O pneu que levaria 500 anos para se decompor no aterro é transformado em aço e borracha reutilizável em menos de 4 minutos por fábricas coreanas que processam 50 mil toneladas por mês

Data:

O Brasil descarta mais de 450 mil toneladas de pneus por ano e apenas uma fração desse volume é reciclada com tecnologia industrial de alta eficiência

Um pneu comum jogado em um aterro sanitário leva entre 500 e 800 anos para se decompor. Não é exagero: a vulcanização que torna a borracha resistente ao desgaste também a torna praticamente imortal no meio ambiente. O problema global é imenso, mas a solução industrial existe e já opera em escala industrial massiva, especialmente na Coreia do Sul.

Segundo o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), o Brasil gera aproximadamente 450 mil toneladas de pneus inservíveis por ano. Desse total, grande parte ainda é descartada de forma irregular, em terrenos baldios, rios e lixões. A comparação com as fábricas coreanas de reciclagem, que operam com automação de alto nível e aproveitamento de quase 100% dos materiais, revela um abismo técnico e de gestão que vale entender em detalhe.

O processo de trituração criogênica e mecânica separa borracha, aço e fibra têxtil com perda de material inferior a 2% em todo o ciclo

Nas fábricas coreanas mostradas pelo canal Factory Monster, o pneu inservível passa por até seis etapas consecutivas antes de se tornar matéria-prima reutilizável. Tudo começa com a granulação grosseira, onde trituradores de rolos dentados reduzem o pneu inteiro a pedaços de 50 milímetros em questão de segundos. A velocidade impressiona: uma linha de processamento contínuo consegue reduzir até 2 toneladas de pneus por hora.

Em seguida, o material passa por separadores magnéticos que extraem os arames de aço presentes no interior do pneu. Esse aço, chamado de arame de talão, é prensado em fardos compactos e vendido diretamente para siderúrgicas como sucata de alta pureza. O rendimento metálico de um pneu de caminhão pode chegar a 15% do seu peso total em aço recuperável.

A borracha granulada resultante, chamada de borracha de pneu reciclado (ou crumb rubber, no vocabulário técnico internacional), é peneirada em diferentes granulometrias: de 0,8 mm a 10 mm. Cada faixa de granulometria tem um mercado específico, de campos de futebol sintéticos a pisos industriais antiderrapantes e asfalto-borracha. A fibra têxtil, resíduo das camadas de poliéster e nylon, também é separada e aproveitada como material de enchimento e isolamento acústico.

A reciclagem de sucata metálica nas mesmas instalações aproveita resíduos que antes eram simplesmente enterrados e transforma aço em matéria-prima para novas peças industriais

O mesmo complexo fabril coreano também processa sucata metálica em volumes que desafiam a imaginação. Prensas hidráulicas compactam carrocerias de automóveis, estruturas metálicas e equipamentos obsoletos em cubos densos, que são então alimentados em fornos elétricos a arco. A temperatura dentro desses fornos ultrapassa 1.600 graus Celsius, ponto em que qualquer metal ferroso se torna líquido em minutos.

O aço reciclado produzido por esse processo consome cerca de 60% menos energia do que o aço produzido a partir de minério de ferro virgem, segundo dados da World Steel Association. Para cada tonelada de aço reciclado, são economizados aproximadamente 1.400 quilogramas de minério de ferro, 740 quilogramas de carvão e 120 quilogramas de calcário. Os números tornam a reciclagem de metais não apenas uma questão ambiental, mas uma vantagem econômica mensurável e direta.

A automação dessas plantas reduz a intervenção humana direta ao mínimo e opera em ciclos contínuos de 22 horas por dia sem interrupções significativas de linha

O que mais chama atenção nas instalações coreanas é o nível de automação integrada. Esteiras transportadoras, alimentadores vibrantes, separadores magnéticos e peneiras rotativas operam em sequência encadeada, com sensores de presença e sistemas de controle CLP (Controlador Lógico Programável) monitorando cada etapa. O operador humano, nesse contexto, atua principalmente na supervisão e na manutenção preventiva, não na operação direta do processo.

Esse modelo permite que a planta opere em dois ou três turnos consecutivos com equipes reduzidas. Uma instalação de médio porte, com capacidade de processar 50 toneladas de pneus por dia, pode ser operada por uma equipe de 8 a 12 pessoas por turno, segundo dados da Associação Coreana de Reciclagem de Resíduos (KORA). A produtividade por trabalhador em plantas desse tipo supera em 4 a 6 vezes a de instalações artesanais ou semiautomáticas.

No Brasil, o programa Reciclanip recolheu mais de 6 milhões de toneladas de pneus desde 1999, mas a capacidade de processamento ainda fica abaixo da geração anual de resíduos

O Brasil não está estagnado nesse tema. O programa Reciclanip, mantido pelos fabricantes de pneus que operam no país, recolheu mais de 6,3 milhões de toneladas de pneus inservíveis entre 1999 e 2023, conforme relatórios da própria entidade. São mais de 3.500 pontos de coleta distribuídos pelo território nacional e 11 destinadores licenciados que transformam esse material em energia, borracha granulada e aço recuperado.

O gargalo, no entanto, está na capacidade instalada de processamento. Boa parte dos pneus coletados no Brasil ainda é co-processada em fornos de cimenteiras como substituto de combustível fóssil, uma solução energeticamente válida, mas que não preserva a borracha como matéria-prima. A reciclagem mecânica de alta eficiência, nos moldes do que se vê nas fábricas coreanas, ainda representa uma fração minoritária do volume total tratado no país.

A borracha granulada gerada pelo processo tem mercado crescente no Brasil, especialmente em pavimentação asfáltica onde cada quilômetro de rodovia consome até 1.200 pneus triturados

O asfalto-borracha é uma das aplicações mais promissoras para o crumb rubber no Brasil. Segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), cada quilômetro de rodovia pavimentada com asfalto-borracha consome o equivalente a cerca de 1.200 pneus triturados. Além de dar destino útil ao resíduo, o pavimento resultante tem maior durabilidade, melhor drenagem e reduz o ruído de rolamento em até 3 decibéis comparado ao asfalto convencional.

Estados como São Paulo e Minas Gerais já possuem trechos experimentais e regulares com essa tecnologia. O custo inicial é entre 15% e 25% superior ao do asfalto convencional, mas o ciclo de vida estendido compensa o investimento em projetos de longo prazo. A equação financeira, somada ao benefício ambiental, tem atraído interesse crescente de secretarias estaduais de infraestrutura para ampliar o uso dessa tecnologia nas próximas concessões rodoviárias.

A cadeia de reciclagem de pneus e metais movimenta globalmente mais de 80 bilhões de dólares por ano e deve crescer 4,5% ao ano até 2030 segundo a Grand View Research

O mercado global de reciclagem de pneus foi avaliado em aproximadamente 8,5 bilhões de dólares em 2023 e deve atingir 12 bilhões de dólares até 2030, com taxa de crescimento anual composta de 4,5%, conforme projeções da Grand View Research. A Ásia-Pacífico, liderada por Coreia do Sul, China e Japão, responde por mais de 40% desse mercado.

Quando somada à reciclagem de metais ferrosos e não ferrosos, a cadeia global movimenta mais de 80 bilhões de dólares por ano. O aço reciclado, sozinho, representa cerca de 630 milhões de toneladas processadas anualmente no mundo, segundo a World Steel Association. Esses números colocam a reciclagem industrial não como um nicho ambientalista, mas como um setor econômico de peso equivalente ao de segmentos tradicionais como mineração e petroquímica.

Você acredita que o Brasil tem capacidade de construir plantas de reciclagem industrial no nível das fábricas coreanas nos próximos dez anos, ou faltam políticas públicas e investimento privado para isso acontecer? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

Compartilhar:

Inscreva-se

spot_imgspot_img

Popular

Você vai gostar
relacionados