A fábrica americana empregava 20 milhões de pessoas nos anos 1970 e hoje sustenta apenas 12,7 milhões enquanto tarifas, automação e décadas de decisões globais tornam a reversão quase impossível

Data:

A indústria manufatureira dos Estados Unidos perdeu quase 7,3 milhões de empregos em cinco décadas e o debate sobre como recuperá-los voltou ao centro da política econômica americana

Em 2024, a CNBC publicou uma reportagem que coloca em perspectiva um dos fenômenos econômicos mais debatidos nos Estados Unidos: o encolhimento progressivo do parque industrial americano ao longo de cinco décadas. O setor que chegou a empregar quase 20 milhões de trabalhadores nos anos 1970 opera hoje com 12,7 milhões de pessoas, uma queda de mais de 36% em termos absolutos, mesmo com a população do país tendo dobrado no mesmo período.

Esse número bruto esconde uma transformação mais profunda. Não se trata apenas de empregos transferidos para outros países. Trata-se de fábricas fechadas, cadeias de fornecimento inteiras reconstruídas fora do território americano e, sobretudo, de uma perda de capacidade técnica instalada que leva décadas para ser reconstituída. Quando uma linha de produção fecha, os trabalhadores especializados se dispersam, os fornecedores locais migram para outros mercados e o conhecimento acumulado se dissolve.

O custo de produzir nos Estados Unidos é entre 20% e 30% mais alto do que em economias asiáticas, e essa diferença não se resolve apenas com tarifas de importação

O principal obstáculo para trazer a manufatura de volta ao solo americano é estrutural: o custo operacional. Salários, encargos regulatórios, custo de energia industrial e infraestrutura logística tornam o preço final de um produto fabricado nos EUA significativamente mais alto do que o equivalente produzido na China, no Vietnam ou no México. Segundo estimativas do Boston Consulting Group, a diferença de custo total de produção entre os EUA e a China caiu ao longo dos anos 2010, mas ainda permanece em uma faixa de 20% a 30% para a maioria dos setores de consumo.

As tarifas de importação impostas ao longo dos governos Trump e Biden reduziram parte dessa vantagem competitiva dos produtos importados. Mas o efeito é assimétrico: setores com margens apertadas, como eletrônicos de consumo e vestuário, não conseguem absorver o realinhamento de custos sem repassar preços ao consumidor final. E consumidor que paga mais por um produto manufaturado domesticamente precisa, antes de tudo, ter renda disponível para isso.

A automação eliminou mais postos de trabalho industriais nos EUA do que a terceirização para a Ásia, e muitas fábricas que voltam ao país chegam com menos da metade dos funcionários que tinham antes

Há um dado que raramente aparece nas discussões políticas sobre reindustrialização: a maior parte dos empregos industriais perdidos nos EUA desde os anos 1980 não foi para a China. Foi para robôs. Segundo estudo publicado pelo National Bureau of Economic Research, cada robô industrial instalado nos Estados Unidos substitui, em média, entre 3 e 5,6 trabalhadores de linha de produção. E essa curva de substituição acelerou após 2010, com a queda no custo de sistemas de automação e o avanço da robótica colaborativa.

O paradoxo é evidente: empresas que anunciam a volta da produção para os EUA, como Apple e Intel com seus novos projetos em território americano, instalam fábricas altamente automatizadas. Uma planta de semicondutores que empregaria 10.000 pessoas nos anos 1990 opera hoje com 2.000 a 3.000 funcionários altamente especializados. O número de fábricas pode crescer; o número de empregos fabris tradicionais, dificilmente acompanha o mesmo ritmo.

Cadeias de fornecimento globais foram construídas ao longo de 40 anos e nenhuma tarifa as desmonta em quatro anos de mandato presidencial

A reportagem da CNBC detalha um aspecto técnico que costuma passar despercebido: a interdependência logística. Uma montadora americana pode querer produzir carros nos EUA, mas os chips que controlam o câmbio automático vêm do Japão, os sensores de pressão de pneu são fabricados na Coreia do Sul e a borracha de vedação é processada na Malásia. Trazer todos esses elos de volta ao território americano exigiria investimentos simultâneos em dezenas de setores, muitos dos quais não têm escala doméstica para operar de forma competitiva.

O tempo de maturação desse processo também importa. Uma fundição especializada, uma planta petroquímica ou uma fábrica de baterias de lítio levam entre cinco e dez anos desde o anúncio do investimento até a produção em escala comercial. Esse intervalo inclui licenciamento ambiental, construção civil, instalação de equipamentos, testes de processo e treinamento de mão de obra. Política econômica que muda a cada eleição dificilmente oferece o horizonte de certeza que esses investimentos exigem.

A visão de Trump de trazer toda a manufatura americana de volta ao país é descrita pela CBC News como “quase impossível” diante das restrições estruturais que nenhum decreto resolve

A CBC News aborda o mesmo fenômeno pelo ângulo canadense e chega a uma conclusão semelhante: a retórica do “feito na América” produz anúncios de investimento, mas raramente reconstrói cadeias produtivas completas. Algumas empresas expandem operações domésticas movidas pela pressão política ou pelos incentivos fiscais da Lei de Redução da Inflação, sancionada em 2022 com quase 370 bilhões de dólares em subsídios para produção limpa e manufatura doméstica. Mas mesmo com esse estímulo, a escala alcançada ainda está longe de compensar décadas de desindustrialização.

O canal canadense também aponta que parte das fábricas que voltam para os EUA o fazem para escapar de tarifas sobre produtos acabados, mas mantêm componentes e subconjuntos importados. O resultado é uma “manufatura de fachada”: montagem final em solo americano com conteúdo local reduzido. Esse modelo atende critérios alfandegários, mas não reconstrói a base industrial profunda que os defensores da reindustrialização imaginam.

O Brasil enfrenta dilema semelhante com a desindustrialização precoce, tendo perdido participação industrial no PIB antes de alcançar o nível de renda dos países que se desindustrializaram “por excesso”

O caso americano tem paralelos evidentes com o Brasil. Segundo dados da Confederação Nacional da Indústria, a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro caiu de cerca de 35% nos anos 1980 para aproximadamente 11% em 2023. A diferença é que os EUA se desindustrializaram após atingir alta renda per capita e desenvolver um setor de serviços sofisticado. O Brasil fez o mesmo movimento com renda per capita muito menor, fenômeno que economistas da Fundação Getulio Vargas classificam como desindustrialização precoce.

Assim como nos EUA, o debate brasileiro sobre reindustrialização esbarra nas mesmas variáveis: custo de produção elevado, déficit de mão de obra técnica especializada, infraestrutura logística cara e cadeias de fornecimento fragmentadas. A diferença é que o Brasil ainda tem janelas setoriais abertas em agronegócio intensivo em tecnologia, mineração processada e energias renováveis, onde a produção local tem vantagem comparativa real e não apenas política.

Reconstruir capacidade industrial em setores estratégicos exige entre 10 e 20 anos de política consistente, algo que tanto os EUA quanto o Brasil ainda não demonstraram conseguir sustentar

A conclusão que emerge dos dois vídeos não é pessimista, mas é realista. Reindustrialização seletiva, focada em semicondutores, baterias, equipamentos médicos e defesa, é viável nos EUA e tem financiamento público comprometido. O CHIPS and Science Act, aprovado em 2022, destinou 52,7 bilhões de dólares exclusivamente para produção doméstica de chips, e empresas como TSMC, Samsung e Intel já anunciaram plantas em solo americano em resposta direta a esse incentivo.

Mas reindustrialização ampla, que devolva ao setor manufatureiro o peso econômico e a quantidade de empregos que tinha em 1979, contraria décadas de lógica de mercado, avanço tecnológico e integração global. Os 12,7 milhões de trabalhadores americanos na indústria hoje produzem muito mais, em valor agregado, do que os 20 milhões de 1979. A questão é se “produzir mais com menos gente” resolve o problema social que motivou o debate político em primeiro lugar.

A manufatura americana pode voltar a crescer em setores específicos, mas o emprego industrial em massa que definiu a classe média do século XX dificilmente retorna na mesma forma. Você acredita que subsídios governamentais e tarifas de importação são suficientes para reconstruir uma base industrial capaz de gerar empregos em escala nas próximas décadas? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

Compartilhar:

Inscreva-se

spot_imgspot_img

Popular

Você vai gostar
relacionados