Na primeira metade dos anos 2010, relatórios de mercado e comunicados de empresas falavam em dezenas de bilhões de dólares em poucos anos e em um “material milagroso” capaz de resolver problemas de praticamente qualquer setor.
Na prática, a curva foi outra. Relatórios recentes mostram um mercado global de grafeno ainda pequeno – algo em torno de US$ 600 milhões em 2025, com projeções de chegar a alguns bilhões até 2034. É crescimento forte, mas distante de uma revolução instantânea.
Especialistas e associações do setor apontam alguns motivos para essa “ressaca” pós-hype:
Produção em escala e consistência: nem todo grafeno é igual. Varia o número de camadas, o tamanho das placas, o tipo (óxido de grafeno, nanoplatelets etc.). Produzir em volume, com padrão industrial e custo competitivo, levou bem mais tempo do que o marketing fazia parecer.
Integração aos processos existentes: o grafeno não entra sozinho na linha de produção. Ele precisa ser disperso em tintas, polímeros, cimento, óleos ou baterias sem prejudicar o processo, algo que exigiu anos de P&D conjunto entre químicos, engenheiros de materiais e fabricantes.
Concorrência de materiais “bons o suficiente”: em muitos casos, ligas metálicas, fibras de carbono, nanotubos ou aditivos já consolidados entregavam ganhos aceitáveis, a um custo e risco menores.
O resultado foi um choque de realidade: algumas empresas fecharam, outras encolheram, e o setor passou por consolidação e reorientação para aplicações mais pé-no-chão.
Onde o grafeno realmente aparece hoje
Longe das promessas de “substituir tudo”, o grafeno começou a ganhar espaço como aditivo – uma pequena porcentagem em materiais tradicionais para melhorar desempenho.
Alguns exemplos que já aparecem em escala comercial ou pré-comercial:
Concreto e cimento – Aditivos de grafeno e óxido de grafeno têm mostrado ganhos de resistência mecânica, durabilidade e, em alguns casos, redução de pegada de carbono no concreto, permitindo usar menos material para a mesma resistência.
Tintas, revestimentos e anticorrosão – O grafeno atua como barreira contra gases e umidade e pode aumentar a aderência e a resistência à corrosão em tintas industriais, inclusive em aplicações automotivas e de óleo e gás.
Plásticos, borrachas e compósitos – Pequenas quantidades de grafeno em polímeros e compósitos ajudam a reforçar a estrutura, melhorar condutividade térmica e elétrica e criar materiais mais leves e resistentes para autopeças, embalagens, pás eólicas e equipamentos esportivos.Energia e armazenamento – Apesar do hype em “baterias de grafeno” ter sido exagerado, há avanços em eletrodos com grafeno para baterias de íons de lítio, supercapacitores e células solares, buscando mais ciclo de carga e maior densidade de energia. A transição, porém, é lenta e ainda muito concentrada em pilotos e produtos de nicho.
Sensores e eletrônica – Empresas vêm desenvolvendo sensores de altíssima sensibilidade (inclusive biossensores) e componentes para óptica e comunicações baseados em grafeno, com aplicações em semicondutores, data centers e medical devices.
Em resumo: o grafeno saiu das capas de revista, mas entrou discretamente em concretos, tintas, pneus, sensores e polímeros. É menos glamoroso, mas é indústria de verdade.
O caso brasileiro: do laboratório ao galpão
No Brasil, a história segue um roteiro parecido: muitos anos de pesquisa acadêmica, investimentos públicos e criação de centros de excelência, e, nos últimos anos, um movimento mais forte de aproximação com a indústria.
Reportagem recente da revista Pesquisa FAPESP mostra que, duas décadas após o isolamento do grafeno, o material começa a entrar em produtos comerciais no país – de tintas e plásticos a lubrificantes e concretos especiais.
Alguns exemplos desse movimento:
Gerdau Graphene – A siderúrgica criou uma empresa dedicada ao desenvolvimento e à comercialização de produtos com grafeno, focando justamente em aplicações como concretos, polímeros e lubrificantes com melhor desempenho e menor impacto ambiental.
Startups e players especializados – Empresas como SuperGrafeno e outros fabricantes nacionais de óxido de grafeno e dispersões vêm se posicionando como fornecedoras para mercados de tintas, plásticos e compósitos, muitas vezes em parceria com universidades e centros de pesquisa.
Para o empresário industrial brasileiro, isso significa que o grafeno deixou de ser só “coisa de laboratório de física” e passou a ser uma opção real de ** melhorar produtos existentes** – especialmente em segmentos como construção civil, automotivo, óleo e gás e manufatura de peças técnicas.
Então o grafeno fracassou?
Depende do referencial.
Se a régua for o discurso de 2008–2012, que prometia “substituir o silício”, “criar carros ultraleves” e “revolucionar todas as indústrias em poucos anos”, a resposta é sim: o grafeno, no curto prazo, foi uma promessa exagerada.
Mas, olhando 20 anos depois, o cenário é outro:
Há uma cadeia global em formação, com centenas de empresas, investimentos relevantes e um mercado que cresce a taxas acima de 30% ao ano.
O foco saiu da ficção científica e foi para aplicações incrementais, onde 1% ou 2% de grafeno em um material tradicional gera ganho de performance suficiente para justificar o custo.
A agenda de descarbonização e eficiência energética (betões mais leves, revestimentos anticorrosivos mais duráveis, baterias mais eficientes) dá ao grafeno uma nova janela de oportunidade – mais pragmática que a onda original de hype.
Em outras palavras: o grafeno não virou a revolução instantânea prometida em 2008, mas tampouco sumiu. Ele está, silenciosamente, entrando em tintas, concretos, plásticos e sensores.
É menos “material milagroso” e mais aditivo estratégico, com impacto real onde a indústria consegue pagar pela melhoria.
Para quem, lá em 2009, ouvia que o grafeno ia mudar tudo “em cinco anos”, a sensação é de promessa não cumprida. Para quem olha com a cabeça de 2025, talvez o enredo seja outro: não foi um foguete, foi um projeto de longo prazo – e a parte industrial dele só está, agora, começando a ganhar escala.

