{"id":4566,"date":"2026-06-11T16:00:00","date_gmt":"2026-06-11T19:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/galpaodasmaquinas.com.br\/noticias\/?p=4566"},"modified":"2026-06-11T09:47:19","modified_gmt":"2026-06-11T12:47:19","slug":"acidente-nuclear-chernobyl-falha-tecnica-custo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/galpaodasmaquinas.com.br\/noticias\/acidente-nuclear-chernobyl-falha-tecnica-custo\/","title":{"rendered":"O acidente de Chernobyl destruiu 4 pa\u00edses em 9 dias e at\u00e9 hoje uma usina nuclear leva entre 10 e 20 anos para ser descomissionada com seguran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<h2>O reator 4 de Chernobyl explodiu em 26 de abril de 1986 e liberou 400 vezes mais radia\u00e7\u00e3o do que a bomba de Hiroshima em menos de 48 horas<\/h2>\n<p>\u00c0s 1h23 da madrugada de 26 de abril de 1986, o reator n\u00famero 4 da <strong>Usina Nuclear de Chernobyl<\/strong> entrou em colapso durante um teste de seguran\u00e7a mal planejado. A explos\u00e3o n\u00e3o foi nuclear no sentido convencional: foi uma combina\u00e7\u00e3o de vapor superaquecido e hidrog\u00eanio que destruiu a tampa de 1.000 toneladas do reator e jogou material radioativo diretamente na atmosfera. A cidade de Pripyat, a 3 quil\u00f4metros do local, s\u00f3 foi evacuada 36 horas depois.<\/p>\n<p>Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, o acidente contaminou <strong>mais de 150.000 quil\u00f4metros quadrados<\/strong> na Ucr\u00e2nia, Bielorr\u00fassia e R\u00fassia, for\u00e7ando o deslocamento permanente de cerca de 350.000 pessoas. A zona de exclus\u00e3o de 30 quil\u00f4metros ao redor do reator ainda hoje \u00e9 monitorada por dos\u00edmetros cont\u00ednuos, e algumas \u00e1reas permanecem inabit\u00e1veis para os pr\u00f3ximos 20 mil anos devido ao c\u00e9sio-137 depositado no solo.<\/p>\n<div class=\"youtube-embed\" data-video_id=\"7JSgB4iBZiA\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chernobyl Nuclear Power Plant | Minecraft Build Timelapse\" width=\"696\" height=\"392\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7JSgB4iBZiA?feature=oembed&#038;enablejsapi=1\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<h2>A estrutura do reator RBMK-1000 tinha uma falha de projeto conhecida pelos engenheiros sovi\u00e9ticos antes mesmo da inaugura\u00e7\u00e3o da usina em 1977<\/h2>\n<p>O modelo <strong>RBMK-1000<\/strong> era um reator de canal de grafite resfriado a \u00e1gua, uma tecnologia desenvolvida na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica exclusivamente para uso dom\u00e9stico e nunca exportada para outros pa\u00edses justamente por limita\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a. O problema central estava no coeficiente de vazio positivo: quando as bolhas de vapor aumentavam dentro do reator, a rea\u00e7\u00e3o nuclear acelerava em vez de desacelerar. Isso \u00e9 o oposto do que acontece em reatores de \u00e1gua pressurizada ocidentais.<\/p>\n<p>Documentos internos do Comit\u00ea de Energia At\u00f4mica Sovi\u00e9tico, revelados ap\u00f3s a dissolu\u00e7\u00e3o da URSS e citados pela Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica, confirmam que engenheiros identificaram essa caracter\u00edstica ainda na fase de projeto. A decis\u00e3o pol\u00edtica de manter o reator em opera\u00e7\u00e3o se sobrep\u00f4s \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas. Na noite do acidente, o operador Leonid Toptunov reduziu a pot\u00eancia do reator para um n\u00edvel que o tornava inst\u00e1vel, e a tentativa de corre\u00e7\u00e3o gerou a rea\u00e7\u00e3o em cadeia irrevers\u00edvel.<\/p>\n<h2>O confinamento do reator custou mais de 18 bilh\u00f5es de d\u00f3lares e envolveu 600 mil trabalhadores expostos a n\u00edveis de radia\u00e7\u00e3o que a maioria nunca soube que havia recebido<\/h2>\n<p>O primeiro sarc\u00f3fago constru\u00eddo sobre o reator destru\u00eddo foi erguido em apenas 206 dias, entre maio e novembro de 1986, com trabalho de cerca de <strong>600 mil trabalhadores<\/strong> chamados de &#8220;liquidadores&#8221;. Muitos receberam doses de radia\u00e7\u00e3o equivalentes a centenas de radiografias por hora de trabalho. A estrutura de concreto e a\u00e7o foi projetada para durar 30 anos, mas j\u00e1 apresentava rachaduras e riscos de colapso menos de 20 anos depois de conclu\u00edda.<\/p>\n<p>Em 2016, um novo confinamento foi instalado sobre o sarc\u00f3fago original. O <strong>New Safe Confinement<\/strong>, conforme denominado pela Autoridade de Gest\u00e3o de Chernobyl, \u00e9 uma estrutura arqueada de 108 metros de altura, 257 metros de comprimento e 36.000 toneladas de a\u00e7o, o maior objeto m\u00f3vel constru\u00eddo pelo ser humano. O projeto foi liderado pelas empresas Vinci e Bouygues, custou aproximadamente 1,5 bilh\u00e3o de euros e foi parcialmente financiado pela Uni\u00e3o Europeia. A estrutura foi deslizada sobre trilhos por 327 metros at\u00e9 cobrir completamente o reator destru\u00eddo.<\/p>\n<h2>O processo de descomissionamento completo da usina deve durar at\u00e9 2065, quase 80 anos ap\u00f3s o acidente, com custos que ainda n\u00e3o foram inteiramente calculados<\/h2>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muitos imaginam, descomissionar uma usina nuclear n\u00e3o \u00e9 simplesmente &#8220;fechar e abandonar&#8221;. Segundo a Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica, o processo envolve a remo\u00e7\u00e3o controlada de todo o combust\u00edvel, a descontamina\u00e7\u00e3o de estruturas, a fragmenta\u00e7\u00e3o de componentes radioativos e o armazenamento seguro dos res\u00edduos por s\u00e9culos. No caso de Chernobyl, os reatores 1, 2 e 3 continuaram em opera\u00e7\u00e3o por anos ap\u00f3s o acidente: o reator 3 s\u00f3 foi desligado definitivamente em dezembro de <strong>2000<\/strong>, 14 anos depois da explos\u00e3o.<\/p>\n<p>O governo ucraniano, em parceria com organismos internacionais, estima que o descomissionamento completo do complexo s\u00f3 ser\u00e1 conclu\u00eddo por volta de 2065. Isso inclui a remo\u00e7\u00e3o de aproximadamente 200 toneladas de combust\u00edvel nuclear fundido que ainda est\u00e3o solidificadas no interior do reator 4, uma massa chamada de &#8220;p\u00e9 de elefante&#8221; que emite radia\u00e7\u00e3o letal em quest\u00e3o de minutos para qualquer ser humano que se aproxime sem prote\u00e7\u00e3o adequada.<\/p>\n<div class=\"youtube-embed\" data-video_id=\"al5HSr6oGtw\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"COMO EXPLODIR a NOVA USINA NUCLEAR do Brookhaven! \u2622\ufe0f\ud83d\udca5\" width=\"696\" height=\"392\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/al5HSr6oGtw?feature=oembed&#038;enablejsapi=1\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<h2>No Brasil, a usina de Angra 1 completou 40 anos de opera\u00e7\u00e3o e j\u00e1 est\u00e1 em fase de planejamento para o descomissionamento, um processo que o pa\u00eds ainda n\u00e3o tem infraestrutura completa para executar<\/h2>\n<p>A <strong>Usina Nuclear de Angra 1<\/strong>, operada pela Eletronuclear, entrou em opera\u00e7\u00e3o comercial em 1985 e tem capacidade instalada de 657 megawatts, suficiente para abastecer cerca de 1 milh\u00e3o de resid\u00eancias. Sua licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o foi renovada pela Comiss\u00e3o Nacional de Energia Nuclear em 2024 por mais 20 anos, mas o debate sobre o que acontece depois cresce entre engenheiros e reguladores. O Brasil nunca descomissionou uma usina nuclear de grande porte.<\/p>\n<p>Segundo a pr\u00f3pria Eletronuclear, o pa\u00eds ainda carece de um reposit\u00f3rio definitivo para rejeitos radioativos de alta atividade. O combust\u00edvel nuclear irradiado de Angra 1 est\u00e1 armazenado em piscinas dentro da pr\u00f3pria planta desde a sua inaugura\u00e7\u00e3o. A constru\u00e7\u00e3o de um reposit\u00f3rio permanente em forma\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas profundas, como fazem Finl\u00e2ndia e Su\u00e9cia, ainda est\u00e1 em fase de estudos preliminares no Brasil, sem prazo definido para in\u00edcio das obras.<\/p>\n<h2>A reconstru\u00e7\u00e3o em escala real de Chernobyl no Minecraft com mais de 5 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es mostra como a mem\u00f3ria industrial de um desastre pode sobreviver em formatos inesperados<\/h2>\n<p>O canal Burtocu publicou uma reconstru\u00e7\u00e3o em timelapse da Usina Nuclear de Chernobyl inteiramente constru\u00edda no <strong>Minecraft<\/strong>, acumulando mais de 5,7 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es. A obra digital reproduz o complexo industrial completo: os quatro reatores, as torres de resfriamento, as salas de controle e os pr\u00e9dios auxiliares. O n\u00edvel de detalhe arquitet\u00f4nico \u00e9 compar\u00e1vel ao de maquetes t\u00e9cnicas usadas em treinamentos de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Esse tipo de produ\u00e7\u00e3o tem um efeito pr\u00e1tico pouco discutido: ele mant\u00e9m viva a mem\u00f3ria t\u00e9cnica de estruturas que o mundo n\u00e3o pode esquecer. Engenheiros, estudantes de f\u00edsica nuclear e operadores de usinas em todo o mundo usam reconstru\u00e7\u00f5es virtuais para entender a geometria de reatores hist\u00f3ricos. O acidente de Chernobyl ainda serve como caso de estudo obrigat\u00f3rio em cursos de seguran\u00e7a nuclear em pelo menos 34 pa\u00edses, conforme levantamento da Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica publicado em 2021.<\/p>\n<h2>A li\u00e7\u00e3o mais concreta de Chernobyl n\u00e3o \u00e9 sobre energia nuclear em si, mas sobre o que acontece quando dados t\u00e9cnicos s\u00e3o ignorados por decis\u00e3o pol\u00edtica ou press\u00e3o de prazo<\/h2>\n<p>O relat\u00f3rio final da Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica sobre Chernobyl, publicado em 1991 e revisado em 2005, conclui que o acidente foi resultado de uma combina\u00e7\u00e3o entre falha de projeto do reator e viola\u00e7\u00e3o deliberada dos procedimentos operacionais. Nenhum dos dois fatores teria sido suficiente sozinho para causar a explos\u00e3o. Foi a intera\u00e7\u00e3o entre os dois que tornou o desastre inevit\u00e1vel naquela madrugada.<\/p>\n<p>Desde 1986, nenhuma usina do tipo RBMK foi constru\u00edda fora da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. As 11 unidades RBMK ainda em opera\u00e7\u00e3o na R\u00fassia passaram por modifica\u00e7\u00f5es que eliminaram o coeficiente de vazio positivo e instalaram sistemas de desligamento de emerg\u00eancia mais r\u00e1pidos. O custo total do acidente de Chernobyl, somando evacua\u00e7\u00f5es, descontamina\u00e7\u00e3o, perda de produtividade regional e infraestrutura de confinamento, foi estimado pela Ag\u00eancia Econ\u00f4mica da ONU em mais de <strong>700 bilh\u00f5es de d\u00f3lares<\/strong> ao longo de tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Se os engenheiros que identificaram as falhas do RBMK-1000 ainda na d\u00e9cada de 1970 tivessem sido ouvidos, a hist\u00f3ria de quatro pa\u00edses seria completamente diferente. Voc\u00ea acredita que as usinas nucleares em opera\u00e7\u00e3o hoje no mundo t\u00eam supervis\u00e3o t\u00e9cnica suficientemente independente das press\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas? Deixe sua opini\u00e3o nos coment\u00e1rios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O reator 4 de Chernobyl explodiu em 26 de abril de 1986 e liberou 400 vezes mais radia\u00e7\u00e3o do que a bomba de Hiroshima em menos de 48 horas \u00c0s 1h23 da madrugada de 26 de abril de 1986, o reator n\u00famero 4 da Usina Nuclear de Chernobyl entrou em colapso durante um teste de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":4568,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_yoast_wpseo_focuskw":"acidente nuclear Chernobyl","_yoast_wpseo_title":"Chernobyl: o acidente que ainda custa 700 bilh\u00f5es","_yoast_wpseo_metadesc":"O reator 4 de Chernobyl explodiu em 1986 e liberou 400 vezes mais radia\u00e7\u00e3o que Hiroshima. 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