O Grupo Volkswagen AG registrou queda de 8,6% nas vendas globais no segundo trimestre de 2026, com colapso de 36% no mercado chinês, e agora enfrenta a possibilidade de fechar quatro fábricas e eliminar até 100 mil postos de trabalho em todo o mundo. O cenário pressiona diretamente as operações brasileiras da montadora, que mantém unidades em São Bernardo do Campo, no interior paulista, e em São José dos Pinhais, no Paraná, há décadas entre as maiores empregadoras do setor automotivo nacional.
O peso da crise para o Brasil
O setor automotivo brasileiro emprega diretamente mais de 130 mil trabalhadores e sua cadeia de fornecedores responde por parcela relevante do PIB industrial paulista. Qualquer movimento estratégico da matriz alemã, portanto, interessa de perto à Anfavea e ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A deterioração dos resultados globais da VW já havia motivado, em 2024 e 2025, anúncios de reestruturação severa na Europa, incluindo discussões sobre o fechamento de plantas na Alemanha pela primeira vez em quase 90 anos de história da companhia, com forte reação dos sindicatos alemães.
Para o Brasil, o risco é duplo. Uma redução nos volumes definidos pela matriz pode cortar encomendas para toda a cadeia de autopeças local, que depende em parte das metas produtivas estabelecidas em Wolfsburg. Ao mesmo tempo, eventual retração de investimentos nas unidades brasileiras representaria perda de capacidade industrial num momento em que o país tenta atrair e manter aportes estrangeiros no setor manufatureiro.
A raiz do problema: China e a virada elétrica
A perda de competitividade da Volkswagen na China não é conjuntural. Montadoras locais de veículos elétricos, como BYD, NIO e Geely, avançaram rapidamente sobre fatias de mercado que antes pertenciam às marcas europeias. A transição tecnológica acelerada deixou a VW e outras montadoras tradicionais em desvantagem de custo e velocidade de lançamento de produtos. O recuo de 36% no segundo maior mercado automotivo do mundo em um único trimestre traduz essa pressão em números concretos.
A Volkswagen não é um caso isolado, mas é a montadora europeia com maior exposição histórica à China, o que amplifica o efeito da virada elétrica sobre seus resultados consolidados. O grupo ainda não apresentou um plano definitivo sobre quais fábricas serão fechadas nem em quais países os cortes de pessoal serão mais concentrados.
O tema ganha uma camada adicional de complexidade para o Brasil diante das negociações em curso sobre o acordo comercial Mercosul–União Europeia. Se concluído, o acordo pode alterar as condições de importação de veículos e componentes europeus, afetando tanto a competitividade das fábricas locais quanto o fluxo de investimentos das matrizes europeias para cá. A Volkswagen do Brasil produziu 369 mil veículos em 2024, segundo dados da Anfavea.

