A Confederação Nacional da Indústria divulgou em 11 de maio de 2026 um documento com mais de 30 propostas para fortalecer as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, em resposta direta à política tarifária do governo Trump, que impôs sobretaxas generalizadas sobre importações de vários países, incluindo o Brasil. O pacote reflete a pressão crescente sobre setores como aeronáutica, autopeças, calçados, máquinas e equipamentos, que dependem do mercado americano para escoar produção de maior valor agregado.
O que está em jogo nas exportações de manufaturados
Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Qualquer deterioração nas condições de acesso tarifário afeta margens, empregos industriais e o saldo da balança comercial de manufaturados, segmento que o país tem tentado ampliar como alternativa às exportações de commodities. A sobretaxa americana eleva o custo dos produtos brasileiros no mercado americano, reduzindo sua competitividade frente a concorrentes que já negociaram acordos preferenciais com Washington.
As medidas elencadas pela CNI cobrem um espectro amplo de ações. Entre as frentes prioritárias estão o reconhecimento mútuo de normas técnicas, a redução de barreiras não tarifárias, o estímulo a investimentos cruzados e a negociação de cotas diferenciadas para setores sensíveis. A entidade também propõe cooperação em cadeias de suprimentos estratégicas, como defesa e semicondutores, áreas que ganharam centralidade na agenda industrial americana nos últimos anos.
Conexão com o acordo Mercosul-EUA
A iniciativa da CNI se insere no contexto das negociações em curso entre o Mercosul e os Estados Unidos, processo que ganhou novo ritmo em 2025 e 2026. Ao apresentar uma agenda propositiva com mais de 30 pontos concretos, a indústria brasileira busca ocupar um papel ativo na definição dos termos dessa aproximação, evitando que o país apenas reaja às condições impostas por Washington.
A estratégia reflete uma mudança de postura do setor industrial, que historicamente atuou de forma mais reativa nas negociações comerciais internacionais. Apresentar um cardápio detalhado de propostas antes do fechamento de qualquer acordo coloca a CNI como interlocutora direta no processo, não apenas como espectadora dos resultados.
Os segmentos mais expostos às tarifas americanas, como autopeças e calçados, concentram milhares de empregos industriais em estados como São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Uma eventual normalização das condições de acesso ao mercado americano teria efeito direto sobre a utilização da capacidade instalada nessas cadeias. Em 2024, os manufaturados representaram cerca de 36% do total exportado pelo Brasil, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior.

