8,3 bilhões de toneladas em 2023, o maior nível da história, conforme relatório da AIE divulgado em janeiro de 2024. A transição energética avança em velocidades diferentes em diferentes partes do mundo. Enquanto a Europa fecha usinas termelétricas a carvão, países como Paquistão, Bangladesh e Vietnã ampliam a capacidade instalada. O carvão extraído por trabalhadores que não têm nem capacete alimenta uma cadeia que termina em consumidores que jamais verão o interior de uma galeria.

A lógica econômica é cruamente direta: quanto mais barata a extração, maior a margem para os intermediários. E a extração é mais barata quando os custos com segurança, ventilação, equipamentos e remuneração justa são simplesmente ignorados. Organizações como a Coal Mine Safety Alliance e a própria Organização Internacional do Trabalho (OIT) documentam essa cadeia há décadas sem que mudanças estruturais tenham se materializado na velocidade necessária.

Os filhos dos mineiros paquistaneses entram nas minas ainda adolescentes e o ciclo se repete porque não existe rede de proteção social capaz de oferecer alternativa concreta a essas famílias

A Human Rights Watch identificou, em inspeções realizadas entre 2022 e 2024 em minas de Baluchistão, crianças trabalhando em funções auxiliares a partir dos 13 anos. O argumento das famílias é invariavelmente o mesmo: a renda da mina é a única disponível. O Paquistão tem uma taxa de desemprego formal de 8,5%, conforme o Banco Mundial, mas a subocupação e o trabalho informal nas regiões rurais tornam esses números pouco representativos da realidade vivida pelas comunidades mineradoras.

A cadeia começa na falta de alternativa e se fecha com o desgaste físico precoce. Um mineiro que começa a trabalhar aos 15 anos costuma apresentar comprometimento pulmonar clínico antes dos 35. Aos 45, muitos não conseguem mais descer. O ciclo então se repete com o filho ou sobrinho que assume o lugar. Não é destino. É ausência de política pública com escala suficiente para romper a dependência.

Você acredita que o consumo global de carvão deveria exigir rastreabilidade das condições de trabalho nas minas de origem, como já existe para outros produtos de alto risco social? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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