O Programa de Demissão Voluntária (PDV) da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) encerrou julho de 2026 com 673 desligamentos, superando em 206 trabalhadores a quantidade que a gestão havia projetado. A adesão ficou aproximadamente 44% acima da meta estabelecida, chamando a atenção do Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina (TCE-SC), que passou a acompanhar os desdobramentos do processo.
Adesão acima do esperado acende alerta no TCE-SC
O excedente de adesões levanta dúvidas sobre o planejamento interno do programa. Uma superação de 44% em relação à meta pode indicar que os incentivos oferecidos foram mais atrativos do que o calculado, ou que o ambiente de trabalho na empresa motivou uma saída em proporção não antecipada pela administração. O TCE-SC tem razões concretas para se preocupar: além dos passivos financeiros com indenizações, o desligamento em massa pode forçar contratações emergenciais no curto prazo para recompor o quadro, ampliando o gasto público estadual em vez de reduzi-lo.
A Epagri é vinculada à Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária e Aquicultura de Santa Catarina e atua como suporte técnico para cadeias produtivas centrais para a economia do estado. Suinocultura, avicultura, piscicultura, fumicultura e fruticultura dependem diretamente do trabalho de pesquisadores e extensionistas rurais da empresa. Santa Catarina é o maior exportador nacional de carne suína e responde por fatia expressiva das exportações de frango, setores que movimentam bilhões de reais anualmente.
Perda de capital técnico com décadas de experiência acumulada
Entre os 673 desligados, parte considerável acumula décadas de experiência em campo e laboratório, conhecimento que não se recupera rapidamente com novas contratações. A descontinuidade nos serviços de assistência técnica afeta diretamente pequenos e médios produtores rurais que dependem do apoio da Epagri para adotar novas tecnologias, manejar pragas e doenças e melhorar produtividade. Sem esse suporte, a competitividade das exportações catarinenses pode sofrer consequências práticas nos próximos ciclos agrícolas.
O episódio segue uma tendência documentada em empresas públicas brasileiras que adotam PDVs como instrumento de corte de pessoal sem planejamento adequado de transferência do conhecimento institucional. O resultado frequente é a perda de especialistas seniores, que têm mais incentivo financeiro para aderir, enquanto a organização fica sem quadro técnico qualificado para manter a entrega de serviços essenciais. A Epagri foi criada em 1991 e hoje conta com unidades distribuídas em todo o território catarinense, atendendo municípios com alta dependência do setor primário.
O TCE-SC ainda não divulgou parecer formal sobre os impactos fiscais do PDV, mas o acompanhamento do processo já está em curso. O orçamento da Epagri para 2026 e a capacidade da empresa de manter a cobertura técnica ao produtor rural catarinense devem ser os pontos centrais da análise do tribunal.

