A Stellantis, montadora formada pela fusão entre a Fiat Chrysler Automobiles e o Grupo PSA, concluída em janeiro de 2021, enfrenta uma crise operacional e comercial que expõe os limites das megafusões industriais transnacionais. Nos Estados Unidos e no Canadá, a empresa perdeu participação de mercado de forma acelerada ao longo de 2024 e início de 2025, pressionada por estoque represado que chegou a superar 100 dias de vendas em alguns modelos, preços fora da realidade competitiva local e uma transição para veículos elétricos que não foi bem absorvida pela estrutura herdada da fusão.
A saída de Tavares e o vácuo de liderança
O ponto de inflexão mais visível foi a saída de Carlos Tavares da presidência executiva, em dezembro de 2024. O executivo deixou o cargo após conflitos internos sobre os rumos estratégicos da companhia, e a saída turbulenta gerou desconforto entre investidores, fornecedores e concessionários que dependem de uma direção clara para planejar seus próprios negócios. Sem um CEO permanente no momento mais crítico, a Stellantis precisou conduzir sua reestruturação sem a estabilidade que o cargo costuma oferecer.
A empresa reúne marcas como Jeep, Ram, Dodge, Chrysler, Maserati, Alfa Romeo, Peugeot e Citroën. Manter uma estratégia coerente para um portfólio tão diverso, com públicos e posicionamentos distintos, é uma das tarefas mais complexas da gestão atual.
Reestruturação em curso
A resposta da Stellantis à crise passou por três frentes simultâneas: redução dos estoques acumulados nos revendedores, renegociação de contratos com fornecedores e relançamento de modelos-chave com preços mais alinhados ao consumidor norte-americano. O excesso de estoque era um problema estrutural, não pontual, reflexo de uma política de preços que priorizou margens no curto prazo e subestimou a sensibilidade do mercado americano à competição crescente de montadoras asiáticas e da Tesla.
A cadeia de suprimentos também contribuiu para o cenário adverso. Gargalos herdados do período pós-pandemia se combinaram com dificuldades de integração entre as operações industriais europeias e norte-americanas, resultado direto de uma fusão entre duas culturas corporativas distintas, com históricos, processos e fornecedores diferentes.
O que o caso Stellantis revela sobre megafusões industriais
Fusões da escala da Stellantis raramente produzem as sinergias prometidas no prazo originalmente previsto. A integração cultural e operacional entre empresas de países diferentes tende a ser subestimada nos modelos financeiros que justificam as operações. No caso da Stellantis, a fusão entre a FCA, de base italiana e americana, e o Grupo PSA, essencialmente francês, colocou sob um mesmo teto lógicas industriais e comerciais que ainda não convergem completamente, quatro anos após o fechamento do negócio.
A Stellantis registrou queda de 15% nas vendas nos Estados Unidos em 2024 em relação ao ano anterior, segundo dados da indústria automotiva americana, encerrando o ano com uma das piores performances entre as grandes montadoras no país.

