A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ) publicou, em abril de 2026, uma análise defendendo o poder de compra do Estado como instrumento central para reconstruir a indústria nacional. O argumento não é novo, mas o contexto dá peso renovado ao debate: a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro caiu de cerca de 35%, nos anos 1980, para menos de 12% nos anos recentes, segundo dados do IBGE e da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
O que o Estado compra e por que isso importa para o aço
Licitações públicas, compras governamentais e políticas de preferência para produtos fabricados no Brasil formam o que se chama de poder de compra estatal. Para setores como siderurgia e bens de capital, esse mecanismo funciona como um amplificador de demanda doméstica. Grandes obras de infraestrutura financiadas pelo governo federal, incluindo as previstas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), dependem diretamente do fornecimento de aço e equipamentos industriais produzidos internamente. Sem uma política explícita de preferência ao conteúdo local, parte relevante dessas encomendas pode ser suprida por importações.
Gerdau, CSN e Usiminas estão entre as empresas que mais sentiriam os efeitos positivos de uma política mais ativa nessa direção. As três dependem, em parcela expressiva de seu faturamento, de projetos ligados à infraestrutura pública e à construção industrial. A ausência de regras consistentes de conteúdo local nas compras governamentais é apontada por entidades do setor como um dos fatores que tornam o mercado brasileiro mais vulnerável à concorrência de produtos importados, especialmente os originários da China.
A pressão das entidades industriais
A ABIMAQ integra um conjunto mais amplo de entidades industriais que pressionam o governo federal por uma política industrial ativa. Fundada em 1943 e sediada em São Paulo, a associação reúne fabricantes de máquinas, equipamentos e componentes para os mais diversos segmentos produtivos. Sua publicação de abril de 2026 retoma um debate que perdeu força nos anos de abertura econômica acelerada e que voltou à pauta diante da desindustrialização relativa que o país acumula há décadas.
O movimento não se restringe ao discurso. Entidades como a CNI e a ABIMAQ têm apresentado ao Congresso Nacional e ao Executivo propostas concretas de revisão das regras de licitação e de preferências nas compras públicas, buscando alinhar o Brasil a práticas adotadas por países como Estados Unidos, onde o Buy American Act reserva parcelas significativas das compras governamentais à produção doméstica.
A indústria de transformação brasileira empregava, em 2024, cerca de 8,5 milhões de trabalhadores formais, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. Recuperar dois ou três pontos percentuais de participação no PIB exigiria, segundo projeções da CNI, investimentos combinados de política industrial e demanda pública sustentada ao longo de pelo menos uma década.

