A Barragem das Três Gargantas concentra em uma única obra a maior capacidade geradora de energia hidrelétrica já construída pela humanidade, com 22.500 megawatts instalados
Nenhuma outra estrutura construída pelo ser humano redistribuiu tanto território, tanta água e tanta gente ao mesmo tempo. A Barragem das Três Gargantas, erguida sobre o Rio Yangtzé na China central, atingiu sua capacidade plena em 2012 depois de uma obra que durou quase 20 anos e consumiu o equivalente a 27,2 milhões de metros cúbicos de concreto, volume suficiente para preencher mais de dez vezes o Estádio do Maracanã.
O projeto entregou 22.500 megawatts de capacidade instalada, superando em quase 50% a Usina de Itaipu, que durante décadas ocupou o topo do ranking mundial. Para ter uma referência concreta: toda a demanda de energia elétrica do estado de São Paulo gira em torno de 20.000 megawatts nos horários de pico. Uma única barragem. Um único rio. Um resultado que redefiniu os limites da engenharia hidráulica.
A construção exigiu o deslocamento forçado de 1,3 milhão de pessoas em 13 cidades e 116 municípios inundados pelo reservatório ao longo de 600 quilômetros de extensão
O reservatório formado pela barragem se estende por 600 quilômetros ao longo do vale do Yangtzé, atingindo profundidades superiores a 175 metros na região do muro. Para criar esse lago artificial, o governo chinês precisou realocar populações inteiras. Segundo dados do próprio governo da China, 1,3 milhão de pessoas foram transferidas compulsoriamente entre 1993 e 2008, em um dos maiores processos de realocação humana associados a uma obra de engenharia da história.
Treze cidades foram completamente submersas, incluindo Fengdu e Wanxian, que existiam há mais de dois mil anos. Além das cidades, a água encobriu cerca de 1.600 sítios arqueológicos, alguns com artefatos que remontam à Dinastia Han. Organizações como a Unesco alertaram para a perda irreversível desse patrimônio histórico, mas o calendário de obras não permitiu escavações completas.
O processo de enchimento do reservatório foi deliberadamente lento e escalonado em três fases entre 2003 e 2010, justamente para monitorar o comportamento geológico das margens e reduzir o risco de deslizamentos em massa nas encostas do vale.
O muro da barragem tem 2.335 metros de comprimento e 185 metros de altura, e suporta uma pressão de água equivalente a 39 bilhões de toneladas quando o reservatório está cheio
A estrutura em si é um exercício de engenharia em escala quase incompreensível. O muro principal tem 2.335 metros de comprimento e 185 metros de altura, tornando-o a maior barragem de gravidade em concreto do mundo por volume. O peso da água retida quando o reservatório opera no nível máximo é estimado em 39 bilhões de toneladas, uma carga que, segundo pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências, gerou deformações mensuráveis na crosta terrestre na região e alterou microscopicamente a velocidade de rotação da Terra.
A casa de força é dividida em duas unidades principais, cada uma com 14 turbinas Francis de eixo vertical, mais seis turbinas adicionais instaladas em uma usina subterrânea concluída em 2011. Cada turbina gera individualmente 700 megawatts. Para girar esses rotores, o Yangtzé descarrega em média 14.000 metros cúbicos de água por segundo pelas turbinas durante a operação normal.
As eclusas de navegação da barragem operam em cinco estágios consecutivos e elevam embarcações de 10 mil toneladas por 113 metros de desnível em menos de quatro horas
Além da geração de energia, o projeto foi dimensionado para transformar o Yangtzé em uma rota comercial navegável até Chongqing, cidade industrial de mais de 30 milhões de habitantes localizada 660 quilômetros rio acima. O sistema de eclusas tem dois canais paralelos com cinco câmaras cada, e cada câmara mede 280 metros de comprimento por 35 metros de largura. O processo completo de transposição, da entrada na primeira câmara até a saída na última, leva entre três e quatro horas para embarcações carregadas.
De acordo com a Autoridade de Navegação do Rio Yangtzé, o tráfego fluvial na região triplicou nos primeiros dez anos após a inauguração das eclusas em 2003, com mais de 100 milhões de toneladas de carga transportadas anualmente pelo trecho controlado pela barragem. O custo de transporte por tonelada caiu cerca de 25% em relação à era pré-barragem.
O projeto brasileiro de Belo Monte, o maior empreendimento hidrelétrico nacional em operação, revela como a China inspirou e tensionou o debate sobre megabarragens no Brasil
O Brasil acompanhou a construção das Três Gargantas com atenção técnica e política. A Usina de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará, foi concebida com capacidade instalada de 11.233 megawatts, tornando-se a terceira maior do mundo. A referência explícita ao modelo chinês aparece nos documentos de planejamento do Ministério de Minas e Energia, que citaram as Três Gargantas como benchmark de gestão de impactos socioambientais em grandes projetos hidráulicos.
Mas a comparação tem limites evidentes. Enquanto a China executou o projeto com controle estatal absoluto e sem resistência jurídica organizada, Belo Monte enfrentou mais de 60 ações judiciais, paralisações por decisões do Tribunal Regional Federal e protestos internacionais. O resultado foi um cronograma que se estendeu por 15 anos entre licença e operação plena, com custo final estimado pela Norte Energia em R$ 32 bilhões, o dobro do orçamento original de 2011.
Os riscos sísmicos e geológicos associados ao peso do reservatório tornaram-se uma preocupação crescente para autoridades e pesquisadores chineses nos últimos 15 anos
O enchimento progressivo do reservatório gerou efeitos geológicos que os próprios projetistas não anteciparam em sua totalidade. Segundo dados do Serviço Geológico da China publicados em 2015, a região do vale do Yangtzé registrou um aumento de 30% na frequência de deslizamentos de terra após o início da operação da barragem, com mais de 5.000 pontos de instabilidade monitorados nas margens do reservatório.
A pressão exercida pela coluna d’água também foi associada a eventos de sismicidade induzida na região. Pesquisadores da Universidade de Geociências de Wuhan documentaram tremores de magnitude até 4,6 na escala Richter em áreas próximas à barragem entre 2003 e 2018, frequência superior à média histórica pré-enchimento. O governo chinês investiu 30 bilhões de yuans em programas de monitoramento e estabilização de encostas entre 2008 e 2020, conforme relatório do Ministério dos Recursos Hídricos da China.
Com vida útil projetada de 100 anos e capacidade de controlar cheias que antes devastavam cidades com 300 mil habitantes, a barragem define o padrão de megaengenharia do século 21
Antes da barragem, o Yangtzé inundava periodicamente regiões densamente habitadas. A cheia de 1998, a maior registrada no século 20, matou mais de 4.000 pessoas e causou danos avaliados em 20 bilhões de dólares, segundo o Banco Mundial. A barragem foi projetada para controlar eventos com período de retorno de até 10.000 anos, absorvendo volumes de cheia que seriam catastróficos para as planícies a jusante.
A vida útil estimada é de 100 anos para a estrutura principal, embora o acúmulo de sedimentos no reservatório seja a principal ameaça de longo prazo à sua eficiência. Conforme dados do Instituto de Pesquisa Hidráulica de Nanjing, a barragem retém entre 150 e 200 milhões de toneladas de sedimentos por ano, volume que progressivamente reduz a capacidade de armazenamento do reservatório e altera o regime hídrico e o transporte de nutrientes para o delta do rio, a 1.800 quilômetros de distância.
A soma de tudo isso produziu um número que sintetiza a obra: desde a entrada em operação plena, as Três Gargantas geraram mais de 1,3 trilhão de quilowatts-hora de energia elétrica, o equivalente a queimar 450 milhões de toneladas de carvão, segundo o operador China Three Gorges Corporation.
Uma estrutura que realocou 1,3 milhão de pessoas, submerge 13 cidades e gera energia para mais de 80 milhões de lares pode ser chamada de progresso ou de custo inaceitável do desenvolvimento? Deixe sua opinião nos comentários.

