O início da operação da NanoIC importa diretamente porque possibilita o teste, validação e desenvolvimento de tecnologias de semicondutores numa escala próxima da industrial dentro da Europa — reduzindo dependências externas e fortalecendo a autonomia tecnológica do continente em setores estratégicos como inteligência artificial e telecomunicações.
Até 2020, o continente enfrentava forte dependência de fornecedores asiáticos e norte-americanos, agravada por crises globais de abastecimento de chips. Essa vulnerabilidade dificultava a pesquisa em litografia avançada e limitava a indústria local a processos defasados. O problema levou à criação do Regulamento Circuitos Integrados, que impulsionou a decisão de investir em linhas-piloto avançadas.
Como resposta, a União Europeia optou por construir uma fábrica experimental no campus do IMEC, em Leuven, Bélgica. A decisão incluiu o cofinanciamento de 700 milhões de euros pela UE, mais 700 milhões de governos nacionais e regionais, além do restante por parceiros industriais como a ASML. O objetivo era permitir a integração de mais de 100 novos equipamentos em cinco anos, incluindo sistemas de litografia ultravioleta extrema que operam na fabricação de chips com tecnologia menor que 2 nm.
A estrutura da NanoIC permite que investigadores, startups, PME e grandes empresas testem protótipos, processos e novas arquiteturas de circuitos sem arcar de imediato com custos industriais plenos. Esse modelo traz agilidade ao ciclo de inovação e reduz riscos ao avançar protótipos para produção. Com capacidade para receber mais de 50 organizações simultaneamente em acesso aberto, a fábrica responde pontualmente à demanda reprimida do setor europeu.
Trade-offs desse modelo incluem a complexidade de integração de múltiplos projetos e escalas de desenvolvimento dentro de uma linha compartilhada, além do desafio de gerenciar direitos de propriedade intelectual num ambiente multifacetado. Exige-se ainda altos investimentos para atualização constante dos equipamentos, especialmente diante do avanço acelerado das litografias.
A NanoIC destaca-se por receber a máquina de litografia ultravioleta extrema (EUV) de última geração, fornecida pela ASML. Essa máquina é fundamental para fabricar transistores cada vez menores, viabilizando circuitos integrados com dimensões de menos de 2 nanômetros. Isso significa maior densidade de componentes e eficiência energética, atributos essenciais para aplicações em inteligência artificial, veículos autônomos, tecnologia 6G e equipamentos médicos.
A habilidade de testar processos e materiais antecipadamente reduz o tempo médio entre pesquisa e aplicação industrial, respondendo a desafios técnicos que exigiam centenas de milhões para validação em linhas industriais tradicionais.
O acesso à NanoIC é operacionalizado por meio da Chips Joint Undertaking, uma parceria público-privada que regula o ambiente pré-competitivo e o compartilhamento de recursos. Mais de 50 organizações já solicitaram uso das instalações até outubro de 2025 — um reflexo da demanda reprimida na cadeia europeia. Centros de pesquisa como CEA-Leti (França), Fraunhofer (Alemanha) e Tyndall (Irlanda) atuam em coordenação, formando ecossistema técnico diversificado e integrado.
Cada entidade interessada submete projetos via portal oficial, com condições de acesso classificadas como justas e não discriminatórias. Esse modelo pretende equilibrar inovação aberta e proteção técnica, ampliando a colaboração público-privada e acelerando a transferência de conhecimento.
O projeto NanoIC representa uma das cinco linhas-piloto previstas pela União Europeia, com investimento público-total de 3,7 mil milhões de euros para toda a rede. Sua inauguração marca a fase operacional dessas estruturas, conectando excelência científica ao uso industrial em escala continental.
Lançada quatro anos após a identificação da dependência por semicondutores, a NanoIC busca elevar a capacidade europeia de produção de chips até 2030 e tornar as cadeias mais resilientes. O legado prático reside tanto na criação de novas oportunidades industriais quanto em maior segurança tecnológica para setores-chave, promovendo um novo paradigma de desenvolvimento colaborativo no continente.

