Mais de 200 fábricas encerraram operações na Argentina em 2026, eliminando milhares de postos de trabalho formais num processo que avança mesmo com a queda da inflação e o crescimento do PIB argentino. Entre as empresas que reduziram ou suspenderam atividades no país estão marcas operadas pelo grupo Whirlpool, como Brastemp e Consul, e a Nike. O fenômeno expõe uma contradição entre os indicadores macroeconômicos do governo Milei e a realidade do chão de fábrica, e acende um alerta para sindicatos metalúrgicos brasileiros que acompanham de perto qualquer movimentação dessas multinacionais na região.
Desindustrialização mesmo com PIB em alta
A Argentina registrou crescimento do PIB e desaceleração da inflação nos últimos meses, números usados pelo governo como prova da eficácia do ajuste fiscal radical adotado desde 2023. O problema é que esses indicadores coexistem com a retração do consumo interno, câmbio desfavorável para a produção local e um ambiente de desregulamentação que reduziu barreiras à importação. O resultado prático é a saída ou encolhimento de multinacionais que antes tinham na Argentina uma base produtiva relevante para o Cone Sul. Mais de 200 unidades fabris fecharam. Milhares de trabalhadores perderam empregos formais.
A Whirlpool, dona de Brastemp e Consul, é uma das empresas envolvidas no movimento. A Nike, no segmento de vestuário e calçados esportivos, também figura entre as que reduziram operações em território argentino. Os cortes atingem principalmente regiões industriais do país e aceleram a informalização do mercado de trabalho local.
Por que isso importa para o Brasil
Brastemp e Consul têm presença industrial relevante no Brasil, onde empregam diretamente milhares de metalúrgicos. Entidades como a FEM-CUT e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC monitoram reestruturações produtivas regionais porque reorganizações de plantas em países vizinhos frequentemente precedem ou influenciam decisões sobre unidades brasileiras. Se uma multinacional consolida produção em um único polo, o fechamento de uma fábrica argentina pode, em tese, pressionar a capacidade instalada no Brasil, para o bem ou para o mal.
A preocupação ganhou mais peso porque, na mesma semana em que a crise argentina ganhou destaque, a CNI divulgou queda da confiança da indústria brasileira para o menor nível em cinco anos. A combinação de sinais negativos nos dois maiores países industriais da América do Sul cria uma pressão dupla sobre o emprego no setor manufatureiro da região.
O debate sobre ajuste fiscal e emprego industrial
O caso argentino alimenta uma discussão que não é nova, mas ganhou contornos mais nítidos: ajustes fiscais severos, sem políticas ativas de proteção ao emprego industrial, tendem a acelerar a desindustrialização mesmo quando estabilizam variáveis nominais como câmbio e inflação. A desregulamentação adotada por Milei reduziu proteções tarifárias e facilitou importações, tornando a produção local menos competitiva para multinacionais que operam com lógica de custo global.
No Brasil, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC acompanha o processo argentino desde o início do governo Milei. A entidade já havia emitido alertas em 2025 sobre os riscos de contágio regional para o emprego formal na indústria. Até julho de 2026, o setor metalúrgico brasileiro ainda não registrou demissões em massa diretamente atribuídas à crise do país vizinho, mas a confiança da indústria nacional atingiu o menor patamar em cinco anos, segundo a CNI.

