O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em 15 de abril de 2026, atingiu o menor patamar desde junho de 2020, quando a economia brasileira estava no fundo do poço da crise pandêmica. O recuo sinaliza que os industriais estão pessimistas tanto com as condições atuais de negócios quanto com as perspectivas de investimento, e o timing é ruim: o governo federal tenta, ao mesmo tempo, consolidar sua política de reindustrialização com o programa Nova Indústria Brasil (NIB).
O que explica a queda
A deterioração tem causas conhecidas e acumuladas. A taxa Selic elevada encarece o crédito e aperta as margens das empresas industriais, que dependem de financiamento para capital de giro e expansão produtiva. A incerteza fiscal persiste, o debate sobre reformas trabalhistas, como o fim da escala 6×1 e a questão da pejotização, adiciona instabilidade ao planejamento das empresas, e as tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros fecham uma janela de exportação que parte do setor havia conseguido abrir nos últimos anos.
Para a indústria de transformação, o cenário é ainda mais apertado. A concorrência de importados asiáticos já vinha corroendo fatias de mercado antes mesmo da alta dos juros chegar ao patamar atual. Com a confiança em queda, o movimento natural das empresas é adiar contratações, reduzir pedidos e segurar planos de expansão.
A contradição com a Nova Indústria Brasil
Lançado em 2024, o NIB tem como meta mobilizar R$ 300 bilhões em crédito até 2026, com foco em setores considerados estratégicos para a reindustrialização do país. O programa existe, os recursos estão formalmente disponíveis, mas o dado da CNI indica que os instrumentos de política industrial não foram suficientes para neutralizar os efeitos do ambiente macroeconômico restritivo. Crédito subsidiado não resolve quando o custo do crédito de mercado é proibitivo e a demanda interna dá sinais de fragilidade.
A queda para o menor nível desde a pandemia é um número que o governo não pode ignorar, especialmente em ano pré-eleitoral, quando a pressão por medidas de estímulo econômico tende a crescer. A CNI reúne federações de todos os estados do país e é a principal interlocutora do setor junto ao Executivo e ao Congresso, o que dá peso político ao indicador além do econômico.
Em junho de 2020, quando o ICEI registrou o patamar que agora serve de comparação, o Brasil enfrentava lockdowns, colapso de cadeias produtivas e incerteza sanitária sem precedentes. Chegar ao mesmo nível de pessimismo seis anos depois, sem nenhuma crise de magnitude equivalente, é o dado mais concreto que o levantamento da CNI oferece.

