Mineiros de carvão no Paquistão trabalham 14 horas por dia a centenas de metros de profundidade e ganham menos de 10 dólares por turno

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Nas minas de carvão do Paquistão, jornadas de 14 horas em túneis com menos de um metro de altura definem a rotina de centenas de milhares de trabalhadores invisíveis

Eles descem antes do amanhecer e sobem depois do anoitecer. No interior das minas de carvão do Paquistão, trabalhadores passam até 14 horas contínuas em galerias subterrâneas onde a temperatura pode ultrapassar 45°C, o teto raramente ultrapassa 90 centímetros de altura e o ar carrega uma concentração de partículas de carvão que, ao longo dos anos, deposita camadas permanentes nos pulmões. É um dos trabalhos mais duros do planeta, e a maior parte do mundo nunca ouviu falar deles.

O Paquistão é o 13º maior produtor de carvão do mundo, segundo dados da BP Statistical Review of World Energy. A produção nacional gira em torno de 8 milhões de toneladas por ano, e a extração é feita majoritariamente de forma manual, com picaretas, pás e capacetes equipados com lanternas simples. Não há automação. O que existe são homens, muitas vezes a partir dos 16 anos, curvados em espaços que uma pessoa adulta não consegue atravessar em pé.

A estrutura das minas paquistanesas é artesanal por necessidade econômica, e os túneis são escavados sem suporte mecânico em terrenos geologicamente instáveis

As principais regiões produtoras de carvão no Paquistão ficam nas províncias de Baluchistão e Khyber Pakhtunkhwa. Em Baluchistão, as jazidas ficam em montanhas de difícil acesso, e boa parte das operações é conduzida por empresas familiares ou pequenos empreiteiros locais. A escavação segue um modelo que os próprios mineradores chamam de “room and pillar” adaptado: colunas de rocha são deixadas para sustentar o teto enquanto as câmaras laterais são esvaziadas. O problema é que esse equilíbrio é frágil, e colapsos são frequentes.

Segundo dados do Centre for Investigative Reporting in Pakistan, mais de 200 mineiros morrem por acidentes nas minas do país a cada ano. Soterramento, explosões de gás metano acumulado e intoxicação por monóxido de carbono estão entre as causas mais recorrentes. A ventilação, quando existe, é feita por dutos improvisados de lona ou metal corrugado. Não há sensores automáticos de gás, e o método de detecção mais comum ainda é o comportamento dos próprios trabalhadores: tontura, dor de cabeça e náusea são os alarmes disponíveis.

Um mineiro paquistanês extrai entre 3 e 5 toneladas de carvão por turno usando apenas ferramentas manuais, e recebe em média 1.000 rúpias paquistanesas por dia de trabalho

1.000 rúpias paquistanesas equivalem a aproximadamente 3,5 dólares americanos na cotação atual. Para esse valor, o trabalhador cumpre um turno de 12 a 14 horas, carrega o carvão em bolsas até a superfície e, em muitos casos, paga do próprio salário os equipamentos básicos que usa, como capacete, picareta e lamparina. Não há benefício trabalhista formal, plano de saúde ou seguro de vida em grande parte dos contratos informais que dominam o setor.

A produção por turno depende da qualidade do veio e da profundidade da galeria. Em minas com veios estreitos, a posição de trabalho é deitada ou semi-agachada durante horas. A carga extraída é transportada manualmente ou por carrinhos empurrados em trilhos de madeira até o ponto de içamento. Segundo a organização Human Rights Watch, crianças de até 12 anos são encontradas trabalhando nesse transporte intermediário, especialmente nas minas de menor porte em Baluchistão.

A doença pulmonar causada pela inalação crônica de poeira de carvão afeta a maioria dos mineradores ativos depois de 10 anos de trabalho, e o diagnóstico costuma chegar tarde demais

A pneumoconiose, conhecida popularmente como “doença do pulmão negro”, é irreversível. O acúmulo de partículas finas de carvão no tecido pulmonar provoca fibrose progressiva, reduz a capacidade respiratória e, em estágios avançados, causa insuficiência respiratória crônica. De acordo com um estudo publicado no Pakistan Journal of Medical Sciences, mais de 70% dos mineiros com mais de 15 anos de atividade apresentam algum grau de comprometimento pulmonar detectável em exame de imagem.

O acesso a diagnóstico médico nas regiões mineradoras é escasso. Muitos trabalhadores associam a falta de ar crescente ao processo natural de envelhecimento ou ao esforço físico intenso. Quando chegam a um médico, o dano já está avançado. Não existe tratamento para reverter a fibrose: as intervenções disponíveis tratam os sintomas, não a causa.

A história da mineração de carvão revela que as condições encontradas hoje no Paquistão repetem padrões documentados na Europa do século XIX, antes da criação de legislações trabalhistas específicas para o setor

No Reino Unido da década de 1840, o Mines and Collieries Act de 1842 proibiu o trabalho de mulheres e crianças abaixo de 10 anos nas minas após um relatório do Parlamento documentar condições análogas às que persistem hoje no sul da Ásia. Na Alemanha, a regulamentação das minas do Ruhr no final do século XIX incluiu ventilação obrigatória, limites de jornada e inspeções técnicas periódicas. Esses avanços levaram décadas para se consolidar, e foram conquistados a partir de pressão de movimentos operários organizados.

No Paquistão de 2024, sindicatos de mineradores existem formalmente, mas têm alcance limitado fora dos grandes centros urbanos. Nas regiões produtoras de carvão, o poder de negociação dos trabalhadores é restringido pelo desemprego elevado, pela informalidade dos contratos e pela dependência econômica de comunidades inteiras em relação à atividade mineradora.

No Brasil, a mineração de carvão está concentrada em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, com condições regulatórias distintas mas problemas de saúde ocupacional que ainda desafiam o setor

O Brasil produz cerca de 5,5 milhões de toneladas de carvão mineral por ano, segundo dados do Anuário Mineral Brasileiro publicado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB). A região carbonífera do sul do país, que inclui municípios como Criciúma, Forquilhinha e Lauro Müller em Santa Catarina, opera sob regulação da Agência Nacional de Mineração e está sujeita às normas de saúde e segurança do trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego.

Ainda assim, a pneumoconiose permanece como doença ocupacional relevante entre mineradores brasileiros de carvão. Um relatório da Fundacentro de 2019 identificou que trabalhadores com mais de 20 anos de exposição apresentavam prevalência da doença superior a 30% em algumas das minas analisadas. A diferença em relação ao Paquistão está na existência de protocolos de monitoramento, equipamentos de proteção respiratória obrigatórios e acesso ao sistema público de saúde, mas o risco nunca é eliminado completamente em ambientes com alta concentração de poeira mineral.

A demanda global por carvão caiu nas economias desenvolvidas, mas cresceu 1,4% em 2023 puxada por países em desenvolvimento que dependem do mineral para geração de energia elétrica

De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), o consumo mundial de carvão atingiu um novo recorde em 2023, com 8,5 bilhões de toneladas consumidas globalmente. O crescimento foi impulsionado por Índia, China, Indonésia e Paquistão, países onde o carvão ainda representa a principal fonte de eletricidade para populações de baixa renda. Essa demanda mantém o ciclo de extração manual ativo em regiões onde a mecanização das minas seria economicamente inviável ou tecnicamente complexa devido à geologia local.

Enquanto as economias ricas debatem cronogramas de abandono do carvão, os trabalhadores das minas paquistanesas continuam descendo com lanternas na cabeça, picaretas na mão e contratos informais no bolso. A transição energética, para eles, ainda não tem data de chegada.

Você acredita que os países consumidores de carvão têm alguma responsabilidade pelas condições de trabalho nas minas de países como o Paquistão? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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