A Morrow Batteries, fabricante norueguesa de baterias de íons de lítio para sistemas de armazenamento estacionário de energia, protocolou pedido de falência em maio de 2026. Fundada em 2020 e sediada em Arendal, a empresa captou centenas de milhões de euros em investimentos privados e subsídios públicos antes de colapsar, tornando-se um dos casos mais expressivos de falência no setor europeu de energia limpa nos últimos anos.
Uma aposta bilionária que não sustentou a escala industrial
A Morrow surgiu num momento em que a União Europeia corria para reduzir sua dependência de fornecedores asiáticos de células eletroquímicas, especialmente da chinesa CATL e da BYD. A empresa integrava o chamado “cinturão europeu de baterias”, iniciativa continental que pretendia criar uma cadeia soberana de manufatura capaz de rivalizar com a dominância asiática no setor. O modelo, no entanto, encontrou uma realidade industrial muito mais hostil do que os planos de negócio previam.
Os custos operacionais e de energia na Noruega se mostraram incompatíveis com preços competitivos frente aos concorrentes do continente asiático. A empresa também enfrentou gargalos no fornecimento de matérias-primas críticas, como lítio, manganês e cobalto, e não conseguiu escalar a produção em ritmo suficiente para equilibrar o caixa. O ciclo prolongado de juros elevados na Europa agravou o problema ao encarecer o acesso a capital para projetos intensivos em infraestrutura.
Northvolt já havia dado o mesmo sinal
A falência da Morrow não é um caso isolado. A sueca Northvolt, outra das grandes apostas europeias no setor, acumulou graves dificuldades financeiras e operacionais em 2024 e 2025. Os dois colapsos, em sequência, evidenciam que a ambição de construir uma indústria europeia soberana de baterias enfrenta obstáculos econômicos concretos, não apenas tecnológicos. Subsidiar a entrada é relativamente fácil; viabilizar a escala industrial com custos competitivos é o problema que nenhum dos dois projetos conseguiu resolver.
O que o caso Morrow diz para o Brasil
O Brasil debate, neste momento, investimentos em mineração de lítio e na cadeia produtiva de veículos elétricos e armazenamento de energia renovável. O colapso da Morrow funciona como um dado concreto nessa discussão: projetos de manufatura verde que dependem estruturalmente de subsídios estatais e de um ambiente de juros favoráveis para se viabilizar carregam um risco sistêmico que costuma aparecer apenas quando o ciclo se reverte.
O país tem reservas relevantes de lítio, especialmente em Minas Gerais, e há iniciativas em curso para agregar valor localmente à cadeia de baterias. Mas transformar matéria-prima em manufatura competitiva exige condições que vão além da política industrial: custos de energia, estrutura logística, acesso a capital de longo prazo e mercado consumidor em escala são variáveis que a experiência europeia demonstrou serem determinantes. A Morrow encerrou suas operações antes de entregar uma única linha de produção em capacidade plena.

