O Brasil registrou superávit comercial de US$ 6,4 bilhões em março de 2026, o menor resultado para o período desde 2020, segundo dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O número acende um alerta sobre a competitividade externa da indústria nacional, exposta à pressão crescente de importados e à retração das exportações de manufaturados.
Importações em alta, manufaturados em baixa
A deterioração do saldo reflete, em parte, o crescimento das importações, impulsionado pela demanda interna aquecida e pela preferência por bens industriais estrangeiros. Ao mesmo tempo, as exportações de produtos industrializados perderam fôlego em meio à volatilidade do comércio global, agravada pelas novas tarifas anunciadas pelos Estados Unidos no início de 2026. O resultado é um saldo menor mesmo num mês em que o Brasil historicamente registra superávits expressivos.
A pauta exportadora brasileira continua concentrada em commodities agrícolas e minerais, com participação reduzida de manufaturados de alto conteúdo tecnológico. Essa estrutura torna o saldo comercial refém de oscilações nos preços internacionais de matérias-primas e vulnerável à concorrência de produtos industrializados da Ásia e da Europa, que avançam tanto no mercado doméstico quanto em mercados terceiros onde o Brasil compete.
O programa Nova Indústria Brasil sob escrutínio
O fraco desempenho de março reacende as críticas às políticas de reindustrialização em curso. O programa Nova Indústria Brasil prevê investimentos da ordem de R$ 70 bilhões em 2026, mas o dado da balança comercial levanta dúvidas sobre a capacidade dessas iniciativas de alterar, no curto prazo, a composição das exportações nacionais. A indústria de transformação, que nas últimas décadas perdeu participação tanto no PIB quanto na pauta exportadora, segue sem sinais claros de recuperação estrutural nos números do comércio exterior.
O resultado de março de 2026 contrasta com os superávits registrados no mesmo período nos anos anteriores à pandemia e durante o ciclo de alta das commodities entre 2021 e 2023, quando os saldos comerciais chegaram a superar US$ 9 bilhões em março. A queda para US$ 6,4 bilhões representa um recuo relevante num contexto em que o país ainda depende do agronegócio e da mineração para sustentar suas contas externas.

