A usina solar de US$ 2,2 bilhões no deserto da Califórnia que queima pássaros, desperdiça energia e ainda assim recebeu bilhões do governo americano

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A usina Ivanpah foi construída no deserto do Mojave com US$ 1,6 bilhão em empréstimos federais e se tornou um dos projetos de energia renovável mais controversos dos Estados Unidos

Quando o governo dos Estados Unidos aprovou um empréstimo de US$ 1,6 bilhão para a usina solar Ivanpah, em 2011, a promessa era de que a instalação transformaria a geração de energia limpa no país. A planta, localizada no deserto do Mojave, na Califórnia, foi projetada para ser a maior usina de energia solar termoelétrica do mundo, cobrindo uma área de aproximadamente 14 quilômetros quadrados com mais de 170 mil espelhos.

O que aconteceu nos anos seguintes contradiz quase tudo o que foi prometido. Segundo o canal ReasonTV, o custo total do projeto superou US$ 2,2 bilhões ao final da construção, e a usina nunca atingiu de forma consistente as metas de geração previstas em contrato. O debate sobre o que deu errado em Ivanpah é, na prática, uma aula sobre o que pode falhar quando tecnologia cara, subsídios públicos e expectativas infladas se encontram no mesmo projeto.

A tecnologia de torre solar concentrada escolhida para Ivanpah custa três vezes mais do que painéis fotovoltaicos convencionais e exige condições climáticas quase perfeitas para funcionar no limite projetado

A tecnologia CSP (Concentrated Solar Power, ou energia solar de concentração) usada em Ivanpah funciona de forma radicalmente diferente dos painéis solares comuns. Em vez de converter luz em eletricidade diretamente, os espelhos refletem raios solares para o topo de três torres com mais de 130 metros de altura, aquecendo um fluido que movimenta turbinas a vapor. O sistema é elegante na teoria, mas extremamente sensível na prática.

Nuvens, poeira, umidade e variações de temperatura afetam diretamente a eficiência do processo. Em dias parcialmente nublados, a geração pode cair abruptamente, sem aviso, forçando o operador a acionar gás natural para manter as turbinas funcionando. Segundo dados da California Energy Commission, Ivanpah consumiu quantidades expressivas de gás natural como combustível auxiliar, o que comprometeu sua classificação como fonte 100% renovável em boa parte de sua operação.

O custo por megawatt instalado em Ivanpah ficou entre três e quatro vezes superior ao de uma usina fotovoltaica equivalente construída no mesmo período, de acordo com comparações publicadas pelo Lawrence Berkeley National Laboratory. Enquanto o preço dos painéis fotovoltaicos despencou mais de 80% entre 2010 e 2020, a tecnologia CSP de torre praticamente não evoluiu em termos de custo.

Os espelhos de Ivanpah criam zonas de calor intenso que matam centenas de pássaros por ano, gerando conflitos ambientais que ninguém previu durante o licenciamento do projeto

Um dos problemas menos esperados de Ivanpah foi o impacto sobre a fauna local. A concentração de energia solar nas torres cria campos de calor extremo ao redor das estruturas, com temperaturas que podem ultrapassar 500°C nas zonas de foco direto. Aves que cruzam essa área são queimadas no ar, fenômeno que biólogos e inspetores passaram a chamar informalmente de “streamers”, pela trilha de fumaça deixada pelos animais.

Segundo relatórios do U.S. Fish and Wildlife Service, estimativas conservadoras apontam para centenas de aves mortas por ano na planta, incluindo espécies protegidas. O número exato é disputado, mas o problema foi documentado suficientemente para gerar investigações federais e exigências de mitigação que elevaram ainda mais os custos operacionais da instalação.

A usina não cumpriu as metas de geração estabelecidas em contrato e os operadores pediram ao governo que reduzisse as obrigações de entrega de energia para evitar penalidades contratuais

Em 2014 e 2015, os operadores da NRG Energy e da BrightSource Energy, empresas responsáveis pela usina, solicitaram formalmente à Comissão de Utilidades Públicas da Califórnia uma redução nas metas contratuais de entrega de eletricidade. A justificativa apresentada foi que a geração real havia ficado significativamente abaixo do projetado nos primeiros anos de operação.

A ironia documentada pelo ReasonTV é que, ao mesmo tempo em que pedia flexibilização das metas, a operadora também solicitou ao Departamento de Energia dos Estados Unidos uma extensão no prazo para quitar o próprio empréstimo federal que financiou a construção. Em outras palavras, o projeto pediu ao governo mais tempo para pagar a dívida que o governo havia concedido para construí-lo.

Enquanto Ivanpah enfrenta críticas por seu gigantismo caro e ineficiente, soluções compactas de energia solar já cabem dentro de um contêiner padrão e chegam operacionais em qualquer localidade

O contraste com a trajetória de Ivanpah aparece de forma concreta quando se observa o movimento oposto no setor: a miniaturização e a modularidade. O canal Unstoppable Gadgets apresenta um sistema em que uma usina solar completa, com painéis, inversores, baterias e sistema de controle, é instalada dentro de um contêiner ISO de 40 pés, pronto para operar em campo remoto, canteiro de obras, comunidade isolada ou base militar.

Esse tipo de solução não depende de condições climáticas perfeitas, não exige torres de 130 metros, não mata pássaros e pode ser transportado por caminhão até o ponto de consumo. O custo de instalação por unidade é uma fração do que foi gasto por megawatt em Ivanpah. No Brasil, empresas como Engie e Enel Green Power já operam sistemas modulares em regiões do Norte e Nordeste onde a rede convencional não chega.

O fracasso relativo de Ivanpah não representa o fim da energia solar, mas revela que escala gigantesca e tecnologia cara nem sempre significam o melhor uso do dinheiro público

O Brasil gerou, em 2023, mais de 50 TWh a partir de energia solar fotovoltaica, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), tornando-se um dos dez maiores produtores solares do mundo. Toda essa capacidade foi construída majoritariamente com painéis fotovoltaicos convencionais, não com torres de concentração como as de Ivanpah.

O que o caso Ivanpah ilustra com precisão é a diferença entre apostar em uma tecnologia cara e de alto risco com dinheiro público, e escalar gradualmente tecnologias mais simples que o mercado já havia demonstrado serem viáveis. A usina ainda opera, mas com geração reduzida e sob questionamentos sobre quanto tempo continuará em funcionamento antes de se tornar economicamente indefensável.

O contrato de fornecimento de energia de Ivanpah com a Pacific Gas and Electric pode ser encerrado antes do prazo caso a usina não comprove viabilidade técnica e econômica sustentável nos próximos ciclos de revisão

De acordo com informações compiladas pelo ReasonTV, os contratos de compra de energia firmados pela Pacific Gas and Electric com os operadores de Ivanpah incluem cláusulas de desempenho. O descumprimento sistemático das metas de geração abre espaço para revisão ou rescisão antecipada, o que colocaria em risco a viabilidade financeira de toda a operação e potencialmente inviabilizaria o pagamento do empréstimo federal.

O projeto consumiu mais de dois bilhões de dólares, ocupa quase 14 quilômetros quadrados de deserto protegido, queima gás natural como auxiliar, mata aves em quantidade documentada e ainda não provou que consegue entregar o que prometeu. Isso não elimina a relevância da energia solar, mas serve como referência concreta sobre o que acontece quando a ambição supera a prudência técnica em projetos de infraestrutura financiados com recursos públicos.

Você acredita que governos deveriam financiar projetos experimentais de grande escala com dinheiro público mesmo quando a tecnologia ainda não foi comprovada em campo? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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