A fábrica da TSMC no Arizona custa 65 bilhões de dólares e representa a maior aposta dos Estados Unidos para produzir chips avançados em solo americano sem depender da Ásia

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Em um deserto do Arizona, a TSMC ergueu uma fábrica de 3,5 milhões de metros quadrados que pode mudar o equilíbrio global da produção de semicondutores

Nenhum produto fabricado ali cabe na palma da mão. Os chips produzidos na nova planta da TSMC em Phoenix são menores do que uma impressão digital, mas o complexo que os fabrica ocupa 1.100 acres de deserto e custará, quando totalmente concluído, cerca de 65 bilhões de dólares em investimento total. É o maior investimento estrangeiro em manufatura da história dos Estados Unidos.

A fábrica já saiu do papel. Segundo a CNBC, o primeiro edifício do complexo está operacional e começa a produzir chips em tecnologia de 4 nanômetros, o mesmo padrão usado nos processadores mais avançados da Apple fabricados até então em Taiwan. A segunda fase, prevista para 2028, vai produzir chips de 2 nanômetros. A terceira, ainda em planejamento, pode alcançar tecnologia de 1,6 nanômetros, o que colocaria o Arizona entre os endereços mais tecnologicamente avançados do planeta.

A Apple será a principal cliente da fábrica do Arizona, e os processadores da linha iPhone podem ser fabricados em solo americano pela primeira vez em décadas

A TSMC domina aproximadamente 90% da produção mundial de chips avançados, abaixo de 7 nanômetros, segundo dados da empresa de análise TrendForce. Toda a linha de processadores A-series da Apple, os chips M para MacBooks e os processadores que equipam iPhones e iPads saem de fábricas em Taiwan. A nova planta em Phoenix muda esse arranjo de forma estrutural.

Conforme a CNBC, a Apple já confirmou que será cliente da fábrica americana e que parte dos chips dos próximos dispositivos será fabricada no Arizona. Isso representa não apenas uma decisão comercial, mas uma mudança na cadeia de suprimentos que levou décadas para ser construída no sudeste asiático. Fabricar um chip de 4 nanômetros exige mais de 1.000 etapas de produção, câmaras com ar mais puro do que qualquer sala cirúrgica e equipamentos que custam individualmente mais de 150 milhões de dólares cada.

A dependência americana de chips asiáticos ficou exposta durante a pandemia, quando a falta de semicondutores paralisou fábricas de automóveis e elevou o preço de produtos eletrônicos em todo o mundo

Entre 2020 e 2022, a escassez global de semicondutores custou à indústria automotiva americana mais de 210 bilhões de dólares em receita perdida, segundo estimativa da AlixPartners. Montadoras como Ford e General Motors suspenderam linhas de produção por meses. A causa raiz era simples: quase nenhum chip crítico era fabricado em território americano.

Em resposta direta a esse colapso logístico, o governo dos Estados Unidos aprovou em 2022 o CHIPS and Science Act, que destina 52 bilhões de dólares em subsídios e incentivos fiscais para estimular a produção doméstica de semicondutores. A TSMC recebeu 6,6 bilhões de dólares em subsídios diretos do governo federal para viabilizar a fábrica do Arizona, segundo o Departamento de Comércio dos Estados Unidos.

Construir uma fábrica de chips nos Estados Unidos é entre 40% e 50% mais caro do que na Ásia, e esse diferencial de custo é o maior obstáculo estrutural para a reindustrialização americana no setor

O custo elevado não é acidente. Ele reflete décadas de desindustrialização que esvaziaram o ecossistema de fornecedores, técnicos especializados e infraestrutura de suporte necessários para operar fábricas de alta complexidade. Segundo a Semiconductor Industry Association, os Estados Unidos produziram 37% dos chips globais em 1990. Em 2022, essa participação havia caído para 12%.

A TSMC enfrentou dificuldades concretas no Arizona: falta de técnicos qualificados localmente, atrasos na cadeia de suprimentos e custos de construção acima do previsto. A empresa chegou a importar engenheiros de Taiwan para acelerar a instalação dos equipamentos. O prazo de conclusão da primeira fase atrasou aproximadamente dois anos em relação ao cronograma original.

O ex-senador americano Patrick Toomey argumenta que a automação, e não a China, destruiu a maior parte dos empregos industriais nos Estados Unidos, e os dados históricos sustentam essa tese

Em debate promovido pelo Council on Foreign Relations, o ex-senador republicano da Pensilvânia Patrick J. Toomey apresentou um argumento que contraria a narrativa política dominante: entre 1979 e 2019, os Estados Unidos perderam cerca de 7 milhões de empregos industriais. Estudos do MIT e da Universidade de Zurique estimam que até 88% dessas perdas foram causadas pela automação, não pela concorrência chinesa.

A automação destruiu empregos repetitivos em velocidade muito superior ao que qualquer política tarifária poderia reverter. Robôs industriais, sistemas CNC e linhas de montagem automatizadas substituíram trabalhadores em funções que pagavam entre 40 mil e 60 mil dólares anuais. Trazer de volta essas fábricas fisicamente não reconstitui esses empregos: a fábrica da TSMC no Arizona, com toda sua escala, vai empregar cerca de 6.000 trabalhadores diretos, segundo a própria empresa.

No Brasil, a dependência de chips importados afeta diretamente setores como telecomunicações, automação industrial e agronegócio, e não existe política pública equivalente ao CHIPS Act americano

O Brasil importa praticamente 100% dos semicondutores que consome, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Em 2023, a conta de importação de chips e componentes eletrônicos ultrapassou 10 bilhões de dólares. O agronegócio, setor que responde por cerca de 25% do PIB nacional, depende diretamente de chips para sistemas de rastreamento, sensores de precisão e equipamentos de automação agrícola.

A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (ABINEE) registrou que a escassez global de semicondutores entre 2021 e 2022 gerou perdas estimadas em 9 bilhões de reais para o setor eletroeletrônico brasileiro. Não existe no país uma política de incentivo à produção doméstica de chips com escala comparável à americana, embora o governo federal tenha incluído semicondutores como prioridade no programa Nova Indústria Brasil lançado em 2024.

A fábrica do Arizona representa uma aposta geopolítica tão grande quanto tecnológica, porque Taiwan concentra mais de 90% da produção mundial de chips avançados a menos de 200 quilômetros da China continental

A tensão geopolítica no estreito de Taiwan é o argumento mais poderoso por trás de todo o investimento americano. Se Taiwan sofresse qualquer interrupção, seja por conflito, bloqueio ou desastre natural, a economia global perderia acesso à quase totalidade dos chips avançados em questão de semanas. Segundo análise do Center for Strategic and International Studies (CSIS), um bloqueio de seis meses em Taiwan custaria à economia global mais de 1 trilhão de dólares.

A fábrica do Arizona não resolve esse problema sozinha. Mas representa a primeira tentativa concreta de diversificar geograficamente a cadeia de produção de semicondutores em décadas. Quando a segunda fase entrar em operação em 2028, os Estados Unidos terão em solo próprio capacidade de produzir chips de 2 nanômetros, tecnologia que hoje existe apenas em Taiwan e, em menor escala, na Coreia do Sul.

A reindustrialização de alta tecnologia tem um custo que vai muito além dos 65 bilhões de dólares anunciados: ela exige reconstruir em anos um ecossistema industrial que levou décadas para se deslocar para a Ásia. O Arizona é o primeiro capítulo desse experimento, e seus resultados vão definir se outros países, incluindo o Brasil, podem imaginar caminhos semelhantes.

A dependência de semicondutores asiáticos é um risco que os Estados Unidos levaram décadas para reconhecer: outros países conseguirão agir com mais rapidez antes que a próxima crise de suprimentos chegue? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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